Formato: 14  21
Mancha: 10  16 + 1,5
Fonte: Aldine 401 BT
Corpo: 11,5/16
304 pgs.
GABARITO PARA MONTAGEM:
dentro: 22 mm / fora: 15 mm




                GOSSIP GIRL 8: NUNCA MAIS!
                                  CECILY VON ZIEGESAR

                              OP: K353 -- PAGE MAKER 6.5

                                 2 PROVA -- PAGINADA

                                      C. ALBERTO
                                       19/07/2007


                               GABARITO PARA MONTAGEM:
                              dentro: 22 mm / fora: 15 mm
4
 Quando me vejo entre dois males,
em geral escolho o que nunca tentei.

                     -- Mae West




                                       5
6
               gossipgirl.net
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Advertncia: Todos os nomes verdadeiros de lugares, pessoas e fatos foram alterados
ou abreviados para proteger os inocentes. Quer dizer, eu.




                               oi, gente!

    Junho est bem pertinho e Nova York fica como uma vela Di-
    ptyque acesa: quente e perfumada, linda e reluzente. Agora
    que est anoitecendo tarde, mal sabemos a diferena entre
    noite e dia. No que isso tenha importncia. Nesta poca do
    ano, nosso pedao -- tambm conhecido como o Upper East
    Side -- fica praticamente livre dos pais. Eles ficam to ocupa-
    dos com jogos de plo e festas em jardins, partidas de tnis e
    de golfe nas casas de campo em Ridgefield, em Connecticut;
    Bridgehampton, em Long Island; Newport, em Rhode Island;
    ou Mt. Desert Isle, no Maine, que nos permitem mandar na
    cidade. At parece que ns deixamos de mandar na cidade
    um dia que seja na vida. Nossos nomes esto no topo das lis-
    tas de clientes de cada restaurante, clube e hotel exclusivo
    em Manhattan desde o dia em que nascemos. Andamos em
    bando, dominando a cena de norte a sul, leste a oeste. Toda a
    ilha  e sempre ser nossa, mas com junho vem a formatura
    e, para ns, veteranos, isso significa dizer adeus. Mas no fi-
    que toda bobalhona e triste. Est na hora de realmente dei-




                                                                                 7
    xar sua marca. Se conseguirmos o que quisermos na forma-
    tura, logo teremos nossos prprios carros.  nossa vez de ser
    mais espalhafatosas, mais arrogantes e mais lindas do que
    nunca -- fon-fon! E como no tem ningum para nos censu-
    rar (como se algum ligasse para isso), est na hora de ser
    seriamente malcriada.

    Cinco motivos para nos divertirmos mais do que nunca na
    vida:

    1) Estudar para as provas finais  um tdio mortal.

    2)  quase vero!

    3) Ns merecemos!

    4) O ar-condicionado vai ficar to alto, que temos que des-
       cobrir algum jeito de nos aquecer -- coa, coa.

    5)  nossa ltima chance. A maioria de ns vai viajar no
       vero e, depois disso, seguir para a universidade. Ento
        agora.

    Antes que voc enlouquea e faa alguma coisa de que possa
    se arrepender, vai precisar decidir se voc e seu namorado
    so dedicados o bastante para ter um relacionamento a dis-
    tncia durante todo o vero e na universidade. Imagine-se cer-
    cada de gatos bronzeados com cales de surfe Billabong, os
    ps descalos cheios de areia, oferecendo-lhe uma carona em
    seus Porsches Cabriolets. Imagine os gostoses do campus s
    com as lindas cuecas samba-cano J. Crew brancas de boli-
    nha verde-menta a caminho do banho no alojamento misto.



8
Sinceramente, ser que voc poder resistir? Por que no se
poupar da dor de um torturante rompimento arrastado, ter-
minando tudo agora? Depois deleite-se com um lance sem
importncia com aquele nerd tmido e adorvel, com quem
voc foi ao baile da escola na stima srie, e que no  mais
assim to nerd. Voc no tem absolutamente nada a perder.
E enquanto estiver nessa, por que no pelo menos fingir ser
legal com a dentua de cabelo seboso que voc esqueceu de
convidar para sua festa de aniversrio na oitava srie e em
todas as festas de aniversrio desde ento? Assim ela pode
apontar voc na foto do livro do ano e se vangloriar com
todas as novas colegas no Mt. Hollyhock ou na faculdade
idiota para onde ela vai no ano que vem: "Est vendo essa
garota aqui? Ela  uma das minhas melhores amigas!" Mas
nem pensar em tentar reacender velhos romances e conser-
tar amizades estragadas.

No sei quanto a voc, mas estou passando por uma tremen-
da crise de moda. A maioria das escolas particulares para me-
ninas leva a formatura muito a srio. As meninas tm de usar
longos brancos, luvas brancas e sapatos brancos. Parece um
casamento, s que somos libertadas em vez de amarradas --
baaa! Ainda assim, fica a questo: Oscar ou no Oscar. Os-
car de la Renta, quer dizer. Se voc vai de Oscar, provavelmente
vai correr o risco de estar com o mesmo vestido de seis colegas
de turma, embora voc saiba que vai ficar muito melhor nele
do que elas. E o que  legal em vestir branco  que voc sem-
pre pode tingir e usar novamente. T, tudo bem -- como se
voc quisesse usar aquele vestido de novo!



                                                                   9
     Enquanto tenho sua ateno, vamos dar uma olhada em al-
     gumas de nossas pessoas preferidas...


     O estranho casal

     Tem havido alguma especulao de que o relacionamento
     entre essas diametralmente opostas moradoras de um aparta-
     mento em Williamsburg no  a situao to simples e con-
     veniente de dividir uma casa, mas algo mais -- como posso
     dizer? -- romntico. B parece estar usando muito preto ulti-
     mamente e os sapatos dela esto ficando parrudos. E o que
     era aquela fivela prata da Tiffany que outro dia estava no ca-
     belo supercurto de V? D para imaginar essas duas aninhadas
     no sof, uma penteando o cabelo da outra, trocando Manolos
     e Doc Martens?... Quem precisa dos homens?!


     E por falar em homens

     B pode ter desistido totalmente deles -- quem no desisti-
     ria, depois da ltima proeza de N? -- mas V parece estar
     gostando cada vez mais da companhia do sexo oposto. Ela
     e A, o meio-irmo vegetariano de B, andaram aprontando
     das suas seminus em cafeterias e bancos de parque em toda
     Williamsburg. Nada como uma demonstrao pblica de
     afeto para colocar fogo em V!

     E quanto a N, voc achava que ele estava no topo do mundo
     depois de pegar a louraa mais desejada da cidade -- bem
     na cara de B, na banheira da casa de jogos durante o dia de
     spa das veteranas em Southampton, nada menos do que is-



10
     so. Mas no. Voc tem visto N? Olhos avermelhados, lenos
     sujos caindo dos bolsos, um jeito embaado. Nosso garoto
     dourado parece estar numa infelicidade terrvel. Ou talvez ele
     tenha pego uma doena sexualmente transmissvel de uma
     daquelas vagabas francesas com quem, segundo dizem, ele
     andou aprontando. Est vendo? No vale a pena ser ambici-
     osa demais. At parece que isso um dia nos impediu.


 Seu e-mail

       Cara GG,
P:
       Vou para Vassar no ano que vem e sou apaixonada por um
       cara desde que tinha trs anos, e acabo de descobrir que
       ele vai para Vassar tambm! Estou to animada, mas tam-
       bm fiquei preocupada em passar tanto tempo tentando
       conseguir que ele fale comigo, que nem perceba que es-
       tou na faculdade, sabia?
       -- Ivstrk

       Cara Ivstrk,
R:
       Me desculpe a grosseria, mas tenho a sensao de que voc
       j passou muito tempo tentando conseguir que esse cara
       fale com voc. Espere at chegar a Vassar -- vai haver todo
       um novo grupo de rapazes incrveis que voc nunca viu, e
       alguns podem at merecer mais o seu amor. E como ultima-
       mente a maioria dos alojamentos  mista, voc no pode
       deixar de falar com eles!
       -- GG




                                                                      11
     Flagras

     B e V comprando ps de manjerico em vaso em um mercado
     de plantas de Williamsburg. Talvez os boatos gays sobre as
     duas sejam verdadeiros. C entrando em uma barbearia de
     Greenwich Village para raspar a cabea e saindo com o cabelo
     mais comprido do que antes e com luzes louqussimas. De jeito
     nenhum ele vai durar um ms que seja na academia militar. N
     no terrao do Met, olhando melanclico o Central Park. Olha
     como nosso playboy chapado preferido est em um tdio dos
     brabos. D olhando Buicks amassados em uma loja vagabunda
     de carros usados no Harlem. At parece que ele sabe como
     operar uma alavanca de cmbio. J fazendo um SSAT solo -- o
     exame de admisso para o internato -- em um sbado na sala
     da diretora da Constance Billard. Ela est decidida a ir, e sua es-
     cola est ainda mais decidida a se livrar dela!


     S o que voc precisa fazer  passar

     Um conselho: no perca uma liqidao da Zac Posen ou um
     trunk show de Stella McCartney s para ir numa daquelas ses-
     ses de reforo para a prova final sobre tudo-o-que-aprende-
     mos que os professores "recomendam" que a gente faa
     depois da aula. Sirva-se de um copo de pinot grigio gelads-
     simo e leia casualmente seus cadernos. S o que voc precisa
     fazer  passar e, pode acreditar, voc  muito mais inteligente
     do que pensa. Boa sorte, meus amores. Estou louca para ver
     vocs na formatura!

                       Pra voc que me ama,

                       gossip girl


12
aonde todas elas vo
-- Vai experimentar esse? -- perguntou com timidez uma
veterana estranhamente subdesenvolvida chamada Alison
Baker a Blair Waldorf. Blair empurrou o cabide prateado pelo
trilho para Alison. Um vestido branco de linho, duro feito
papelo, de um estilista escandinavo qualquer? No, obrigada.
    -- Fica com ele -- respondeu generosamente.
    Alison tinha cabelo fino e castanho na altura da cintura,
um buraco entre os dentes da frente e era esqulida. Vestia
uma blusa branca abotoada todo santo dia e o tipo de sapato
azul-marinho de cadaro que a escola Constance Billard
exigia no jardim de infncia, mas que j era uniforme ultra-
passado na primeira srie. Um dia, na quarta srie, Alison
fez xixi nas calas na biblioteca porque no quis ir ao banheiro
antes de terminar Anne of Green Gables, e passou o resto do
dia sem calcinha e usando uma cala Hanna Anderson de l
amarelo-mostarda pequena demais para ela da sesso de acha-
dos e perdidos.
    Ai, ai, ai.



                                                             13
     Na sexta srie, Alison em vo convidara Blair a sua casa de
veraneio em Osterville, em Cape Cod, por duas semanas se-
guidas antes de finalmente desistir. Depois passou a espalhar
o boato srdido de que o pai de Blair no a deixava passar os
fins de semana fora porque ele e Blair tinham uma relao
incestuosa e esse era o nico momento em que eles ficavam
juntos.
     O pai totalmente gay da Blair? Acorda, idiota!
     -- Esse vestido ia ficar incrvel em voc. Meus ombros
so estreitos demais para ele -- mentiu Blair.
     Alison colocou o vestido por cima da blusa e deixou que o
uniforme da Constance Billard casse no cho. O vestido se
pendurava em seu corpo vara-pau como um saco de batatas
encharcado. Com o cabelo castanho de rato dividido ao meio,
ela parecia a garota possuda pelo diabo naquele filme de ter-
ror nojento, O exorcista.
     -- No acha que est grande demais? -- perguntou ela a
Blair.
     Nem mesmo Blair tinha coragem de fingir que Alison
realmente estava bem.
     -- Talvez -- respondeu ela, preocupada demais com a
pilha de camisetas de seda colantes e compridas Diane von
Furstenberg em cores vivas para ligar para a garota.
     -- Ei, eu ia experimentar essa a! -- Isabel Coates arran-
cou uma tnica Stella McCartney das mos de Rain Hoffstetter
e a levantou junto ao corpo atarracado e sem cintura. Ela estava
deixando crescer a franja, e o cabelo macio e escuro estava pre-
so na testa em sete lugares diferentes numa espcie de desor-
dem intencional que parecia meio legal e meio retardada.


14
     -- Se ligaaaaa! Esse  tamanho PP. De jeito nenhum voc
 PP -- respondeu Rain, pegando a bainha da tnica e ame-
aando arranc-la das mos de Isabel. -- Eu sou mais baixa
do que voc -- insistiu ela com determinao, embora, como
Isabel, Rain estivesse muito mais para M do que para PP.
     -- No sei por que vocs esto sendo to cretinas por
causa desse vestido idiota -- bocejou Blair para elas enquanto
passava para uma arara de suteres de algodo com contas
lils e rosa Nicole Farhi. -- No  branco, e olha aqui. -- Ela
apontou um dedo com esmalte prola para o cabide acolcho-
ado de cetim branco onde a tnica estava pendurada. -- O
cinto dele  rosa. Nossos vestidos de formatura tm que ser
totalmente brancos.
     Embora fosse dois nmeros menor do que ela, Isabel ain-
da se agarrava ao vestido como se sua vida dependesse disso.
     -- Bom, talvez eu no queria para a formatura. Talvez eu
tenha uma festa para ir ou coisa assim.
     At parece que ela era convidada para festas secretas que
Blair desconhecia.
     Era a inaugurao do trunk show da Browns of London no
salo principal do hotel St. Claire, e este grupo em particular
de veteranas da Constance Billard matou a primeira aula para
estar l. Que melhor maneira de encontrar o vestido que ti-
nha sido apresentado na Inglaterra mas nunca vendido em
Nova York -- o vestido de formatura perfeito, desejado, ex-
clusivo? O nico problema era que todos os vestidos de for-
matura tinham de ser brancos, e a maioria dos estilistas fugiam
dos vestidos completamente brancos para no invocar as ima-


                                                            15
gens nada sensuais de batizados de bebs e da pastorinha Little
Bo Peep.
     Para no falar de vestidos de noiva.
   -- Que pssimo que este aqui tenha cauda -- refletiu
Kati Farkas, erguendo um vestido de cetim alvo, de mangas
bufantes, de Alexander McQueen que parecia a roupa que a
Bela Adormecida tinha usado para dormir quando apagou
por cem anos.
    -- Eca -- Isabel fungou. -- A cauda definitivamente no
 a nica coisa errada nele.
    O trunk show consistia em 58 araras de vestidos -- in-
clusive vestidos de baile, de coquetel, de casamento e de
damas-de-honra, saias, blusas, cardigs e calas capri, duas
araras de chapus e at uma arara cheia de tiaras, vus e
echarpes. As roupas eram lindas e tremendamente bem-
feitas, mas as meninas no estavam sendo gentis com elas.
Espalharam todas pelo carpete prpura e o salo, em geral
glamouroso e muito iluminado, parecia o closet de uma
socialite de Manhattan, moradora do Upper East Side e
louca por moda, em um frenesi alcolico antes de se vestir
para uma festa beneficente.
    O tropel de meninas  caa do vestido de formatura caiu
em silncio por um momento quando uma loura alta com
enormes olhos azul-escuros abriu a porta para o salo e entre-
gou  segurana a bolsa Louis Vuitton Calla Lily de couro ver-
de e branco. Atrs dela vinha um cara bronzeado com cabelos
castanho-dourados e um pouco ondulados e olhos verdes
faiscantes.


16
    -- Aposto que eles se atrasaram porque tiveram que dar
uma parada primeiro -- disse Rain rindo, cutucando Nicki
Button nas costelas. No fim de semana, Rain e Nicki fizeram
chapinha japonesa juntas e seus cabelos castanho-escuros pa-
reciam incomumente retos e acetinados, como se tivessem
sido colados por especialistas do museu de cera de Madame
Tussaud em Londres.
    -- Olha. A Blair est fingindo total que no viu os dois
entrarem. Ai meu Deus, e Serena est, tipo assim, andan-
do direto para ela! -- cochichou Laura Salmon de forma
estridente.
    Com os braos cheios de vestidos, as outras meninas se-
guiram Serena van der Woodsen com os olhos enquanto ela
flutuava para uma arara de chapus de palha elegantes-mas-
ainda-assim-meio-bregas para vero a um metro de distncia
de Blair e comeava a experiment-los.
    -- Legal -- comentou Nate Archibald sem nenhum en-
tusiasmo de onde estava encostado na parede, parecendo mais
introspectivo do que o normal. Este era o tipo de trunk show
onde, em vez de esperar eternamente na fila para usar as salas
privativas de prova, a maioria das meninas se despia entre as
araras para experimentar as roupas. Mas Nate era o cara mais
desejado do Upper East Side. As meninas ficavam nuas num
estalar de dedos, e ainda assim o objeto de cobia era ele, e
no elas. No era de surpreender que ele no ficasse impres-
sionado. Tambm era bvio, pelo modo como mantinha os
olhos treinados em seus tnis Stan Smith edio limitada, que
ele estava fazendo o mximo para fingir que no tinha visto
que Blair -- a garota com quem ele devia passar o resto da


                                                           17
vida se ele no tivesse fodido tudo h s uma semana por ter
ficado com Serena no dia do spa das veteranas -- estava a ape-
nas seis metros de distncia, olhando para ele.
    Depois de dar o flagra em Nate e Serena, Blair jurara a si
mesma que no ia pirar quando visse os dois, ou pegar o ob-
jeto afiado ou pesado que estivesse mais perto e atirar na ca-
bea deles, gritando, "Traidores, tarados de merda!". Mas ela
no pde deixar de sentir mais do que uma pequena irritao
ao ver como eles ficavam bem juntos. As luzes naturais no
cabelo de Nate eram exatamente do mesmo louro claro do
cabelo de Serena, e os dois tinham o mesmo brilho saudvel
banhado de sol, como se tivessem passado horas juntos em
uma manta no Sheep Meadow, beijando-se e bronzeando-se.
Serena usava uma camisa plo azul-marinho surrada de Nate,
a gola desbotada e a bainha puda, e, na luz forte do salo, o
rosto de Nate cintilava um pouco do gloss rosa-claro Vincent
Longo de Serena.
    O que poderia at ser uma gracinha em outras circuns-
tncias, mas que naquele exato momento no era nada gracinha.
    Ainda assim, havia algo imprprio naquela unio. Nate
parecia magro e deprimido, e Serena estava distrada e mais
avoada do que o de costume. Blair ficou satisfeita com a idia
de que eles definitivamente no estavam felizes. Nate devia
estar sempre chapado demais para dar ateno a Serena da
forma como exigia com seu jeito passivo-agressivo. E Serena
provavelmente se esquecia de ligar para Nate o tempo todo.
Ele fingia no gostar dos telefonemas constantes, mas no fun-
do precisava deles como as crianas precisam ser sempre lem-
bradas de que so o centro do universo. Com um sorriso


18
reservado e presunoso, Blair voltou  arara de vestidos Ghost
que estava vasculhando numa tentativa indiferente de encon-
trar alguma coisa original e irresistvel para usar na cerimnia
de formatura da Constance Billard, que ia acontecer s dali a
duas semanas.
    Exatamente. Por que desperdiar energia odiando os dois
quando havia questes muito mais importantes a resolver,
como comprar um vestido?
    Serena tirou o chapu que estava usando e experimentou
um de seda preta com prolas falsas pequenininhas costura-
das em todo ele e um vu de malha preta pouco abaixo dos
olhos. Ela franziu os lbios com gloss no espelho e concluiu
que parecia Madonna em Evita, ou uma esposa-trofu qual-
quer de um chefo do crime. Essa era uma das coisas que ela
adorava tanto na atuao. Ela podia bater as pestanas de seus
olhos azuis por trs de um vu para o pblico e de repente era
uma figura trgica que precisava desesperadamente de um
pouco de amor e carinho ou, na melhor das hipteses, de
um coquetel.
    Este chapu em particular era muito dramtico, e era exata-
mente assim que ela estava se sentindo ultimamente. No o dra-
mtico deprimente, nem o dramtico absorto, mas o dramtico
comportando-se-de-um-jeito-que-no--exatamente-o-dela. Ela
olhou de lado para Blair, que vasculhava fervorosamente uma arara
de vestidos, recusando-se sequer a reconhecer a presena de Se-
rena. Serena trocou o chapu preto por uma faixa de veludo roxo
horrenda, cheia de frutas e folhas falsas costuradas. Se ao menos
Blair olhasse para ela, Serena sabia que ela ia mijar nas calas de
tanto rir. Mas Blair continuava de costas. Serena suspirou. H


                                                                19
apenas uma semana elas eram grandes amigas. Agora essa. Ela e
Nate estavam juntos e Blair no estava falando com eles.
    Agarrar-se na banheira na festa de Isabel tinha sido um
acidente total e, se Blair no os tivesse pego, provavelmente
eles teriam parado por a. Mas teria sido cruel demais se agar-
rar na frente dela e depois no tentar fazer com que isso sig-
nificasse alguma coisa. Embora ela e Nate nunca tivessem
discutido o assunto, os dois se importavam demais com Blair
para no ficar juntos, de modo que ela no pensasse que era
s uma agarrada tarada qualquer entre duas pessoas lindas e
autocentradas que no conseguiam se controlar.
    E era isso mesmo.
    Alm disso, no era to difcil ficar juntos. Os dois eram
lindos, se adoravam -- sempre se adoraram -- e a cobertura
na Quinta Avenida de Serena ficava a apenas quatro quadras
de distncia da casa de Nate, entre a Park e a Lexington. Alm
disso, s o que eles realmente fizeram foi namorar, porque a)
eles se conheciam desde que engatinhavam, ento no era
nenhuma novidade, e b) embora isso pudesse deixar Serena
feliz, eles no foram at o fim porque Nate parecia estar vi-
vendo um problema ultimamente...
    Hein? E que tipo de "problema" seria esse?
    -- Oi, Serena -- disse Isabel da arara de Stela McCartney.
-- Eu soube que voc foi indicada para ser a oradora da for-
matura pelo Sr. Beckham.
    Serena devolveu a faixa roxa de frutinhas ao gancho.
    --  mesmo? -- respondeu ela com uma surpresa autn-
tica. O Sr. Beckham era o professor de cinema da Constance
Billard. Ela parara de fazer cinema no segundo ano e nem


20
mesmo freqentara Constance nos ltimos dois anos. Estava
em Hanover Academy, em New Hampshire, at que meio que
perdeu as primeiras semanas do ltimo ano e eles a manda-
ram de volta. Por que o Sr. Beckham, de todas as pessoas, in-
dicou justamente Serena para ser a oradora?
     Boa pergunta.
     -- E a, vai topar? -- insistiu Isabel.
     Serena tentou se imaginar parada no pdio em Brick
Church na Park Avenue, dirigindo-se a sua turma, com seu
imaculado vestido branco e suas imaculadas luvas brancas. Ah,
os lugares para onde vou. Nosso futuro  to luminoso, vamos ter de
usar culos de sol etc. Ela pode ter gostado de ter sido atriz e
modelo, mas oradora motivacional no era exatamente a praia
de Serena. Certamente uma de suas outras colegas de turma
seria melhor para isso.
     -- Talvez -- respondeu ela sem se comprometer.
     Piranha, pensou Blair, as orelhas doendo de ouvir a con-
versa. Desde o famoso incidente da banheira na festa de Isa-
bel, Blair ficara obsessivamente determinada a surpreender a
todos, colocando-se acima do comportamento idiota e perni-
cioso de Serena e Nate, dando a impresso de que ela no li-
gava a mnima, e terminar o ano letivo como a garota mais
admirada da turma.
     No que ela j no fosse a garota mais admirada por todas.
Ela sempre usava as melhores roupas, as melhores bolsas, ti-
nha as melhores unhas, o cabelo mais descolado e at agora os
melhores sapatos. Mas desta vez ela queria ser admirada por
sua coragem, independncia e inteligncia. E ser oradora da
formatura definitivamente fazia parte desse pacote. Bem ago-


                                                                21
ra Vanessa Abrams, a improvvel colega de apartamento de
cabea raspada e roupas pretas de Blair, estava na Constance
indicando Blair para oradora da formatura. Mas, como sem-
pre, aquela cretina metida da Serena tinha de imit-la.
    A parte complicada era que ningum realmente fazia
campanha para ser oradora de formatura. E em geral nem
havia eleio, porque normalmente s uma pessoa era
indicada. Tornar-se oradora era uma coisa que simplesmen-
te acontecia -- outra tradio misteriosa da Constance Billard
que ningum entendia muito bem. As coisas podiam ficar
interessantes, agora que duas meninas estavam prestes a ser
indicadas.
    Em especial essas duas.
    Serena entendeu de imediato que Blair ia pensar que ela
realmente queria ser oradora, o que no era verdade de for-
ma alguma. Mas como poderia ela se defender quando Blair
nem sequer olhava para ela? Incapaz de resistir, ela apontou
para o vestido gticos-usam-branco Morgane Le Fay nas
mos de Blair.
    -- Ai meu deus, isso ia ficar incrvel na Vanessa. Foi para
ela que voc pegou, no foi? -- perguntou com um sorriso
reluzente.
    Ah, ento voc acha que pode falar comigo, ?, pensou Blair.
Errou. Incapaz de pensar em uma resposta sucinta, Blair deu
de ombros e levou o vestido para o caixa improvisado em uma
mesa de banquete perto da porta, pagando por ele com um
dos trs cartes de crdito platinados, que eram pagos pelo
contador da me, Ralph.


22
    Isso no vai ser fcil, pensou Serena com um suspiro teatral.
    -- No estou com vontade de comprar nada mesmo --
acrescentou ela em voz alta e olhou para Nate. Brigar com Blair
era to cansativo. Em especial quando envolvia estar louca-
mente apaixonada por Nate Archibald.
    Ou, pelo menos, fingir que est.




                                                              23
ele est se desfazendo
Nate estava na calada do hotel com o segurana do trunk show,
fumando um cigarro de maconha com tabaco enrolado  mo.
O sol batia na Quinta Avenida e na rua 65 e, com a massa de
turistas europeus e nuvens de escapamento de nibus, mais
parecia o final de agosto do que a ltima semana de maio.
    -- Lindo dia -- observou o segurana, cujo crach dizia
DARWIN. Ele era enorme e careca, e devia trabalhar  noite
como leo-de-chcara de um clube. Darwin estreitou os olhos
para se proteger da luz do sol de final de manh. -- O vero
est chegando.
    Nate apertou os ns dos dedos nas plpebras fechadas para
evitar que as lgrimas escorressem pelo rosto. Ele podia cul-
par o sol por isso, ou podia colocar a culpa em ser arrastado a
um trunk show com uma mulher, mas a verdade era que ulti-
mamente ele andava chorando muito. No final de seu ano
letivo, ele estava com Serena, a garota que ele amara desde
sempre -- mais ou menos. Era como se finalmente estivesse
provando o prato que ele olhou pela vitrine em todos aqueles
anos. Ele queria saborear, mas todos os outros comiam to


                                                            25
rapidamente, que no havia tempo. E tambm havia aquela
sensao ranheta de que ele tinha pedido o prato errado.
    Pera, ele no quis dizer a garota errada?
    -- Ser que devo me preocupar que uma de suas amigas
tenha roubado alguma coisa? -- perguntou Darwin. Ele sa-
cou um celular azul-prateado do bolso da cala, rolou algu-
mas mensagens de texto na tela, depois devolveu o telefone
ao bolso. No parecia preocupado demais. Mas por que al-
gum com bceps to grandes ficaria nervoso com umas ado-
lescentes desencaminhadas?
    Blair j foi conhecida por roubar em lojas, mas no na fren-
te das amigas. Nate nunca soube que Serena roubasse, mas
ela tinha um temperamento rebelde e o faria s por estar
entediada. Ele deu de ombros.
    -- Provavelmente.
    Foi a que o porteiro do hotel abriu a porta e Blair desceu
a escada atapetada roando em Nate, ao passar por ele com o
queixo de raposa apontado para cima, e balanando na mo
uma sacola de compras branca com um papel de seda branco
apontando para fora.
    -- Ela  uma gata -- Darwin assoviou.
    -- Arr -- murmurou Nate, como se visse Blair pela pri-
meira vez. O cabelo escuro e sedoso crescera e agora ela usava
um corte muito francs e sexy, que combinava com o rosto de
traos perfeitos e o corpo pequeno e gostoso. Ah, ela era mes-
mo uma gata.
    E ela no era mais dele.
    -- Quer que eu a pare? Para olhar as bolsas? -- props
Darwin.


26
    Nate deu um tapa no baseado, pensando em como Blair
reagiria se Darwin a chamasse. A idia o fez sorrir meio
tristonho e, enquanto ele observava Blair desaparecer pela
rua movimentada, novas lgrimas desceram por seu rosto.
Cretina, teimosa, egosta e neurtica, Blair era a sntese da
namorada de alto custo; mas independente de quantas ve-
zes ele tenha estragado tudo, ela sempre o aceitava de volta.
Em geral comeava com um olhar de lado ou um telefone-
ma irado, e ento ele aparecia na porta da casa dela e eles se
beijavam e transavam. Mas Blair no estava mandando ne-
nhuma vibrao do tipo se-voc-for-legal-comigo-eu-pen-
so-no-assunto. Parecia que ele tinha fodido tudo pela ltima
vez. Alm disso, ele agora estava com Serena, a garota dos
sonhos de todo mundo.
    Todo mundo inclusive ele?
    O porteiro abriu a porta de novo e Serena deslizou para
fora do hotel ostentando uma viseira de tnis de linho verde
Les Best. Com o cabelo dourado claro caindo em cascata de-
baixo da viseira, as pernas longas, bronzeadas e atlticas-em-
bora-s-faa-exerccios-na-aula-de-educao-fsica e o sorriso
radiante, ela parecia uma propaganda de alguma marca de rou-
pa de tnis de alta costura que era linda demais para ser usada
para praticar esportes.
    -- Txi para a escola? -- perguntou ela a Nate com uma
piscadela maliciosa. Ela podia estar cansada demais para an-
dar, mas no estava cansada demais para uns amassos no ban-
co traseiro de um txi.
    Quem estaria muito cansado para isso?
    Depois ela percebeu as lgrimas.


                                                            27
    -- Coitadinho -- sussurrou ela, estendendo a mo para
afagar o rosto de Nate com o polegar. O choro tinha comea-
do h alguns dias e no comeo foi meio alarmante. Por que
um gato chapado e lindo como o Nate estaria chorando? Mas
ento ela passou a achar isso sexy e extremamente comovente.
Quem diria que Nate era assim um docinho grudento?
    Darwin deu um passo  frente. Ele no ia deixar essa
louraa sair assim to rpido como a morena.
    -- Tem o recibo disto, senhorita?
    Serena tocou a viseira de linho como se tivesse esquecido
que a estava usando. Ela mordeu os lbios luxuriantemente
cheios de ChapSticked cereja.
    -- Hum. -- Seus olhos azuis faiscaram, desafiando Dar-
win a prend-la. -- Sou amiga do estilista -- declarou.
    Darwin sorriu -- outro cara a ceder aos encantos de Serena.
    -- Ah, tudo bem -- respondeu ele com timidez. -- Acho
que s queria uma desculpa para falar com voc.
    Nate de repente percebeu que devia sentir cime. Ele
pegou a mo seca e quente de Serena em sua mo mida e
molhada de lgrimas.
    -- Vamos -- chamou ele, tentando parecer msculo e fir-
me, apesar do tremor na voz.
    -- Meu Deus, eu adoro quando vocs brigam por minha
causa -- murmurou Serena. Ela tombou a cabea no ombro
dele e beijou sua orelha direita. Ele ps o brao na cintura dela,
estimulado pela curva acentuada de seus quadris. Eles desce-
ram a escada, mal conseguindo resistir ao impulso de arran-
car as roupas um do outro ali mesmo, diante de centenas de
turistas que saam aos bandos carregando pacotes da loja


28
Brooks Brothers do outro lado da rua. Eles podem ter ficado
juntos por acaso, mas ainda assim eram duas pessoas lindas e
irresistivelmente beijveis; por que no aproveitar todas as
oportunidades para namorar?
    Exatamente.
    -- Cara de sorte. -- Darwin assoviou ao voltar para den-
tro para chegar em Rain, Kati ou qualquer garota bonita da
Constance que tivesse a bolsa estufada.
    Nate lutou para reprimir outra rodada de lgrimas. Ele
estava em Yale. A garota mais linda do universo, que ele conhe-
cia desde sempre, estava praticamente implorando para transar
com ele num txi na volta para a escola. Ele era insanamente
sortudo.
    Ento por que ele no conseguia impedir que as lgrimas
cassem?




                                                            29
o primeiro bilhete de amor do dia de v
  Para: vabrams@constancebillard.edu
  De: aaron.rose@bronxdale.edu
  Assunto: idia do dia

  T legal, eu sei que te dei um beijo de
  despedida tipo h uma hora, mas eu tive uma
  idia sensacional no caminho para a escola --
  cara,  uma viagem de metr longa pra caraca!
  Mas a, e se a gente s fizesse as provas
  finais e pulasse a formatura porque a) vai
  ser um saco, b) nossos pais no esto nem a,
  e c) voc disse que no  do tipo que usa
  vestido branco. A gente podia sair no Saab,
  ir at o Grand Canyon, ver o sol se pr, comer
  uns cogumelos silvestres totalmente orgni-
  cos e danar nus com os coiotes debaixo das
  estrelas. Quero passar o vero explorando o
  interior do pas e abraando voc no glorioso
  luar. Droga, a sineta. Mas a, pensa nisso.
  Voc  a minha gata.

  Te amo,
  A



                                                   31
d  o sr. popularidade
-- Ento, parece que  unnime. Daniel Humphrey, voc ser
o orador na formatura este ano -- anunciou o professor do
primeiro tempo dos veteranos da escola Riverside Prep, o Sr.
Cohen, chefe do departamento de histria, que insistia que
os alunos o chamassem de Larry.
    -- Hein? -- Dan desviou os olhos do poema que escre-
via em seu inseparvel caderno de capa de couro preto. O
poema se chamava "minha via expressa" e tratava da incrvel
jornada em que Dan estava prestes a embarcar. Uma vez que
no havia nada que o prendesse na cidade, ele decidira partir
mais cedo para Evergreen College, onde ia comear no outo-
no. J se candidatara a um emprego de vero l, por meio do
site do escritrio de empregos da universidade. E logo depois
da formatura ia dirigir todo o caminho at Olympia, em Wa-
shington. Se ao menos conseguisse um carro, ou se aprendesse
a dirigir.
    pa.
    Dan decidira ter como modelo Jack Kerouac quando es-
tava escrevendo On the Road. Em sua viagem ao Oeste, ele fi-


                                                          33
cou com as moradoras mais lindas de cada cidade, experimen-
tou comidas e bebidas novas e exticas, como peiote e tequila
200% e fez desvios para visitar atraes locais bizarras, como
cavernas com estalactites de trinta metros e pedras que san-
gravam, ou uma vaca com quntuplos. Aos 17 anos, Dan j
publicara um texto na revista New Yorker, alm de sua curta
carreira de vocalista na famosa banda de rock The Raves. Mas,
quando chegasse no estado de Washington depois de ter atra-
vessado todo o pas, ele teria um novo diploma da Universi-
dade da Vida.

     Mulheres marrentas e milhos debulhados,
     Berrantes de rodeio, chapus com chifres, um ciclone do Kansas.
     Uma mulher do Nebraska deixa batom no painel --
     Ela salga minha carne, mexe meu quiabo, cospe no meu poo.

    Hum. Parece que ele foi astro do rock por um dia a mais
do que devia.
    -- A turma votou em voc e s em voc -- explicou Larry.
-- Devia se sentir muito honrado.
    Dan estava aturdido. Ele empurrou a cadeira para trs,
cruzou os Pumas azuis sujos e enfiou as mos nos bolsos da
cala cqui surrada.
    -- Mas ningum me indicou para isso -- disse ele sem
pensar.
    Uma maneira bvia de dizer que voc no tem amigos.
    Irromperam risadinhas em toda a sala.
    --  assim, voc  uma celebridade, cara, e a gente quer
que voc nos represente -- explicou Chuck Bass numa voz


34
de falso chapado. O macaco de estimao de Chuck, Sweetie,
estava enroscado em uma bola branca e peluda no colo dele,
dormindo, vestido com sua camiseta apertada cor de cantalupo
preferida com um S em rosa-choque nas costas. Todos, at os
professores, se acostumaram com o macaco, tanto que nem
olhavam, mas Sweetie ainda dava arrepios em Dan.
    -- A gente pensou que seria fcil para voc, j que escre-
ve o tempo todo -- continuou Chuck sarcasticamente. Mais
risadinhas.
    Dan inclinou a cadeira para trs.
    -- Pera. Me deixa entender isso. Voc me indicou?
    Chuck virou para cima a gola da camisa Lacoste roxa de
manga curta.
    --  como disse o Larry. Foi unnime.
    As mos de Dan comearam a suar. Ser orador dos vetera-
nos era uma honra, mas ele achava que tinha sido escolhido 
revelia. Certamente no era o cara mais popular da turma. Ele
passara todo o ltimo ano ou tentando ser famoso, ou ficando
com a ex-melhor amiga e ex-namorada, Vanessa, em Wil-
liamsburg, no Brooklyn. Ele achou que todos os outros caras
de sua turma estavam ocupados demais em baladas ou ten-
tando no tomar bomba nas provas finais para se incomodar
em escrever um discurso de formatura.
    -- Basta no pegar pesado. E lembre-se, s o que todo
mundo quer  o diploma nas mos, ento faa um discurso
rpido tambm -- aconselhou Larry, puxando o cavanhaque
louro-sujo idiota como um adolescente que ele certamente
no era.


                                                           35
    -- T legal -- respondeu Dan, na dvida. Parecia que ele
no tinha alternativa.
    Chuck lhe deu um tapinha no ombro.
    -- Adivinha s? Sabe aquela sua namorada meio sapata?
Eu soube que ela est solteira de novo. A "cara metade" dela
est dando adeus.
    Significava Blair ou Aaron? Dan no tinha mais certeza de
com quem Vanessa estava morando. S o que ele sabia era que
no era com ele. Suas mos ensopadas de suor comearam a
tremer com um misto de confuso e felicidade. Talvez Vanessa
tenha terminado com Aaron. Mas eles estavam to apaixona-
dos. Eles at fizeram o mesmo corte de cabelo. Ele fez uma
srie de marcas de verificao no alto da pgina em que estava
escrevendo. Vanessa terminou com Aaron!?
    -- Ento vou considerar que voc aceitou a indicao --
insistiu Larry, batendo o lpis irritantemente na mesa de ma-
deira. -- Todos a favor, digam "sim"!
    -- Caraaaa! -- respondeu a turma de meninos em uns-
sono, perpetuando a tradio no to divertida que comeou
no primeiro dia do ltimo ano. Dan empalideceu enquanto
comearam a gritar e guinchar numa demonstrao totalmente
desnecessria de falso entusiasmo. --  isso a, Dan!
    No minuto em que tocou a sineta, Dan ligou para Vanessa
para dizer como ele lamentava por ela.
    Ah, , ento t.
    -- Mas isso  que  falta de informao! -- retorquiu
Vanessa. -- De onde essa gente tirou essa merda? E a, como
 que voc est? -- perguntou ela, parecendo meio feliz em
ouvi-lo.


36
    -- Eu acabo de ser eleito orador da formatura -- admi-
tiu Dan, como se tivesse feito uma campanha de semanas.
No fundo, ele estava morrendo por dentro porque Vanessa
e Aaron ainda estavam juntos, mas no ia deixar transparecer
isso a ela.
    -- Orador da formatura? Que merda! -- respondeu Va-
nessa. -- Pera, isso  bom?
    -- Acho que sim.
    -- Olha, agora estou no laboratrio de fotografia, mas
voc quer ir l em casa mais tarde ou coisa assim?
    Dan apertou o celular na orelha at que ela comeou a doer.
Um grupo de calouros quase o derrubou pela escada na cor-
reria para o almoo. De repente ele percebeu como estava se
sentindo sozinho. Era realmente possvel que ele e Vanessa
viessem a ser amigos de novo, bastando, para isso, s um tele-
fonema?
    E se eles pudessem ser amigos de novo, sempre havia a
possibilidade de que fossem mais do que isso.
    -- O Aaron vai estar l? -- perguntou ele com cautela
enquanto andava pelo corredor do quarto andar a caminho da
aula de ingls. Um elstico cheio de fiapos estava em seu bol-
so. Ele puxou o cabelo castanho claro embaraado em um
rabo-de-cavalo curto e depois o soltou novamente, largando
o elstico no cho. Era o pai dele, Rufus, o Sr. Anormal do
Rabo-de-cavalo, no ele.
    -- O Aaron tem ensaio da banda -- disse Vanessa a ele
casualmente. -- At parece que voc no pode ir l, se ele
estiver.
    Como  que , uma suruba?!


                                                            37
    Dan se sentia como se uma janela estivesse aberta e uma
brisa fria batesse em seu rosto.
    -- Acho que tenho uma sesso idiota de reforo em his-
tria avanada para a prova final na semana que vem, mas posso
matar essa.
    O macaco de Chuck Bass passou pulando por ele no cor-
redor com um saco meio devorado de Smart Puffs na boca.
Chuck estava ocupado demais para perceber isso, passan-
do pomada Aveda no cabelo com luzes recentes diante do
espelho de corpo inteiro que ele instalara por dentro do
armrio.
    -- T legal, agora estou no laboratrio de fotografia.
Como sempre, todo mundo matou, menos eu. Elas devem
estar todas numa liquidao idiota ou coisa assim. Compran-
do o vestido estpido de noiva... Quer dizer, de formatura,
sei l. Porra! -- exclamou Vanessa, parecendo ter tropeado
em alguma coisa. -- Est escuro aqui dentro.
    Agora a orelha de Dan estava suando.
    -- Eu queria estar a -- disse ele de repente, incapaz de
se reprimir.
    -- Eu tambm -- respondeu Vanessa com ansiedade. --
 srio.
    Mas pera, ela no terminou com ele?
    -- Ento de repente eu apareo mais tarde -- arriscou ele.
-- Meu pai e Jenny viajaram, ento no tenho que chegar em
casa em nenhum horrio especfico.
     assim, ?
    -- Legal. -- Agora Vanessa estava distrada. -- Olha,
se eu no desligar agora, vou acabar fazendo uma burrice,


38
tipo tomar fixador em vez de ch. Eu te vejo mais tarde, t
legal?
    Dan mal conseguia ouvir.
    -- T, tudo bem. -- Ele desligou. No corredor, Sweetie
estava fazendo xixi no piso de mrmore diante da porta das
salas do departamento de histria. Dan sorriu para ele.
    -- Bom garoto.




                                                        39
graas a s, ficou totalmente impossvel
aprontar na escola
-- Tome um caf e leia um pouco de poesia sozinho, t legal,
pai? -- pediu Jenny Humphrey a seu pai nada cooperativo,
Rufus, enquanto eles paravam diante dos garbosos portes de
ferro batido de Hanover Academy, nos arredores da singular
e adorvel cidade de Hanover, em New Hampshire. Depois
de aparecer seminua na Internet e nas pginas de vrias revistas
de moda, e de conspirar com astros do rock em idade ps-
universitria no quarto de hotel deles no Plaza, Jenny recebera
um ultimato da Sra. McLean, diretora da Constance Billard.
Ela precisava parar de aparecer nas manchetes e terminar seu
ano de caloura se comportando como a recatada aluna que
devia ser ou teria de encontrar outra escola no outono. Jenny
encarou isso como um desafio e passou toda a semana com os
Raves na casa do guitarrista da banda em Bedford Street. Ela
at gravou uma msica com eles! Na segunda-feira seguinte,
a Sra. McLean e todos na cidade tinham lido sobre isso nas
colunas de fofoca.


                                                             41
    Diga adeus a Constance Billard e ol ao... colgio interno!
    Agora era a segunda-feira seguinte e Jenny tirara o dia de
aula para dar uma olhada em Hanover, o internato notoria-
mente dissoluto e louco de seus sonhos. Foi em Hanover que
a extraordinria baladeira Serena van der Woodsen ficou por
dois anos antes de ser expulsa em outubro passado, e Jenny
imaginava que Serena nunca fora substituda. Bom, aqui es-
tava ela para tomar seu lugar. Ela ia levar Hanover a novas al-
titudes de infmia e se, por algum motivo -- que era difcil de
imaginar -- Hanover no fosse atraente para ela, ou pior, se
no a aceitasse, ela tambm ia visitar Croton School. Croton
ficava s a uma hora e meia da cidade, em Croton Falls, no
estado de Nova York e, de acordo com todos os guias de esco-
las preparatrias que Jenny andara lendo, era quase to disso-
luta quanto Hanover.
    -- Tambm posso cortar meu cabelo -- respondeu Rufus,
parecendo animado. Seus cabelos grisalhos e estranhos esta-
vam puxados num rabo-de-cavalo desgrenhado com um els-
tico nas cores do arco-ris que tinha vindo num saco de bagels
da Whole Foods, perto de seu prdio no Upper West Side. Para
combinar com o cabelo extravagante, Rufus vestia uma cami-
sa xadrez vermelha e branca no estilo Western, de manga cur-
ta e fechos de presso, bermudas de lona marrom Carhartt e
tamancos arranhados de camura bege Birkenstock com meias
de l pretas.
    Nada como o interior do pas para despertar o senso de
moda de uma pessoa.
    -- Ah. Que bom. -- Jenny tentou no ficar muito ani-
mada. Da ltima vez que Rufus cortou o cabelo, em algum


42
momento por volta do 13 aniversrio dela, ele foi a um salo
no Lower East Side que era popular entre as drag queens e saiu
de l com mechas roxas. -- Ento, eu s vou dar meu giro e te
encontro naquele lugar na cidade -- acrescentou ela, referin-
do-se  cafeteria por onde eles passaram no centro de Hanover.
O campus ficava a 2,5 quilmetros a p da cidade por um lin-
do caminho arborizado. Seria tranqilizador ter essa distn-
cia entre ela e Rufus, para o caso de ele decidir comear um
movimento poltico ou qualquer coisa igualmente insana pela
simples ansiedade de ter de sair de Nova York.
     -- Voc venceu! -- Rufus lhe deu uma bicada na boche-
cha com sua boca grisalha antes de sair pelo caminho com uma
vivacidade exagerada. -- No faa nada que eu no faria! --
gritou ele de costas.
     Como se houvesse alguma coisa que ele no fizesse.
     Jenny puxou a bonita blusa verde-jade de manga curta que
tinha comprado na Scoope no SoHo no sbado. Era japonesa
e tinha pequenas liblulas pintadas em todo o tecido. Ela a havia
abotoado at a gola, mas agora que seu pai estava longe, ela
abriu os dois primeiros botes, revelando seus ativos mais
surpreendentes -- os peitos tamanho 44.
     No havia nenhum motivo para os rapazes da Hanover no
saberem o que estava esperando por eles.
     Ela pegou o mapa laminado do campus da bolsa imita-
o de Louis Vuitton Calla Lily que ela comprou num ca-
mel na calada da Bloomingdales mas que era igualzinha
 de Serena. Os prdios de tijolos aparentes cobertos de hera
da escola ficavam bem  direita de um catlogo da Aber-
crombie & Fitch, mas Jenny ficou decepcionada por no


                                                              43
ver nenhum lindo menino seminu e bronzeado jogando
Frisbee no gramado. Riley, o alojamento das meninas onde
ela havia marcado com sua anfitri, ficava do outro lado do
estacionamento, empoleirado no alto de um outeiro gra-
mado. Fazia um lindo dia de vero e o ar tinha cheiro de
grama recm-aparada.
     -- Eu j adoro esse lugar -- sussurrou Jenny, a pele for-
migando de excitao. Toda a sua vida estava para mudar. Nada
de uniformes. Nada daquelas meninas cretinas com suas pa-
nelinhas que passavam horas dissecando a escolha de brilho
labial malva em vez de rosa. Nada mais de ser conhecida s
por sua excelente caligrafia, seu escndalo muito badalado na
Internet, ou suas supostas sesses de fotos porns. Nada mais
de boatos, nem escndalos.
     Bom, talvez isso estivesse indo meio longe demais. No
havia nada de errado com um escandalozinho. Era s que, em
um colgio interno como Hanover, o piso para os escndalos
seria consideravelmente mais alto.
     A anfitri de Jenny, Fiona Castagnoli, esperava por ela do
lado de fora da porta do Riley. Fiona parecia uma mame-do-
futebol de 45 anos -- baixa e gorducha, com uma blusa J. Crew
listrada de coral e branco enfiada em bermudas L. L. Bean cor
de pedra. Suas meias brancas estavam cuidadosamente dobra-
das na altura do calcanhar e os tnis Reebok completamente
brancos estalavam de novos.
     -- Jennifer? -- perguntou ela ansiosamente, o rabo-de-
cavalo ruivo apertado e supercrespo balanando entre suas
omoplatas. -- Precisamos correr. Tenho que te levar  sala de
estudos e j estamos cinco minutos atrasadas!


44
    Fiona arrastava uma mochila verde-lima Lands' End com
todos os livros que possua. Jenny pestanejou para ela. Quan-
do pensou em visitar Hanover, imaginava ficar em um aloja-
mento com louras magras e chiques, tomando taas de vodca
apoiadas de leve nos peitos nus e bronzeados.
    -- Se estiver com muito trabalho eu podia, tipo assim,
ficar aqui e esperar por voc -- props ela.
    -- Ah, poderia fazer isso? -- disse Fiona. Ela parecia imen-
samente aliviada. -- Sabe, as provas finais so na semana que
vem, e eu tenho 47 verbos irregulares do espanhol para estu-
dar e 13 verificaes de geometria para fazer.
    Jenny espiou pela porta aberta. Algumas meninas se re-
costavam em poltronas de couro na sala de estar com cande-
labro de cristal lendo revistas e ouvindo seus iPods. Jenny
reconheceu o top Marc Jacobs vermelho e branco com pa-
dro floral de uma delas. E uma menina estava usando o par
de sapatos dourados e sem salto Belle by Sigerson Morrison
que ela desejou a primavera toda, mas no economizou o bas-
tante para comprar. Elas pareciam exatamente o tipo de me-
ninas de quem ela queria ser amiga. S o que estava faltando
eram os meninos com seus cachimbos de haxixe e a vodca.
    -- Eu vou ficar aqui -- disse ela a Fiona com firmeza.
    -- Tudo bem. -- Fiona pendurou a feia mochila verde nos
ombros. -- Vou voltar e pego voc, tipo assim, daqui a uma
hora e dez. Podemos comer uns bagels na cafeteria e eu vou
te mostrar meu quarto.
    Caraca, parece uma festa.
    Jenny j tinha certeza de que nunca mais veria Fiona por-
que Fiona ia ficar to imersa em seus verbos irregulares ou


                                                             45
coisa assim que ia se esquecer completamente de que deixara
Jenny com as meninas mais bacanas e de pior comportamen-
to de Hanover. Ela pegou um tubo de gloss Chanel Stroppy
da bolsa e passou um pouco. Depois entrou na sala de estar.
     -- Oi -- anunciou-se ela timidamente. -- Meu nome 
Jennifer. Estou de visita na cidade. Sou da Constance Billard...
Sabe qual , onde Serena van der Woodsen estuda? -- Ela sa-
bia que era idiotice mencionar Serena de cara, mas ela queria
que essas meninas soubessem que ela era descolada, que era
uma delas.
     Uma menina de cabelo preto e curto e unhas dos ps lin-
damente pintadas de Chanel Vamp parecia que ia olhar para
Jenny, mas rapidamente desviou os olhos. Tirando essa, nin-
gum pareceu ouvir o que ela disse. O revestimento de ma-
deira da sala lhe conferia um brilho mbar e o tapete oriental
sob os ps de Jenny estava em perfeitas condies. Ela se sen-
tia em um recanto de uma velha manso, e no em uma escola.
     -- E a, eu soube que Hanover s vezes fica uma doidei-
ra. Pelo menos, foi o que a Serena me disse -- tagarelou Jenny,
ainda parada na soleira da porta feito uma imbecil. Ela queria
deixar bem claro que ela no s sabia da existncia de Serena.
Elas eram amigas.
     -- Shhhh -- sussurrou uma linda loura com pernas to
compridas e to bronzeadas que pareciam falsas. -- Vai criar
problema pra gente.
     Como  que ? Desde quando as alunas de Hanover se preo-
cupavam com problemas?
     -- Desculpe -- murmurou Jenny humildemente. Ela
se sentou em uma poltrona vaga, estremecendo com o som


46
de peido alto que a poltrona fez quando suas pernas nuas
se esfregaram nela. Ela colocou a bolsa Louis Vuitton falsa
afetadamente no colo, querendo pelo menos ter pensado
em trazer um livro. Pelo canto do olho, viu a menina de
cabelo preto e curto olhar para ela mais uma vez. Jenny
pegou um recibo velho da Duane Reade no bolso lateral
da bolsa e procurou pelo lpis Hello Kitty que tinha desde
a quinta srie.
     O que  que t pegando? Pensei que Hanover fosse totalmente
DEVASSA, escreveu ela no verso do recibo. Depois ela do-
brou o recibo e ousadamente o atirou no colo da menina de
cabelo curto. Menos de um minuto depois o recibo voltou
todo escrito em caneta azul. Bom, basicamente o pequeno episdio
com sua amiga Serena (que era minha vizinha aqui no Riley -- quan-
do ela realmente ficava aqui) estragou tudo. Depois de se livrarem dela,
instituram o cdigo disciplinar, que basicamente diz que, se voc dedurar
suas amigas, voc tem privilgios.  tanto incentivo para dedurar as
amigas que ningum mais faz nada que valha alguma meno. Este
lugar est totalmente seco, quieto e um T--D-I-O. Estou no terceiro
ano, ento vou dar o fora daqui logo -- AAAAAI!
     Jenny tirou os olhos do bilhete e analisou mais detidamente
as outras meninas na sala. Uma das que ouviam o iPod estava
murmurando para si mesma, e Jenny percebeu que ela no
estava ouvindo os ltimos downloads, mas decorando conju-
gaes verbais em espanhol. Uma asitica baixinha com rabo-
de-cavalo grosso, que Jenny pensara que estava lendo uma
revista de moda, na verdade estava completamente imersa na
Science Digest.
     pa.


                                                                       47
    Eu no devo entrar mesmo, escreveu Jenny de volta. Ela ati-
rou o bilhete  menina, depois se levantou. As candidaturas
para o internato deviam ter sido feitas no outono, ento ela
estava correndo contra o tempo se decidisse ir, que dir para
onde. Mas certamente havia outras escolas que no eram to
rigorosas quanto Hanover claramente era agora.
    Ela saiu e voltou aos portes da escola, desejando no ter
mandado o pai embora com tanta pressa. Seguindo pelo ca-
minho para a cidade, ela topou com um louro de bon Ralph
Lauren vermelho, camiseta branca de gola em V e calas de
linho J. Crew azul-claras e largas, fumando um Marlboro
enquanto se arrastava lentamente de volta ao campus. Ele era
totalmente adorvel.
    Jenny sorriu timidamente para ele enquanto ele se apro-
ximava, reunindo coragem de lhe perguntar se Hanover era
assim to ruim como a menina de cabelo curto no Riley disse
que era.
    -- Voc no vai me dedurar, vai? -- quis saber o garoto,
olhando para ela com mais hostilidade do que qualquer pes-
soa merece.
    -- N-no -- gaguejou Jenny. Ser que todo mundo em
Hanover estava totalmente paranico?
    -- T legal -- ele respondeu com desprezo, ainda olhan-
do enquanto se afastava.
    Quando ela chegou  cafeteria, o pai estava atrs do balco
tomando um chai latte de leite de soja, embora ele e Dan gas-
tassem uma hora por dia passando sermes em Jenny sobre
como o chai era s uma porcaria inventada pela Starbucks e


48
que a nica bebida quente de verdade no planeta era o caf
instantneo Folgers.
    -- O clima aqui  to bom que eu estava pensando em
me mudar para c. Eles at me ofereceram um emprego aqui
na cafeteria -- cantarolou ele, dando um sorriso reluzente para
ela. -- Dan vai para Evergreen no outono, de qualquer for-
ma. Vamos alugar nosso apartamento... Vamos ganhar uma
fortuna!
    -- Desculpe, pai, mas acho que no -- suspirou Jenny.
-- Quer dizer, acho que no quero vir para c.
    Rufus passou o copo de papel de lquido quente e espu-
moso pelo balco e o entregou a Jenny.
    -- Quer dizer que quer ficar em casa comigo? -- per-
guntou ele, as sobrancelhas grisalhas e bastas arqueadas de
esperana.
    Jenny cheirou a bebida, fez uma careta e depois a devolveu.
    -- No. Eu s preciso continuar procurando. Croton fica
no caminho para casa.
    Rufus piscou para a mulher de quadris largos, roupa de
cnhamo e cabelo frisado que saa da cozinha com uma ban-
deja de bolinhos de trigo sarraceno nas mos. Ele suspirou.
    -- Tem certeza?
    Pelo que Jenny podia se lembrar, um guia de escola pre-
paratria que ela lera de cabo a rabo no canto perto da escada
envidraada da Barnes & Nobles na Broadway listava a Croton
Academy, em Croton Falls, como a segunda das escolas para
farra, bem atrs da Hanover. Croton devia ser cheia de gente
que foi expulsa por mau comportamento das escolas particu-
lares de Nova York. Era bvio que o livro no fora atualizado


                                                            49
recentemente, se ainda listava Hanover como a nmero um,
mas talvez o que dizia sobre Croton ainda fosse verdade.
    -- Vem, vamos embora. -- Jenny puxou o pai pelo bolso
da bermuda Carhartt, j toda animada com Croton.
    Parecia mais legal do que Hanover. E tomara que no te-
nha cdigo de disciplina.




50
Professor Pierre Papadametriou

Departamento de Ingls, The Evergreen State College

2700 Evergreen Parkway NW

Olympia, WA 98505


Daniel Humphrey

815 West End Avenue, apt. 8D

Nova York, NY 10024


Caro Sr. Daniel Humphrey,

Vi sua solicitao de estgio remunerado de vero no site de
empregos da universidade. Sou professor de poesia e biologia
na universidade e procuro por um estagirio de vero. Voc
pode morar em minha casa. Tenho dois cachorros e um filho.
Minha esposa foi para a Grcia. Meu filho  pescador. Os ces
ficam do lado de fora. Voc trabalhar comigo em meu inte-
ressante livro. Vou aliment-lo com a boa comida grega! Me
diga quando chegar e vou consertar a rede no sto. Preciso
alimentar os ces. Eles adoram minha moussaka!


Responda em breve, por favor.
Pierre




                                                                51
d e v tm dj vu... o tempo todo
-- Caramba. Sua casa est to... lavanda -- observou Dan
quando Vanessa o deixou entrar. Quando ele morava ali, as
paredes do pequeno apartamento indefinvel eram brancas, lisas
e descascavam, e havia lenis pretos pendurados nas janelas
no lugar de cortinas. Agora as paredes estavam pintadas com
um delicado tom lavanda claro com borda verde-aipo, e cortinas
de chintz pretas e brancas se penduravam de trilhos de verdade
nas janelas. Havia uma mesa e cadeiras de madeira dinamarquesa
modernas na sala de estar e um sof cinza moderno bem legal.
O lugar parecia ter sido arrumado por um decorador de verdade.
    Vanessa corou, o que era estranho para ela. Desde quando
ela corava?
    -- Blair meio que enfeitou um pouco. Gostou?
    Dan estava suado da viagem de metr, e porque tinha cor-
rido desde a estao L, a 13 quadras de distncia. Ele passou um
dedo pegajoso na parede recm-pintada, o corao acelerado.
    -- Acho diferente -- respondeu ele, nervoso. Vanessa
olhava para ele com aquele jeito desavergonhado e franco dela,
fazendo com que ele suasse ainda mais.


                                                             53
    Quando Vanessa chegou em casa, havia uma caixinha bran-
ca esperando por ela na bancada da cozinha. Ela a abriu e en-
controu um anel de prata no formato de duas mos segurando
coraes entrelaados. Por dentro do anel, havia a inscrio
PARA TODO O SEMPRE. AMOR, A. A no ser por um
breve caso com um piercing no lbio, Vanessa raras vezes usava
jias, e este tipo de anel de amor/amizade era to brega que a
fez rir. Ela certamente nunca pensaria em us-lo, independente
de quem o tivesse dado a ela. Ela recolocou o anel na caixa e o
guardou na gaveta de talheres. Era possvel que Aaron tivesse
dado o anel de brincadeira, mas ento por que ele se incomo-
daria em mandar fazer a inscrio? Mesmo quando estavam
juntos, Dan nunca daria a ela um presente to piegas. Pensan-
do bem, ele tambm nunca a convidou para acampar sob as
estrelas com ele. Vanessa era o tipo de garota gua-encanada-
e-descarga-na-privada. Ela odiava o sol, e ficar ao ar livre, com
aranhas, formigas, abelhas e mosquitos, lhe dava arrepios. 
claro que as intenes de Aaron eram boas. O que importava
era a inteno, essas coisas. Mas ela e ele teriam de conversar
-- uma coisa que eles no faziam muito desde que estavam
namorando. Apesar de Aaron mandar uma enxurrada de bi-
lhetes de amor, dar presentes a ela e dormir com ela o tempo
todo, o relacionamento dos dois at agora era puramente fsico.
    No que ela se importasse. Havia uma coisa no estresse
das provas finais, da formatura e em virar uma pgina na vida
que no fundo estava pirando Vanessa. Ela simplesmente no
estava em seu juzo perfeito. Ou talvez morar em um aparta-
mento com paredes lavanda com uma garota que tinha uns
170 pares de sapatos, inclusive 34 pares de Manolo Blahniks,


54
tenha transformado Vanessa em outra pessoa. Antes habituada
 solido, Vanessa no conseguia mais ficar sozinha e desco-
briu que a melhor maneira de afastar a mente do futuro era
tomar uma vodca e depois namorar.
     Ela s descobriu isso agora?
     -- Voc est plido -- disse Vanessa a Dan. Depois ela deu
um passo na direo dele, passou os braos em seu pescoo e
o beijou no rosto. Ela estreitou os olhos e inalou o cheiro
pungente e almiscarado de Dan. -- Plido, mas muito bom.
     Vanessa estava com um top preto de alcinha e sem suti. A
cabea tinha sido raspada recentemente, mas ela deixou o ca-
belo escuro em torno do rosto crescer tipo um centmetro,
atenuando a testa branca e larga e os grandes olhos castanhos.
E ela desistira do piercing no lbio.
     O que foi uma boa idia.
     Ela tambm estava com uma minissaia preta que nunca
teria pensado em usar antes de Blair Waldorf se mudar para
l. Mas ela combinou a minissaia com meias pretas e brancas
at o joelho e os inseparveis Doc Martens, deixando muito
claro que, apesar da influncia de sua colega de apartamento,
ela jamais ia comprar um par de saltos agulha Manolo Blahniks
de pele de cobra, nem que eles fossem pretos.
     O declive suave de seus antebraos brancos, a curva de-
bochada dos lbios vermelhos e o brilho desafiador dos gran-
des olhos castanhos fez com que Dan se perguntasse como
ele conseguia viver sem ela. Ele resistiu ao impulso de sacar
o caderno de couro preto e escrever um poema. Em vez dis-
so, pegou um Camel do bolso e o enfiou entre os lbios sem
acender.


                                                            55
    -- E a, quer andar um pouco? Tomar um caf ou coisa
assim? -- arriscou ele, tentando parecer vagamente normal.
    Vanessa deu de ombros sem se afastar dele.
    -- Estou tendo um dj vu daqueles -- confessou ela com
um sorriso bestificado. No foi assim que eles voltaram da
ltima vez? Ele apareceu e depois eles basicamente arranca-
ram as roupas um do outro?
    -- Eu tambm -- admitiu ele, no fundo esperando que a
histria se repetisse.
    -- Blair e eu acabamos de descobrir uma porta para o ter-
rao do prdio. Esse tempo todo eu pensava que estivesse com
cadeado, mas a tranca est totalmente quebrada.  bem legal
l em cima... Quer dar uma olhada?
    Ento agora Vanessa tambm estava tomando banho de sol?
    -- Claro -- concordou Dan.
    Para surpresa dele, ela pegou uma garrafinha de Absolut e
uma garrafa de gua tnica na geladeira, enfiando-as em um
saco de papel com dois copos de plstico do Scooby-Doo, que
ela encheu de gelo.
    -- Eu meio que criei gosto por esse troo -- admitiu ela
com um sorriso malicioso.
    Dan a encarou surpreso, todo o corpo tremendo de ex-
pectativa. Vanessa nunca soube lidar com lcool; nem ele.
    Ele a seguiu para fora do apartamento, andando pelo cor-
redor sujo de cho de cimento e subiu a escada tosca do pr-
dio, que era pintada de preto e cheirava a aguarrs. Dois andares
acima, Vanessa empurrou uma porta de metal com os dizeres
NO ENTRE e saiu para a luz quente e brilhante do terrao.
De repente a cidade estava toda em volta deles e a ponte de


56
Williamsburg parecia to perto que se poderia tocar nela. 
direita, o East River estava vtreo e frio enquanto um iate des-
lizava ao ultrapassar uma balsa que trazia uma carga de Porta
Johns, as velas brancas infladas no ar espesso da tarde.  es-
querda deles ficava a fbrica de acar, uma fumaa ondulan-
te saindo das grandes chamins e aumentando a nvoa. Do
outro lado da ponte, Manhattan assomava grande e cheia de
promessas. Nascido em Manhattan, Dan no conseguia se li-
vrar da sensao de que, quando estava no Brooklyn, alguma
coisa empolgante ia acontecer do outro lado da gua, e que
ele ia perder.
    -- Vem c -- gritou Vanessa sobre o rugido do trnsito.
Ela passou por baixo de uma viga de metal que sustentava a
enorme caixa d'gua que dominava o terrao. -- A gente fica
totalmente protegida do sol e da chuva aqui embaixo. E olha
s, a condensao da caixa d'gua at mantm o ar meio frio.
    Dan avanou e se enfiou embaixo da caixa d'gua. Um
futon preto estava esticado no cho, completo, com um sorti-
mento de almofadas pretas de pele falsa. Vanessa parecia ter
seu ninho de amor ao ar livre.
    -- Voc e Aaron devem passar muito tempo aqui -- co-
mentou ele, sem-jeito.
    Ela se sentou no futon e comeou a servir vodca nos co-
pos plsticos do Scooby-Doo.
    -- Na verdade, eu prometi a Blair no emporcalhar isso
aqui. S descobrimos no sbado e ontem estava chovendo,
ento o Aaron nunca subiu aqui.
    O que significava que ela e Aaron nunca transaram l
em cima, o que meio que fez com que Dan se sentisse


                                                             57
melhor ao se sentar no futon. Vanessa passou a ele a vodca
com tnica.
    -- Desculpe, no tem lima.
    Ele se sentou e acendeu um cigarro. Um helicptero ru-
giu alto perto dali. Ele tinha de admitir, era um lugar bem le-
gal de se ficar.
    -- A, orador da formatura, hein? Cheguei a pensar em
talvez matar minha formatura. -- Vanessa bateu o copo no dele
e tomou um gole grande e demorado. -- A ns.
    Dan piscou para ela enquanto bebia, segurando o copo
plstico com o cigarro na mo, a cara branca ao sol. Havia algo
de diferente em Vanessa desta vez. Algo preguioso, perigoso
e sexy.
    A cobra se enrosca no cimento quente, sua mente comeou a
escrever furiosamente, porque ele no conseguia se conter.
    Vanessa sorriu, devolvendo o olhar intenso dele com um
risinho de constrangimento.
    -- No sei por que estou fazendo isso, mas... -- come-
ou ela. Depois ela baixou o copo, curvou-se lentamente para
ele e passou a lngua no pescoo de Dan.
    Uau!
    Os olhos castanhos e sonhadores de Dan ficaram enormes.
Ele se perguntou se talvez Vanessa tivesse bebido durante todo
o dia e o estivesse confundindo com Aaron. Ou talvez ele e
Aaron tivessem sido pegos numa espcie de experincia de
troca-de-corpos-em-que-a-mente-dissolve-a-dobra-do-espa-
o-tempo sada direto do tipo de quadrinhos que ele costu-
mava ler quando tinha nove anos, e ele era realmente Aaron.
Todavia, era o mero xtase de beijar Vanessa de novo e a mera


58
agonia de at pensar em se afastar dela. Mas depois de alguns
minutos, ele se obrigou a avanar.
    -- Hummm, posso te fazer uma pergunta... O que voc
est fazendo?
    Vanessa pegou a bainha da camiseta vermelha desbotada
Stussy dele e a levantou, olhando a barriga nua e branca.
    -- Voc s vezes no se pergunta o que  que isso tem
demais? -- perguntou ela, como se fosse uma resposta.
    Dan no disse nada. Vanessa parecia estar passando por uma
espcie de fase experimental e ele no ia atrapalhar, em espe-
cial porque parecia envolver querer tirar a camiseta dele. E as
calas dele. E as meias dele pareciam estar seguindo o mesmo
caminho da necessidade dela de se expressar. E quando ela no
tinha mais nada para tirar dele, ele a ajudou a tirar a roupa tam-
bm. Logo eles estavam ajoelhados no futon debaixo da caixa
d'gua, nus.
    E vem me falar em dj vu!




                                                               59
voc pode tirar a garota do 212, mas no
d para tirar o 212 da garota
-- Vocs tm alguma coisa que no tenha... brilho? -- quis
saber Blair Waldorf enquanto passava os dedos nos vestidos
em uma arara circular no fundo da Isn't She Lovely, uma
pequena loja de vestidos de noiva e de ocasies especiais em
Williamsburg a uma quadra de distncia do apartamento que
ela dividia com Vanessa. Ela passava pela loja todo dia quando
ia e voltava da cafeteria onde um txi especial a pegava de manh,
depois de ela comprar seu latte grande com uma dose extra de
expresso, e onde a deixava depois da aula. Dessa vez ela resolveu
entrar, pensando que podia ser legal comprar um vestido de
formatura em um lugar to completamente fora do mapa que
nenhuma outra garota do terceiro ano da Constance Billard
poderia ter um igual. O problema era que, sem nenhuma
etiqueta de grife para mostrar seu mrito, ela no tinha certeza
se os vestidos eram feios de um jeito cool ou se eram s feios
mesmo.
     -- Este aqui  muito popular para crismas -- disse-lhe a
vendedora acintosamente perfumada com um forte sotaque


                                                               61
britnico. Ela ergueu um vestido de vero de um branco es-
tonteante, incrustado de strass, com um corpete de renda de
polister e uma saia que era to dura e brilhante que parecia
ter sido laminada.
    Blair olhou para um dos muitos espelhos que cobriam a
loja e viu a morena altiva numa saia de uniforme listrada de
azul e branco da Constance e camisa plo rosa-beb de gola
branca que a encarava, e de repente furiosa consigo mesma.
Quem ela estava enganando, fingindo no precisar de um
vestido de formatura Oscar de la Renta ou Chanel feito sob
encomenda? Ela enganchou a bolsa Fendi rosa no ombro e
baixou os culos de sol de aro de tartaruga Parsol no nariz,
tentada a comprar o horroroso vestido que a vendedora aca-
bara de mostrar e levar para casa para Vanessa como uma brin-
cadeira, fingindo que ia us-lo na formatura. Mas pensou que
gastar dinheiro numa coisa to medonha, mesmo de sa-
canagem, a deixaria ainda mais furiosa. Quando  que a vida
dela ficou to pobre?
    Quando ela decidiu largar Manhattan e se tornar uma
hipster do Brooklyn?
    Em geral, Blair no podia sair de uma loja sem comprar
pelo menos uma coisa, mas em geral as lojas a que ela ia eram
repletas de artigos irresistveis. No que dizia respeito a Blair,
Isn't She Lovely devia se chamar Isn't She Ugly.
    Do outro lado do trecho da Broadway coberto de lixo onde
ficava o prdio cinza esfarelento de cinco andares de Vanessa,
um aglomerado de gente estava parado olhando para cima, a
boca escancarada.
    Hummmm, adivinha por qu?


62
    Distrada e nada curiosa com qualquer coisa que os mora-
dores pudessem achar interessante, Blair atravessou a rua cor-
rendo, subiu a escada de cimento em runas e abriu a porta
pichada do prdio. Ela prendeu a respirao ao subir a escada
para o apartamento de Vanessa, no segundo andar. O prdio
estava praticamente montado em cima de uma fbrica de a-
car, e o ar em volta era to doce e pesado quanto uma torrada
cheia de xarope -- misturada com um toque de xixi de gato
de rua.
    Nham.
    -- Que fedor -- disse Blair em voz alta enquanto ainda
tentava prender a respirao. Como ansiava pelo saguo ima-
culado de mrmore cor de betume do luxuoso prdio com
todos os servios na rua 72 onde ela morara at agora. Ah, ela
sentia falta do cumprimento do quepe de l verde do porteiro
enquanto ele abria a porta de seu txi e a ajudava com as bol-
sas, protegendo-a da chuva com o enorme guarda-chuva pre-
to. Como desejava o zumbido do elevador revestido de veludo
vinho enquanto ele a levava para a cobertura.
    A porta pintada de preto do apartamento estava aberta,
largando pequenas lascas de tinta preta no cho de cimento
sujo do corredor.
    -- Querida, cheguei! -- gritou Blair enquanto entrava no
apartamento que ela redecorou alegremente algumas sema-
nas antes em tons de lavanda, cinza-pombo e aipo. O peque-
no quarto-e-sala de teto baixo estava muito mais bonito do
que quando ela se mudou, em especial sem aqueles revoltan-
tes lenis pretos nas janelas. Ela e Vanessa at ficaram mais
unidas,  isso mesmo. E era divertido morar num lugar to


                                                           63
diferente de onde ela fora criada. Era mesmo, de verdade. Mas
ainda assim estava meio saudosa. Afinal, Isn't She Lovely difi-
cilmente era substituta para Barneys.
     -- Ah, isso. Ah, isso. Ah, isso! -- uma voz masculina, rou-
ca de xtase, ecoou pelo corredor e entrou no apartamento.
     Eca.
     Os lbios de Blair se franziram numa careta. Vanessa e
Aaron estavam l de novo, no terrao. Como se eles no pas-
sassem noite aps noite gemendo e uivando feito ces selva-
gens. O estmago de Blair se revirou e ela se serviu de um
copo de gua do filtro Brita que comprou porque no confiava
na gua do Brooklyn. Depois de terminar com Nate, ela no
ficou enjoada nem uma vez -- esse seria o sinal definitivo de
fraqueza, e ela no era mais fraca --, mas a imagem de Vanessa
e Aaron, as cabeas raspadas juntas e os corpos brancos se de-
batendo no terrao em plena luz do dia, era muito parecida
com a imagem de Serena e Nate se sacudindo na banheira da
casa de jogos de Isabel Coates. Foi o suficiente para ela querer
se livrar violentamente do creme de manga que tinha tomado
trs horas antes.
     Engolindo o copo de gua, ela se agarrou na bancada de
frmica branca rachada para se estabilizar. No fogo eltrico
antigo, havia uma panela de gua velha com duas salsichas de
tofu rosa-acinzentadas e frias boiando l dentro -- restos do
repugnante caf-da-manh do meio-irmo Aaron, ou do al-
moo, ou do jantar. E isso, com os vestidos horrendos da loja
do outro lado da rua, o cheiro nojento na entrada, o sexo
gemebundo do terrao que devia ser reservado para as vodcas
com tnica ao amanhecer com Vanessa enquanto elas plane-


64
javam um meio de sabotar a ascenso de Serena a oradora da
formatura... para Blair j bastava. Ela enfiou a mo na bolsa
Fendi e pegou o celular, apertando os botes freneticamente.
    -- Blair, querida? A que devo o prazer, chica? -- aten-
deu Chuck Bass numa voz alta, parecendo mais gay do que
o de costume. -- No me diga que voc foi secretamente
apaixonada por mim em todos esses anos e agora que estamos
prestes a nos formar, voc finalmente tomou coragem de me
contar.
    -- No exatamente -- rebateu Blair. -- Voc  o nico
que eu conheo que tem carro.
    -- Um Jaguar conversvel cinza-prola no  s um car-
ro,  um ninho mvel de prazer. -- Chuck tocou a buzina ao
fundo. -- E por acaso eu estou "no carro" enquanto falo com
voc.
    -- Tanto faz. -- Blair abriu a porta de compensado e do-
bradias frouxas do abarrotado armrio de casacos que fedia
a naftalina na sala e pegou as duas malas de couro com o di-
agrama Louis Vuitton em ouro. As malas ainda estavam par-
cialmente ocupadas, uma vez que Vanessa no tinha espao
suficiente no armrio para acomodar o infindvel guarda-
roupa de Blair. S o que ela precisava fazer era dobrar os
vestidos pendurados no armrio e encher uma sacola de com-
pras, ou quatro ou cinco, com os meros 36 pares de sapatos
que ela comprou, e ela estaria pronta para dar o fora. -- Pode
vir me buscar?
    --  claro, meu docinho. -- A voz de Chuck assumiu um
falso tom paternal. -- No est metida em algum problema,
est?


                                                           65
     Blair fez uma careta ao ver uma barata acampada no fun-
do do armrio, uma barata meio morta agitando as pernas tra-
seiras na soleira da porta.
     -- Eu estou em Williamsburg -- gemeu ela, como se fosse
refm no poro de algum.
     -- E Manhattan precisa de voc -- entoou Chuck. -- Ns
precisamos desesperadamente de voc!
     Blair riu. Parecia bom no ter mais de fingir que ia se tor-
nar uma daquelas hipsters que usavam meias listradas at os
joelhos, saias quadriculadas e culos birutas, comiam homus
o tempo todo e iam a galerias de arte depois da aula em vez de
ir  Barneys. Ela pegou do cabide o vestido preferido Diane
von Furstenberg, vermelho de bolinhas brancas, e o vestiu,
tirando a saia de jeans preta Habitual e a camiseta cinza-escu-
ro C&C California que eram um tdio. Manhattan precisava
dela.  claro que precisava.
     -- Vou chegar em cinco minutos, gata. Agora s preciso
atravessar a ponte -- tranqilizou-a Chuck, o motor do Ja-
guar roncando ao fundo. -- E a, para onde  que vou te le-
var? De volta para casa?
     Blair no tinha pensado nisso. Ou melhor, tinha sim, mas
a casa dela no era a primeira opo. A me ainda estava
mentalmente doente depois de se casar com Cyrus Rose na-
quele outono e de ter a filha na primavera. Cyrus era baru-
lhento, suarento e desagradvel, e preferia andar pela casa
usando apenas um robe de seda verde frouxo e mais nada. A
beb Yale era adorvel na maior parte do tempo, mas tinha
ficado com o quarto de Blair, mandando Blair para o velho
quarto de Aaron, onde a gata de Blair, Kitty Minky, desenvol-


66
vera um problema com a urina em reao ao cheiro do boxer
de Aaron, Mookie. E por falar nisso -- onde estava mesmo o
Mookie? Em geral ele vinha com Aaron quando ele ficava com
Vanessa em vez de dormir no quarto do irmo de Blair, Tyler,
ou desmaiar no sof de couro na biblioteca da cobertura de-
pois de tomar cerveja orgnica demais.
    Ai, ai, ai.
    -- Talvez, agora que vou para Yale, eu no me importe
em ficar em ca... -- a voz de Blair falhou ao ter a inspirao e
uma nova idia fabulosa comear a se formar em sua cabea.
    Depois que o pai saiu da cobertura e antes de ele ir para a
Frana para morar com o namorado gay francs -- Jacques
ou Jean-Claude, ou qualquer que seja a porra do nome dele
-- ele acampou no Yale Club por alguns meses. Fica bem em
frente  Grand Central Station, mas, ao contrrio da antiga
estao de trem, o Yale Club nunca foi realmente reformado
e ainda tinha aquele astral andrajosamente elegante da Nova
York antiga. Era o tipo de lugar que a ex-melhor amiga de Blair,
Serena, iria adorar, enquanto Blair normalmente preferia uma
sute de elegncia mais suntuosa no Carlyle ou em um dos
outros hotis importantes da cidade. Mas ela j havia ficado
numa sute do Plaza, onde foi tratada s como outra hspede
qualquer. No Yale Club, ela seria a "filha de Harold Waldorf ",
o que era quase to bom quanto ser da realeza.
    Quase.
    -- Na verdade, estou me mudando para o Yale Club...
Pelo menos at decidir o que vou fazer neste vero -- anun-
ciou ela ao telefone, sorrindo para as unhas perfeitamente pin-
tadas de coral como se este fosse seu plano h muito tempo.


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    -- Ento  assim?
    Blair desviou os olhos das sacolas pretas da Barneys abar-
rotadas de sapatos. Vanessa estava parada na soleira da porta
do apartamento, as mos nos quadris brancos e redondos,
usando uma camiseta preta e calcinha Hanes de algodo pre-
to. Aquele cara macilento que Blair achava que Vanessa ti-
nha chutado para sempre estava parado atrs dela, vestido
somente numa cueca cinza Fruit of the Looms, enquanto o
resto das roupas surradas-demais-at-para-ficar-limpas es-
tavam numa trouxa em seus braos. Uma hematoma enor-
me e roxo aparecia em sua garganta, pouco abaixo do pomo
de Ado.
    Eca! Um chupo!
    --  aquele com pichao na porta toda. Vou descer da-
qui a cinco minutos -- instruiu Blair a Chuck antes de desli-
gar. Ela ps as mos nos quadris, tentando pensar numa forma
elegante de dizer a Vanessa que ela ia dar o fora dali. Era en-
graado ser amiga da garota de cabea raspada que todo mundo
em sua turma achava to esquisita, e Blair gostava genuina-
mente de Vanessa graas a sua abordagem no-enche a tudo e
seu senso de humor sarcstico e sombrio. Mas com a aproxi-
mao da formatura, Vanessa tinha ficado meio manaca, pe-
dindo a Blair para pintar as unhas dos ps dela quase toda noite
e at fazendo Blair experimentar aquele kit idiota de spray para
luzes no cabelo com ela. Graas a Deus foi apenas tempor-
rio. Vanessa parecia ansiar por companhia, ento, se ficar com
o meio-irmo de Blair, Aaron, e esse Dan macilento a fazia
feliz, Blair sinceramente no se importava. Ela mesma havia
superado os homens. Em poucos minutos, Vanessa teria o


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apartamento todo s para ela de novo, ela podia ir em frente e
fazer uma orgia completa, se quisesse.
    -- Uma pessoa vem me buscar -- disse ela  guisa de
explicao.
    Vanessa tinha acabado de ser pega traindo o meio-irmo
de Blair, Aaron, com Dan, que devia fazer parte do passado.
Numa situao dessas, a maioria das pessoas teria agido pelo
menos de um jeito meio envergonhado. Mas no Vanessa.
Ela piscou os grandes olhos castanhos para Blair de um jeito
acusador.
    -- Voc vai embora? Como pode? Est puta comigo? --
Ela tombou a cabea raspada e se corrigiu. -- Quer dizer, mais
do que o de sempre?
    Chamar Blair e Vanessa de O Estranho Casal era dizer
pouco. Blair fora criada por uma equipe de babs e freqen-
tara a pr-escola em Park Avenue Presbyterian, assim como
todas as outras crianas de famlias do Upper East Side. Vanessa
foi criada pelos pais hippies e artistas em Vermont e s foi para
a escola aos dez anos de idade. Aos 15, ela se mudou para
Williamsburg para morar com a irm mais velha, Ruby, e pas-
sou os dois primeiros veres trabalhando em dois turnos na
loja de fotocpias do bairro, a Kinko's, para ganhar o bastante
para comprar sua primeira cmera de vdeo digital. Blair pas-
sava os veres jogando tnis na casa de veraneio do pai em
Newport, em Rhode Island, ou ajudando Serena a roubar
garrafas de Stoli do armrio da casa de campo de Serena em
Ridgefield, Connecticut. Blair tinha como modelo Audrey
Hepburn e sua cor preferida era o rosa-choque. Vanessa tinha
como modelo ela mesma e mais ningum, a no ser talvez o


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grande cineasta sueco de vanguarda Ingmar Bergman, e s
usava preto. Elas no podiam ser mais diferentes.
    -- No. -- Blair deu de ombros, permitindo que um
sorrisinho brincasse em sua cara de raposa. -- Por que eu fi-
caria puta com voc?
    Vanessa entrou na cozinha e pegou uma das salsichas de
tofu encharcadas que Aaron deixara na panela no fogo, co-
mendo metade de uma s dentada. Ela desenvolveu um gos-
to por elas desde que estava namorando Aaron.
    -- Quer? -- ofereceu ela a Dan e a Blair, estendendo-a
para eles como um dedo meio mastigado.
    Credo, obrigada.
    -- Eu t legal -- murmurou Dan, apalpando as calas
amarrotadas.
    Blair acenou para a salsicha de tofu, para Dan seminu e
seu chupo nojento, o apartamento encardido-apesar-da-nova-
demo-de-pintura, e tudo l fora, tudo de Williamsburg.
    -- No  para mim -- ela tentou explicar.
    Vanessa assentiu devagar. Desde que Blair descobrira Se-
rena e Nate conspirando na banheira da casa de jogos na resi-
dncia de vero de Isabel Coates nos Hamptons, ela estava
agindo de uma forma meio doida.
    -- Tem certeza de que o Yale Club vai te aceitar? Voc
ainda nem  aluna deles.
    Blair enfiou uma braada de moletons Juicy Couture cor
de rubi na mala j pesada. Antigamente ela era sensvel ao tema
de Yale, mas isso foi antes de ela entrar.
    -- Meu pai  scio. Eles vo me aceitar ou ele vai dar uma
dura neles.


70
    Vanessa ainda olhava para ela. Blair podia ouvir o tique-
taque do relgio eltrico no fogo velho.
    -- Ah. Eu quase me esqueci.
    Ela pegou a sacola de compras da Browns of London que
tinha carregado da escola para casa.
    No que ela realmente tenha feito tudo isso a p.
    -- Comprei um vestido de formatura para voc. Era to
perfeito, e imaginei que voc no ia querer comprar nada que
no fosse preto. Eu at tenho os sapatos perfeitos para voc
usar com ele.
    Vanessa puxou o embrulho de papel de seda branco da
sacola e sacudiu o vestido. Embora fosse branco, era incrvel.
Meio uma mistura de Morticia Addams com a Noiva de
Frankenstein.  claro que ela no tinha coragem de dizer a Blair
que Aaron props que eles sassem da cidade antes que a for-
matura sequer acontecesse.
    E a gente pensando que ela havia se esquecido de tudo isso.
    Vanessa ficou em um p s e coou a panturrilha com as
unhas pintadas de preto do outro p, ainda segurando o vesti-
do. Ela j estava totalmente pirada com a formatura e o que
vinha pela frente, e agora essa.
    -- Que merda. Isso  triste. -- Ela se atirou nos braos
de Blair. -- Vou sentir saudade de voc.
    Blair retribuiu o abrao.
    -- Olha, ns somos praticamente da mesma altura --
murmurou ela com delicadeza, dando um aperto afetuoso
no corpo seminu de Vanessa. -- Vamos ficar uma ao lado da
outra na fila da formatura.
    Vanessa sorriu e enxugou uma lgrima perdida. Ela apon-


                                                             71
tou para um sapato na mirade de pares de saltos agulha
Manolo espalhados no cho de madeira poeirento.
    -- No se voc usar um desses.
    -- Bom, voc pode pegar um par emprestado -- ofere-
ceu Blair gentilmente. As duas meninas riram e em um ins-
tante tudo tinha sido perdoado. At o sexo barulhento com
Aaron na noite passada e o sexo casual com Dan no terrao no
que devia ter sido o lugar especial de Blair e Vanessa. Se era
disso que ela precisava para aliviar a agitao pr-formatura,
ento seria assim.
    -- Vou tomar um banho -- anunciou Dan, embora ne-
nhuma das meninas estivesse prestando ateno nele.
    Vanessa pegou a saia jeans preta que Blair descartara no
cho e a vestiu sobre a bunda sem sequer tentar aboto-la.
Depois ela pegou as alas de uma das malas Louis Vuitton e
passou duas sacolas cheias de sapatos da Barneys sobre o
ombro.
    -- Vamos. Vou te ajudar a descer com as bolsas.
    Chuck estava esperando na esquina atrs do volante do
novo Jaguar conversvel prata -- um presente antecipado de
formatura. O carro parecia completamente incongruente com
o bairro arruinado. Ele abriu a mala e as meninas largaram a
bagagem de Blair l dentro.
    -- Deixei umas coisas para voc no armrio. -- Blair deu
um abrao rpido na colega de turma. -- Te vejo amanh na
aula de ingls.
    Vanessa retribuiu o abrao.
    -- A gente se v amanh, piranhuda -- respondeu ela com
ternura.


72
    Blair olhou a porta pichada se fechar nas costas de Va-
nessa quando ela entrou. Depois ela abriu a porta do caro-
na do Jaguar.
    -- Eu soube que nos anos 1940 todos os ex-alunos cos-
tumavam levar prostitutas no Yale Club -- anunciou Chuck
enquanto Blair pegava o cinto de segurana. -- E eles nem
tinham banheiro de mulheres. -- Ele arrancou do meio-fio e
passou a mo no joelho nu de Blair. -- Eu sabia que isso no
ia durar. Voc  mulher para homens, e no uma mulher para
mulheres.
    Blair enxotou a mo dele e revirou os olhos azuis, irrita-
da. Chuck era e sempre seria um babaca, tolerado s porque
ele, Blair e o resto de sua espcie nasceram no Lenox Hill
Hospital na 77 com a Park e todos tinham ido para a pr-es-
cola juntos. Eles freqentaram escolas de dana juntos e tira-
ram frias com suas famlias em St. Barts. Os pais deles
pertenciam ao conselho do Metropolitan Museum e da Me-
tropolitan Opera, e todos falavam a mesma lngua tcita. Mas,
ao contrrio dos outros moradores do Upper East Side, Chuck
no conseguira entrar para nenhuma das universidades parti-
culares a que se candidatara. Os pais dele o estavam mandan-
do a uma academia militar qualquer no norte de Nova Jersey.
Ento era fcil entender por que ele criticava tanto o Yale Club:
ele estava com invejinha.
    Voc acha mesmo?
    O novo CD de Justin Timberlake tocava no som Blaupunkt
do carro e Blair colocou o volume no mximo. Chuck ps a
mo no joelho dela novamente enquanto eles se aproximavam
da ponte de Williamsburg. Ela a pegou e colocou na alavanca


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de cmbio. Ser que Chuck a estava confundindo com uma puta
feito a Serena, que no tinha moral e se agarrava com um cara
s porque ele era bonito e ela estava vagamente excitada?
    -- Dirija -- ordenou ela. -- S dirija. -- Ela cruzou as
mos no colo, toda empertigada. Ela no era assim.
    Ah, no era, ?




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Advertncia: Todos os nomes verdadeiros de lugares, pessoas e fatos foram alterados
ou abreviados para proteger os inocentes. Quer dizer, eu.




                               oi, gente!
    No sabe de quase nada a no ser s-e-x-o

    As provas finais sero na semana que vem e ningum parece
    ligar para isso. Em vez de ficar em casa decorando cronolo-
    gias de histria americana avanada ou conjugaes de ver-
    bos irregulares em francs, todo mundo fica pedindo comida
    chinesa, e indo para a cama... com um amigo. Que bando de
    gente previsvel. Mas que maneira melhor de se livrar do es-
    tresse pr-finais e formatura?


    Algum falou em presentes?

    A formatura -- a cerimnia, quero dizer --  realmente para
    os pais.  graas aos presentes que ganhamos de formatura
    que vale totalmente passar por ela. Vamos adivinhar o que
    algumas de nossas pessoas favoritas esto pedindo  mame
    e ao papai...

    B: Ela afirma ter superado os homens, mas o que ela real-
    mente quer  um namorado novo e gato. Um namorado que




                                                                               75
     no a traia com a melhor amiga em uma banheira de uma
     festa.

     V: Um calendrio que alterne os meninos para que ela possa
     dar conta de todos.

     N: Um suprimento eterno de Kleenex com um lindo suporte
     para caixa de Kleenex Ralph Lauren azul.

     D: Um Hyundai usado, uma carteira de motorista... ah, e uma
     vida.

     S: Outro hobby que no seja roubar o namorado da melhor
     amiga. O que foi que aconteceu com a carreira de modelo/
     atriz dela, alis?

     J: Pera, ela no est se formando. Mas ela ainda precisa de
     uma escola para ir no ano que vem.

     Uma coisa que todos queremos: uma festa gigante e fabulo-
     sa para todos irem. Nada desse blablabl irritante de no-ter-
     mine-nunca-seu-drinque. Vamos simplesmente achar o lugar
     perfeito, convidar todo mundo, fazer a maior farra da vida e
     no ir embora nunca.


     Seu e-mail
        Cara GG,
 P:     meu irmo mais novo est na stima srie do st. jude's e ele
        soube que N vai a um psiquiatra. supostamente ele tem que,
        tipo assim, voltar a ser um beb para que seu psiquiatra pos-
        sa entender por que ele  to cabea-oca.  por isso que ele
        chora o tempo todo.
        -- nformed



76
     Cara nformed,
R:   Desculpe-me por perguntar, mas essa tcnica de regresso
     tambm no vai fazer N urinar nas calas? Eca. Coitadinho!


 Flagras

 N beijando S recatadamente no rosto em frente ao prdio
 dela na 82 com a Quinta. Ser que os pais dela estavam
 olhando ou ele , tipo assim, o nico cara no universo todo
 que consegue resistir a ela, embora ela supostamente seja
 namorada dele? Ser que ele estava com as calas molhadas
 e teve que ir correndo para casa para trocar de roupa? B e C
 ouvindo msica aos berros no trnsito da ponte de Wi-
 lliamsburg. O brao dele estava em volta dela e ela estava
 fazendo carinho em Sweetie, o macaco de estimao dele.
 Agora este sim  um relacionamento que pode dar certo! V
 borrifando desodorizador de ar no ninho de amor no terrao
 e rearrumando as almofadas de pele. Com tantos caras para
 pegar, deve ser difcil manter as coisas arrumadinhas e chei-
 rando a novas. E o que era aquela cuequinha que vimos V
 atirar do terrao na rua?! J em uma loja de ferragens de New
 Hampshire tentando convencer o pai a comprar um carrinho
 de mo para D como presente de brincadeira de formatura
 em vez de um carro. No pense que ele no ia gostar da piada.
 K e I experimentando cada par de sandlias Ferragamo que
 existem. Ser possvel que ningum vai contar a essas meninas
 que usar sapatos iguais  brega? A, eu contei!

 Lembrem-se, a formatura  para mes e pais. Ento por que
 no usar aquele vestido Laura Ashley cheio de babados com



                                                                  77
     o laarote branco na bunda que sua me guardou para voc
     desde que voc tinha dez anos e depois auferir as recompen-
     sas? Algum a sabe soletrar B-M-W?

     Perdoem minha ganncia.

                    Pra voc que me ama,

                    gossip girl




78
s demonstra como ser malcriada e legal
-- Sr. Beckham? -- chamou Serena, abrindo a porta da
primeira das quatro cortinas pesadas que levavam ao quarto
escuro da Constance Billard. -- Sr. Beckham, posso entrar e
conversar com o senhor por um minuto?
    Serena ouviu o barulho de um banco.
    -- Claro, entre -- respondeu o nico professor de cine-
ma da Constance Billard. -- Cuidado com as cortinas.
    As aulas do dia tinham acabado e um silncio caiu sobre a
escola, quebrado somente pelo riso de algumas meninas que
ainda estavam l ou o clique dos saltos de uma professora.
Serena ficara para trs para ver se podia remediar o problema
de ser oradora da turma. No que ela definitivamente tenha
aceitado, mas ela j estava muito afastada de Blair. Tornar-se
oradora das veteranas s seria mais uma coisa que ela conse-
guira sem realmente querer.
    Como um certo namorado de olhos verdes?
    Ela entrou na sala de revelao, certificando-se de que as
cortinas se fechassem atrs dela para bloquear a entrada da
menor partcula de luz. Uma lmpada vermelha especial para


                                                           79
quarto escuro brilhava no teto, mas ainda assim era difcil
enxergar. Os braos e pernas nus de Serena se eriaram. O
quarto escuro sempre lhe dava arrepios.
     O Sr. Beckham era o nico professor jovem e legal na
Constance. S que ele pensava que era mais legal, mais jo-
vem e mais bonito do que realmente era. Julgando-se um ar-
tista, ele usava culos de armao retangular e camisetas Club
Monaco de manga comprida, pretas e apertadas, que mostra-
vam seu peito tonificado da ginstica. Ele eriava o cabelo louro
escuro com gel e inseria uma palavra francesa aqui e ali sem-
pre que podia.
     -- Ah, Serena -- exclamou ele, deixando de lado o bagel
com cream cheese que estava comendo. Ele abriu os braos.
-- Quelle prazer!
     Serena remexeu no boto na cintura de sua saia de unifor-
me de primavera listrada de azul e branco e passou de um p
de apoio para outro. Por que  que falar com um professor
fora da sala de aula era sempre meio constrangedor?
     Em especial quando voc suspeitava de que o professor
estava meio a fim de voc.
     -- Hummm, eu s queria agradecer ao senhor por me
indicar para ser oradora da turma -- disse Serena a ele. Ela
enfiou o polegar na boca e comeou a roer a unha rosa-prola
j roda.
     Observao a todos: s gente ridiculamente bonita pode
ter esse tipo de comportamento sem dar nojo a todos os
outros.
     -- Mas ento -- continuou ela --, eu s queria que o
senhor soubesse que eu me exclu da lista de indicados. -- Ela


80
passou ao dedo anular, que no era rodo desde o caf-da-
manh. -- Eu nunca fui boa com discursos.
     E alm disso, a Blair  a nica pessoa alm de mim que foi indicada
e ela realmente quer fazer isso, e eu tenho medo de que, se eu aceitar,
ela v me matar enquanto eu estiver dormindo.
     O Sr. Beckham tirou os culos e comeou a limp-los com
a bainha da camiseta preta, revelando um trecho de uma bar-
riga surpreendentemente nua. Serena procurou no olhar e
se perguntou casualmente se ele era gay. A pele nua parecia
totalmente indecente, como se ele estivesse se exibindo para
ela ou coisa assim.
     -- Sabe por que eu indiquei voc, n'est-ce pas? -- pergun-
tou ele, olhando investigativamente para ela na escurido ver-
melha enquanto continuava a limpar os culos.
     Mais oui. Porque voc tem teso pour elle?
     -- Bom... -- comeou Serena, procurando por uma des-
culpa para se virar e fugir dali. De repente havia algo de hor-
ripilante e insano no fato de que o Sr. Beckham estava
comendo um bagel enquanto revelava um filme. Ela se per-
guntou se ele era viciado nas substncias qumicas ou coisa
assim.
     O Sr. Beckham ps os culos de novo e se sentou nova-
mente no banco de metal giratrio.
     -- Serena, eu ando observando voc desde que cheguei
aqui, desde quando voc s estava na quinta srie. E eu sei que
parece piegas, mas voc realmente ilumina meu quarto escu-
ro. -- Ele parou para dar um pigarro, claramente nervoso
demais para pensar em alguma palavra em francs. -- Se eu
no fosse seu professor, eu ia...


                                                                     81
    Ele ia... derramar fixador nela toda e depois lamber? Um
conselho: Corre, garota, corre!!!
    Serena tinha certeza absoluta de que no queria ouvir mais
nada.
    -- Hummm, Sr. Beckham? Desculpe, mas eu realmente
tenho que ir. Eu s queria agradecer por seu apoio. -- Ela
ergueu a mo e acenou toda rgida, embora ele estivesse sen-
tado bem na frente dela. -- Acho que vejo o senhor na for-
matura -- acrescentou com uma falsa animao. Depois ela
se virou para sair pelas cortinas pesadas.
    -- Espere.
    A barriga de Serena se encheu de medo e ela tremeu no-
vamente na camisetinha branca. Ela podia ouvir vozes do lado
de fora, no corredor. Algum a ouviria se ela gritasse bem alto.
Ela se virou.
    -- Eu tenho mesmo que ir.
    O Sr. Beckham saiu do banco e andou na direo dela.
    -- Eu poderia... -- Ele engoliu em seco, o pomo-de-
Ado sacudindo nervosamente. -- Se importaria se eu s...
lhe desse um beijo petit, petit? -- perguntou ele em voz bai-
xa, unindo o polegar e o indicador para demonstrar como o
beijo seria pequeno.
    Serena hesitou, relutando em transformar isso em grande
coisa mas ansiosa para se livrar dele. Ela podia simplesmente
dizer no e sair. Ou podia pirar e correr para a sala da Sra. M
e dedur-lo. Ou podia deixar que ele desse o beijinho e lem-
brasse dela de vez em quando para depois se esquecer para
sempre.


82
    Ela ergueu os ombros ossudos e se virou para oferecer o
rosto macio, delicado e bronzeado de sol, deixando bem cla-
ro que o Sr. Beckham no ia entrar em ao na sua boca.
    Ele deu um passo  frente e plantou um beijo cuidadoso
no meio da bochecha de Serena, como um selo.
    -- Tant pis -- disse ele baixinho e tristonho, depois abriu
as cortinas do quarto escuro, como que para que ela soubesse
que ele no tinha a inteno de abusar mais dela.
    Imagino que ele no ligava muito para expor o filme dele
 luz.
    -- Adieu, Serena.
    No corredor, bem do lado de fora do quarto escuro, a Sra.
M estava parada com seu terninho preferido de linho verme-
lho, azul e branco Talbots com a Srta. D'Agostino, a nova pro-
fessora sem-graa de espanhol, que segurava uma lata de metal
dourado cheia de trufas de chocolate.
    -- Oooh, sua diabinha! -- piou a Sra. M deliciada enquan-
to colocava uma trufa na boca. Depois ela percebeu Serena e
seus olhos castanhos se arregalaram, como uma criana pega
com a mo no vidro de biscoitos.
    Serena reprimiu uma gargalhada, sentindo-se de repente
um balo inflado demais. Como a vida era estranha; ela deu
um sorriso duro para a Sra. M e pegou uma trufa da lata en-
quanto corria para a sada da escola.
    Ah, as coisas por que ns, veteranas, temos de passar. Agora,
corre, garota, corre!




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a nova droga preferida de n
A festa de final de ano do time de lacrosse ia acontecer na academia
do St. Jude's, o que era meio idiota, uma vez que estava uns 26
graus l fora e uma festa no parque teria sido muito melhor. Mas
os meninos eram todos menores de idade, e assim umas cervejas
na academia e uma pizza era tudo o que o treinador Michaels
permitiria. Alm disso, todos os meninos tinham tomado um
porre na casa de Jeremy Scott Thompkinson antes e todos iam
acabar derrubados em algum lugar depois de tudo, ento, que
diferena fazia?
    Nate pegou sua pizza e fechou os olhos com fora. A lti-
ma festa de lacrosse do ano. A ltima festa de lacrosse da vida.
Que droga. As lgrimas j estavam comeando a cair.
    A academia ficava no terrao do prdio de tijolos aparen-
tes e de seis andares na East End Avenue, com vidraas gigan-
tescas dando para o reluzente East River e o Queens. Numa
tarde, perto do final da oitava srie, Nate, Jeremy, Anthony
Avuldsen e Charlie Dern se prontificaram a relaxar um pou-
co depois do treino de lacrosse. Eles se demoraram um pou-
co atirando os arcos e depois se esconderam de Rick, o zelador,


                                                                 85
atrs da enorme estante de metal onde as bolas eram guarda-
das. Quando Rick acabou a limpeza e as luzes se apagaram,
eles se postaram na frente das vidraas -- bem ali onde Nate
estava parado agora -- vendo o pr-do-sol, fumando uma erva
e comendo Starbursts at as nove. Um alarme disparou quan-
do eles finalmente saram do prdio, mas eles correram para
o Carl Schurz Park a algumas quadras e no foram apanha-
dos. Bons tempos, aqueles. Agora os bons tempos estavam
prestes a acabar. Talvez j tivessem acabado.
    Os olhos de Nate varreram o horizonte acima da gua prate-
ada e os prdios industriais baixos. Em algum lugar no sudoeste
do Queens ficava Williamsburg, Brooklyn, onde Blair morava
agora. Ele se perguntou o que ela estaria fazendo. Parada no ter-
rao, talvez, fumando um Merit Ultra Light e enfiando agulhas
nos bonequinhos de vodu que ela deve ter feito dele e de Serena.
    No se iluda, meu bem.
    Nate tirou as lgrimas de seus lindos olhos verdes com o
polegar e largou a fatia de pizza que ele mal tocou na lata de
lixo. Anthony apareceu, passando o brao musculoso nos
ombros de Nate, e lhe deu um beijo no rosto com uma ter-
nura fingida.
    -- Qual  o problema, docinho?
    -- Vai se foder -- respondeu Nate, dando um soco nas
costelas de Anthony.
    O amigo recusou-se a ser enxotado com tanta facilidade.
    -- Vai tomar uma cerveja com a gente e parar de se la-
mentar? -- Uma mecha exagerada de cabelos lourssimos caiu
pelo rosto sardento de Anthony e ele a afastou. -- Cara, isso 
uma festa!


86
    Nate riu e se permitiu ser conduzido para onde os outros
garotos estavam parados, tomando cerveja e ouvindo o trei-
nador falar. Jeremy puxou para cima a cala Levi's azul escura
grande demais e atirou uma garrafa de Heineken a Nate.
    -- Ei, ouviu essa? Toda quarta-feira depois do treino o
treinador toma um Viagra e encontra a mulher no hotel Pierre.
-- Ele abriu outra garrafa para si mesmo e tomou um longo
gole. -- Quem teria imaginado isso.
    O treinador Michaels enfiou as mos nos bolsos do inse-
parvel bluso vermelho Lands' End, parecendo satisfeito con-
sigo mesmo.
    -- Quem disse que no podemos curtir?
    Nate ergueu a garrafa numa resposta silenciosa  pergun-
ta do treinador e secou metade do contedo. Michaels tinha
todas as qualidades rudes e paternais que um cara podia que-
rer num tcnico, mas Nate nunca sentiu muito afeto por ele.
O treinador fez dele capito no meio da temporada s porque
o primeiranista que devia ser capito sumiu misteriosamente
da escola. E o treinador ainda teve de dar os parabns a Nate
por ele ter entrado para Yale, Brown e Harvard. No surpreen-
deu Nate que o treinador precisasse de Viagra para transar. Ele
era meio insensvel.
    No que Nate pudesse julgar. Depois do trunk show no St.
Claire naquela manh, Serena se atirou toda pra cima dele,
mas em vez de suar a camisa com ela enquanto o txi dispara-
va pela Park Avenue, s o que ele conseguiu fazer foi olhar
pela divisria de vidro para o meio da rua, chorando porque o
calor tinha feito com que as tulipas vermelhas e amarelas sol-
tassem as ptalas e murchassem.


                                                            87
     Posso imaginar que no eram s as tulipas que estavam
murchando.
     O treinador Michaels comeou a falar de como as minivans
na verdade eram os carros mais sensuais na estrada porque
tinham dois conjuntos de bancos traseiros. Nate bebeu a cer-
veja enquanto reavaliava o tcnico. At no casaco idiota Lands'
End dele ele era saudvel, impetuoso e vigoroso. Ningum
jamais pegou a ele chorando como uma menininha pelas me-
nores coisas. Talvez um pouco de Viagra fosse exatamente o
que Nate precisava.
     Ah, no.
     Nate terminou a cerveja e baixou a garrafa na comprida
mesa dobrvel que a turma da cozinha da escola montara para
a festa. Depois se virou e foi para a sala da equipe de educao
fsica, do outro lado da academia, perto do vestirio dos ho-
mens. Todo mundo ia pensar que ele s ia fazer xixi.
     Quando na verdade...
     Na mesa do treinador, havia uma foto 20 por 25 da esposa
dele, Patricia. Ela parecia uma Jennifer Aniston com rugas e
um corte de cabelo pajem tingido de castanho avermelhado.
Pequena e rija, usando uma verso feminina da Lands' End
do casaco do treinador, seus olhos castanhos brilhavam e os
lbios rosados sem batom se abriam em um sorriso largo e
feliz. Os dentes eram to brancos que deviam ser falsos, e Nate
se perguntou se ela os tirava durante aquelas escapadelas
induzidas por Viagra no hotel Pierre.
     A sala do departamento de educao fsica tinha cheiro de
batata frita velha e chul. Uma enorme pilha de revistas anti-
gas estava no cho, encimada por uma edio sobre roupas de


88
banho que exibia uma foto de uma brasileira impossivelmente
gostosa usando nada mais do que uma calcinha de biquni de
malha. Os braos sardentos abraavam o peito nu casualmen-
te e ela ria para a cmera como quem diz: "Desafie-me a abrir
os braos!"
    Nate ficou tentado a pegar a revista e olhar, mas resistiu,
abrindo a gaveta larga sob a mesa de metal verde do treinador.
A gaveta estava uma baguna, cheia daqueles saquinhos de
amendoim que do nos avies, vidros de corretor, clips, Advil,
sacos de gelo e vrios frascos de remdio. Nate os vasculhou
at encontrar o que estava procurando. Casualmente, ele o
colocou no bolso da cala cqui Brooks Brothers e saiu de fi-
ninho da sala.
    Os outros meninos ainda estavam ouvindo o treinador se
vangloriar de quantas vezes tinha engravidado a mulher.
    -- Eu j era casado quando tinha a idade de vocs -- es-
tava dizendo o tcnico.
    -- Caraca -- murmuraram os colegas de Nate, horro-
rizados.
    Na verdade, j estar casado com Blair teria lhe poupado
muitos problemas, pensou Nate de um jeito meio disparatado.
    Ah, t. Como se estar casado pudesse ter evitado que ele a
trasse?
    -- A, choro! -- gritou Jeremy para Nate. Ele puxou os
jeans para cima e pegou outra Heineken no isopor. -- Tinha
uma garota escondida no banheiro ou o qu?
    Os outros meninos olharam, na expectativa. Apesar de ser
um atleta bonito e bobalho como o resto deles, Nate sempre
conseguia fazer as maiores surpresas. O simples fato de que


                                                            89
conseguira pegar Blair Waldorf e Serena van der Woodsen ti-
nha elevado seu status ao de um semideus.
    Nate deu um sorriso amarelo e ergueu as mos, sinali-
zando para Jeremy lhe atirar outra cerveja. Se eles pudessem
ver o que estava em seu bolso, teriam ficado mesmo muito
surpresos.




90
aconteceu uma coisa engraada no
yale club
--  to bom t-la conosco, Srta. Waldorf -- recebeu-a o tenso
concierge do Yale Club. -- Se me acompanhar, Dominick
cuidar de sua bagagem.
    -- Obrigada -- respondeu Blair graciosamente, satisfeita
consigo mesma por ter feito Chuck telefonar e fingir ser o pai
dela e reservar um quarto minutos antes de ela chegar.  claro
que ela podia ter pedido ao pai para ligar ele mesmo, mas ele
estava na Alemanha comprando um avio ou um carro, ela no
tinha certeza, para o novo namorado francs, Giles, e ela no
queria incomod-lo.
    O saguo do Yale Club era formal e sem exageros, com
um piso de mrmore preto e branco, paredes brancas e algu-
mas poltronas no azul Yale espalhadas pelo ambiente. Enquan-
to os funcionrios corriam com suas malas e chaves, Blair
manteve o queixo erguido, imaginando que era Elizabeth
Taylor nos tempos em que ela era linda, magra e glamourosa,
chegando em uma pousada simples em uma pequena cidade


                                                           91
da Esccia onde seu novo filme estava sendo rodado. Ela po-
dia suportar o ambiente antiquado e rude desde que passasse
a maior parte do tempo no bar.
    Ela seguiu o concierge vestido de preto e gravata-borboleta
at um dos elevadores revestidos de madeira e ficou parada
em silncio esperando que a porta se fechasse, rezando para
que seu quarto tivesse armrios amplos e lenis decentes. Era
precisamente um daqueles momentos corriqueiros e incmo-
dos que a faziam pensar que a vida estava s esperando que
alguma coisa acontecesse.
    Mas a alguma coisa realmente aconteceu.
    -- Espere! -- Um rapaz alto de ombros largos gritou para
ela enquanto entrava s pressas no elevador. O cabelo casta-
nho claro era curto e ondulado e a pele tinha uma linda cor de
bronze dourado. Os olhos verdes reluzentes eram emoldura-
dos por longos clios castanhos, e a boca vermelha e feminina
era composta por um queixo quadrado e masculino. -- Obri-
gado -- ele agradeceu ao concierge num sotaque britnico.
Depois se virou e ficou de frente para Blair, olhando desaver-
gonhadamente para ela enquanto as portas do elevador se fe-
chavam a suas costas.
    Parece que Elizabeth achou seu Richard Burton.
    Blair se balanou em suas sandlias douradas Manolo Egyp-
tian Goddess enquanto eles subiam. Que sotaque britnico
charmoso. Que linda camisa branca e jeans Helmut Lang per-
feitamente passados. Que sapatos Church's of London ado-
rveis. Que cabelos dourados, que olhos verdes, que tima
altura! Ele era uma verso mais alta e mais bonita de Nate --
mas at melhor do que Nate, por causa do delicioso sotaque!


92
    Ela no devia ter superado os homens? Mas uma verso
superbritnica de Nate? Ah, qual , quem resistiria?
    O elevador parou no quarto andar. O rapaz deu um passo
para o lado e o concierge saiu.
    -- Basta me seguir, senhorita -- disse o concierge, gesticu-
lando para Blair ir atrs dele. Blair hesitou. Como poderia
deixar esse cara de aparncia deliciosa para trs?
    -- A senhorita primeiro -- murmurou o rapaz em voz
baixa, apertando o boto para manter a porta do elevador aberta
para que Blair no fosse esmagada.
    --  por aqui -- sugeriu o concierge, andando na frente pelo
corredor acarpetado de azul Yale.
    Blair foi para o corredor e comeou a seguir o concierge,
andando na menor velocidade possvel. E de repente o rapaz
estava andando atrs dela, exalando aromas agradveis e pare-
cendo deliciado com a prpria sensualidade.
    O concierge parou no final do corredor.
    --  sua sute jnior, senhorita, bem ao lado da sute do
Sr. Lorde.
    Sr. Lorde?!
    O rapaz ingls sorriu para Blair enquanto apalpava as
chaves.
    -- Lorde Marcus Beaton-Rhodes -- apresentou-se, es-
tendendo a mo. Blair percebeu de imediato que ele estava
com o anel de Yale. -- Para meu constrangimento, meus
amigos em Yale me chamam de Lorde.
    Lorde. Gostaria que conhecesse meu namorado, o Lorde. Isto ,
meu marido, o Lorde. Ns nos conhecemos em Yale. O Lorde e sua
linda esposa passaro as frias em seu iate no sul da Frana nesta pri-


                                                                    93
mavera com a famlia perfeita antes de uma longa estada em seu caste-
lo de vero na Cornualha...
    -- E voc ?
    Blair bateu as pestanas grossas e maquiadas, despertando
de seu delicioso devaneio.
    -- Blair Cornelia Waldorf -- trinou ela, parecendo exa-
tamente Audrey Hepburn em Bonequinha de luxo quando se
apresenta a seu novo vizinho, Paul Varjak. -- Na verdade, vou
comear em Yale neste outono.
    -- E eu acabei de terminar l. Urra! -- Lorde Marcus
atirou as chaves em seu quarto e tirou os sapatos na soleira da
porta. -- Diabos, estou atrasado para o squash, mas vamos...
-- ele sorriu timidamente. -- Poderamos tomar um drinque
esta noite?
    Blair assentiu numa concordncia muda. Mal podia acre-
ditar em sua sorte.
    -- Vejo voc no salo principal s sete, ento.
    O lorde fechou a porta do quarto e o concierge depositou as
chaves da sute adjacente na mo de Blair.
    -- Suas malas estaro aqui logo. Est tudo bem, Srta.
Waldorf?
    -- Maldio! -- Ela ouviu o lorde exclamar com seu so-
taque adorvel ao pisar em alguma coisa em seu quarto. Blair
o imaginou atirando as lindas roupas inglesas feitas sob medi-
da por todo o quarto enquanto procurava por alguma coisa
para usar no squash. Se ela fosse sua namorada, organizaria
suas camisas por cor e colocaria os sapatos em ordem alfab-
tica de acordo com o estilista para que ele no tivesse que se
debater tanto procurando por suas coisas.


94
     claro que ela faria isso.
    Ela entrou no quarto e deixou-se cair na cama king-size
para escutar, os olhos dardejando pelo quarto como sempre
fazia, apreendendo tudo. Era pequeno e roto-chique, pecan-
do para o roto, sendo o relevo dourado nas cortinas, na colcha
e no papel de parede azul-real a nica tentativa de grandeza.
No era exatamente o Plaza, mas tinha um lorde ingls gato
morando no quarto ao lado.
    Sim, sim -- tudo estava mais do que bem.




                                                           95
o que os alunos de internato fazem
quando esto com tdio
J eram cinco da tarde quando Jenny e o pai chegaram a Croton
School, em Croton Falls, Nova York. A noite semanal de vinho
e poesia beat de Rufus com os amigos anarquistas, poetas e
esquisitos ia comear em uma hora em um bar do Greenwich
Village e ele estava ficando ansioso. Croton ficava s a uma
hora e meia de trem da cidade e Jenny no via a hora de se
livrar dele, ento ela props pegar o trem para casa.
    -- No pegue a rua 125 -- aconselhou Rufus, embora
fosse a estao mais prxima de seu apartamento. Ele deu a
Jenny trs notas de vinte dlares. -- V para a Grand Central
e pegue um txi. E me ligue quando estiver saindo, para que
eu avise a seu irmo para esperar por voc.
    Como se Dan realmente se importasse se ela ia mesmo voltar
para casa. Ultimamente Dan tem estado to preocupado que mal
parece se lembrar de que eles antigamente eram meio amigos.
    Jenny deu um beijo no rosto do pai. Era bonitinho como
ele a tratava como um beb, mas ela j estava com quase 15
anos -- podia cuidar de si mesma.


                                                           97
    -- Tenha uma boa noite, pai -- disse ela com doura.
Ela acenou um adeus enquanto a perua Volvo amassada
azul-marinho desaparecia na estrada. Depois ela abriu mais
um boto da blusa e entrou em uma casa vermelha de ma-
deira com uma placa dourada na porta pintada de verde que
dizia ADMISSO, ansiosa para conhecer sua guia em
Croton.
    -- Voc! -- gritou uma voz de homem com entusiasmo
assim que ela abriu a porta. --  voc!
    A boca muito vermelha de Jenny se abriu de choque.
Olhando de lado para ela do outro lado da sala, na rea de
admisso estranhamente decorada, estava um clone mais
msculo e vestido de forma menos extravagante de Chuck
Bass. A mesma cara de comercial europeu de loo ps-bar-
ba, o mesmo cabelo escuro penteado para trs com gel, o
mesmo sorriso convencido, o mesmo brilho pervertido nos
olhos. Ele foi at ela e estendeu a mo, um anel com mo-
nograma rosa brilhando na mo direita.
    -- Eu sou seu guia. Meu nome  Harold Bass. Me cha-
me de Harry. Talvez voc conhea meu primo Charles Bass...
Conhecido como Chuck. Ele me contou tudo sobre voc. E
 claro que eu vi suas fotos na Internet.
    Ai, meu Deus.
    Jenny conseguiu sorrir. Chuck Bass quase a deflorara em
uma cabine do banheiro de mulheres no antigo prdio da
Barneys durante sua primeira festa beneficente no outono
passado, e Jenny ainda tinha um pouco de medo dele. Mas os
Bass eram uma poderosa famlia do Upper East Side, famosa
por sua filantropia, pela decadncia e pelo jeito rebelde de seus


98
filhos degenerados. Se o primo de Chuck gostava de Croton,
ento devia ser o tipo de escola que Jenny procurava.
    -- No fique desconcertada com a aparncia puritana
daqui, Jennifer -- aconselhou Harry, os dentes brancos fais-
cando. Ele enfiou as mos nos bolsos da cala de linho azul-
clara Zegna que usava com chinelos de palha, bem no estilo
aluno-de-escola-preparatria-vai--praia. -- A gente basica-
mente se diverte, tipo assim, oitenta por cento do tempo,
dorme quinze por cento do tempo, come cinco por cento do
tempo e estuda sempre que tem algum tempo de sobra, isto
, nunca.
    Jenny sorriu. Parecia bom -- simplesmente bom.
    Harry Bass apertou os lbios e tombou a cabea de lado
como se a estivesse avaliando.
    -- Vamos. Tem algumas pessoas que quero que voc
conhea.
    Com o corao acelerado de expectativa, Jenny o seguiu
para fora do prdio e por um longo caminho ngreme de cas-
calho que fazia uma curva atrs de uma fila de prdios de tijo-
los aparentes com venezianas de madeira preta nas janelas. O
caminho terminava em uma trilha de terra estreita que levava
a um pequeno lago de patos e ao bosque.
    -- S mais um pouco -- explicou Harry, os chinelos ba-
tendo nos calcanhares.
    Jenny hesitou, perguntando-se que diabo estava fazendo
no meio da mata essa gente que ele queria que ela conheces-
se. Estaria ela prestes a fazer parte daquelas tradies peculia-
res dos internatos de que ela tanto lera, como fogueiras e
banhos no lago nus  meia-noite? No meio do lago, um pato


                                                              99
de cabea verde escura estava grasnando alto para um pato
marrom mais recatado, tentando atrair sua ateno. Jenny no
pde deixar de se maravilhar em ver como era estranho que
fosse passar um dia inteiro no interior depois de passar toda a
vida at agora na ilha de Manhattan.
    -- Aonde vamos? -- gritou ela a Harry enquanto corria
para acompanh-lo.
    Antes que ele pudesse responder, uma menina com um
biquni vermelho-bombeiros apareceu no caminho a uns cinco
metros deles.
    -- Ei, Bass! -- gritou ela to alto que as folhas pareceram
sacudir nas rvores. --  melhor que voc e sua namorada nova
sentem a bunda aqui antes que a gente termine com o voc-
sabe-quem!
    -- Vem! -- gritou Harry para trs. Ele riu para Jenny. --
Vamos. Voc sabe que quer ir.
    Ele at falava como o primo.
    Agora que tinha certeza de que ela e Harry no iam ficar
sozinhos na mata, Jenny se sentiu mais confiante em segui-
lo. Estava mais frio na sombra das rvores e o cheiro era de
musgo molhado. De repente eles deram num grupo de cinco
rapazes e quatro meninas, sentados numa roda, com trajes de
banho ou short e camiseta, o resto das roupas espalhadas na
base de uma rvore prxima. Alguns estavam bebendo cerve-
ja Coors em lata, alguns fumavam cigarros e todos pareciam
extremamente felizes de estar ali.
    A garota de biquni vermelho -- magra e plida, de cabelo
castanho claro comprido e brilhante e lindos olhos castanhos
-- estendeu as mos para eles.


100
    -- Mais um minuto e voc-sabe-quem ia aparecer e pe-
gar esses aqui -- disse-lhes ela com um sorriso reluzente.
Jenny encarou as palmas das mos da menina, pontilhadas de
pequenos comprimidos brancos.
    -- April, voc  demais. -- Harry pegou um comprimi-
do de Ecstasy das mos da menina e colocou na boca. -- Anda,
Jennifer -- ele instou Jenny, apontando para a mo estendida
de April. -- Quanto mais rpido tomar um, mais rpido vai
se apaixonar por mim. -- E deu um sorriso diablico. -- Quer
dizer, por nossa escola.
    Ah,  mesmo?
    J haviam oferecido drogas a Jenny antes. Ela ficou doi-
dona uma vez, com Nate Archibald, no dia em que eles se
conheceram, no Sheep Meadow do Central Park. Ela se apai-
xonou por ele naquele dia e ficou apaixonada por ele at que
ele terminou com ela na festa de Ano-novo. Provavelmente,
se ela no estivesse chapada, teria entendido que ela e Nate
haviam acabado de se conhecer e que ela precisava conhecer
Nate muito melhor antes de beij-lo.
    Ela estendeu a mo para pegar um dos comprimidos de
Ecstasy da mo de April sem a inteno de realmente ingeri-
lo. Era to pequenininho que ningum ia perceber.
    -- Hummm -- piou ela, fingindo estar deliciada enquan-
to colocava a mo em concha na boca e deixava o comprimi-
do minsculo cair por seu queixo e descer pelo amplo decote
dos peitos 42.
    A gente sempre soube que um dia eles seriam uma mo na
roda!


                                                        101
    -- Vamos jogar Pato, Pato, Ganso -- anunciou um dos
meninos que bebiam Coors com uma cara completamente
careta, como se estivesse tentando organizar uma partida
amistosa de futebol. Ele no vestia nada a no ser um short
azul e parecia um ciclista do Tour de France, com msculos
retesados, a cabea raspada e os olhos azuis intensos. -- Quer
jogar?
    -- Claro! -- respondeu Harry Bass com entusiasmo. Ele
passou o brao na cintura de Jenny e deu um beijo no lado da
cabea dela. -- Minha abobrinha -- murmurou ele com afeto.
    Jenny teve a sensao de que o Ecstasy de Harry no era o
primeiro que ele tomava naquela tarde. Ela estava prestes a
afast-lo quando percebeu que ia ter de pelo menos fingir que
tinha tomado a droga; caso contrrio, ficaria bvio que ela no
tinha tomado nada. O problema era que ela nem sabia em
quanto tempo devia comear a fazer efeito.
    -- ! -- guinchou ela. -- Vamos jogar!
    Eles se juntaram  roda e sentaram entre um japons
bochechudo de bermuda xadrez Madras e cabelo de roqueiro
e o cara musculoso de short azul de ciclismo. Todos estavam
sorrindo tanto, que parecia que seus dentes doam.
    -- Primeiro eu -- ofereceu-se April. -- Mas antes acho
que vamos precisar de um pouco disso aqui. -- Ela passou
alguns pacotes de chiclete Dentyne de canela.
    -- Voc  uma deusa -- disse-lhe o cara de short de ci-
clismo, elogiando-a. Ele colocou trs pedaos de chiclete na
boca e comeou a mascar com voracidade. -- Mu, mu, mu!
    April estourou umas bolinhas cor-de-rosa com o chiclete
e bateu palmas.


102
    -- T legal, gente, l vai! -- Ela saiu do meio da roda e
comeou a andar no sentido anti-horrio, batendo na cabea
de cada um enquanto passava. -- Pato, pato, pato, pato, pato,
pato, ganso! -- gritou ela enquanto batia na cabea do japons
de cabelo bacana e depois corria dali. Ele se levantou e foi atrs
dela, pegando-a nos braos e derrubando-a no cho. Eles fi-
caram deitados por algum tempo, arfando e meio que se aca-
riciando.
    Jenny percebeu que nenhum dos outros sequer estava
olhando para eles. Estavam concentrados demais em seu chi-
clete, ou estavam passando as mos nas costas do outro e rin-
do. Depois ela tambm sentiu uma mo em suas costas, por
baixo da blusa.
    -- Vamos tirar a blusa -- sugeriu Harry ansioso.
    -- T legal -- concordou Jenny, sem querer ser uma pu-
ritana. De qualquer modo, s lhe restavam trs botes. Os
guias escolares definitivamente estavam certos sobre Croton.
Era devassa, e talvez, depois que ela se acostumasse, exatamente
do que ela precisava.
    -- Uau -- murmurou ele enquanto ela dobrava a blusa
com cuidado e a colocava na relva ao lado dela. A cara dele era
a definio precisa da expresso ficar pasmo.
    -- Agora voc -- disse Jenny, sentindo-se confiante por
saber que ela era a nica que estava careta no bosque. Bom, quase.
    -- Mas o que  que vocs esto fazendo aqui?! -- retum-
bou uma voz grave. Um homem de aparncia atltica, cabelo
castanho crespo e bigode castanho chegou pelo caminho, des-
calo, com uma Levi's desbotada e uma camisa azul-clara puda
desabotoada at o meio do peito.


                                                              103
    April se sentou e enxugou a boca, os olhos castanhos
brilhando.
    -- Oi, Sr. Tortia.
    O Sr. Tortia no estava to irritado quanto aparentava. Ele
quase parecia querer participar.
    -- E ento, o que foi que eu perdi? -- quis saber ele com
ansiedade. Depois ele viu Jenny. -- E quem  voc, posso
saber?
    Harry afagou o sinal entre os ombros nus de Jenny.
    -- Ela  candidata a aluna. E acho que ela tomou a sua
parte.
    Jenny cruzou as mos no peito. Na verdade, a parte dele
estava em algum lugar dentro de seu suti Bali cor da pele
extra-reforado com suporte duplo, sem atrito e alas su-
perlargas, mas ela no ia se oferecer para dar a informao.
    O Sr. Tortia pegou uma coisa de seus dentes manchados
de tabaco e atirou com raiva na relva, parecendo genuina-
mente irritado.
    -- Isso  uma escola, e no uma boate de strip. Coloque
suas roupas -- disse ele a Jenny.
    Que bom.
    Jenny pegou a linda blusa em estilo japons, levantando-
se enquanto passava os braos pelas mangas e abotoava at
queixo. Quem diabos  esse cara, alis?, perguntou-se ela indig-
nada e assustada.
    -- No pode estar falando a srio sobre vir para esta ins-
tituio -- observou o Sr. Tortia, o grosso bigode castanho
molhado de suor e saliva. -- Croton se orgulha de sua discri-
o. Nossos alunos so a crme de la crme!


104
    Jenny olhou para a roda de alunos de Croton, os umbigos
de fora e os mamilos piscando para ela no sol quente de ve-
ro, a boca mascando o Dentyne, avoados de Ecstasy e exaus-
tos de uma nica rodada de Pato, Pato, Ganso. Discrio?
Crme de la crme? A crme de la crme dos fodidos, talvez. E que
direito tinha esse bigodudo de dizer se ela podia entrar ou no?
    -- O senhor  professor daqui ou...? -- perguntou ela
educadamente.
    O Sr. Tortia se agachou e estendeu a mo para April, que
lhe passou um pedao de Dentyne. Ele se levantou novamente.
    -- Na realidade, sou o diretor -- respondeu categorica-
mente. Ele puxou o bigode e lhe abriu seu primeiro sorriso.
-- Lio nmero um da discrio: no mencione este peque-
no incidente a ningum. Entendeu?
    Jenny assentiu.
    O Sr. Tortia ergueu as mos e acenou com a palma para
baixo, como a rainha da Inglaterra.
    -- Arrivederci, pequena candidata! -- entoou ele, dis-
pensando-a.
    Harry estendeu a mo e deu um tapinha na bunda de Jenny.
    -- Dirija com segurana -- disse-lhe ele com afeto, em-
bora ela obviamente no tivesse idade para dirigir.
    Arrivederci, fodidos!
    Com todo o corpo tremendo de afronta, Jenny correu pelo
caminho ao longo do bosque, querendo de todo o corao que
houvesse uma estao do metr bem ali no lago dos patos. Ela
podia sacar seu MetroCard e pegar o trem 3 para a rua 96 com
a Broadway e chegar em casa a tempo para o American Idol. O
pato de cabea verde grasnou para ela zombeteiramente quan-


                                                             105
do ela passou. "Crme de la crme! Crme de la crme! Crme de la
crme!", ele parecia estar dizendo.
    Jenny pegou o celular e discou para o servio de infor-
maes.
    -- Txi. Em Croton Falls, Nova York -- instruiu ela.
    -- No temos cadastro de txis -- respondeu a telefonis-
ta suavemente. -- Vou verificar limusines.
    -- timo. -- Jenny digitou no celular o nmero do ni-
co servio de limusines da cidade de Croton. Com o dinheiro
que o pai lhe dera, combinado com o dinheiro que j estava
na carteira, ela talvez pudesse pagar ao motorista para lev-la
direto para casa.
    Quem disse que ela no era crme de la crme?




106
v vive a felicidade em dobro
Quando Aaron voltou do ensaio da banda, Vanessa estava
parada na frente da pia do banheiro, olhando o cabelo -- ou a
ausncia dele -- no espelho redondo e manchado de pasta de
dente, ainda molhado do banho. Ela se livrara do cheiro
almiscarado de Dan e ficou apavorada ao descobrir que meio
que gostou do fato de que Aaron no sabia de absolutamente
nada.
    Quando ela era m, ela era m mesmo.
    -- Toalha legal -- observou Aaron, dando um beijo em
sua nuca.
    -- Obrigada. -- Vanessa bateu as pestanas e colocou as
mos nos quadris, modelando a toalha de banho floral de chintz
lavanda e preto, uma das muitas que Blair comprou para o
apartamento durante sua temporada curta mas cativante.
    Aaron passou os braos na cintura de Vanessa.
    -- Recebeu meu presente?
    Ele estava to gracinha numa camiseta laranja e bermuda
verde-militar baggy, e tinha o cheiro dos cigarros naturais que
ele sempre fumava.


                                                           107
     -- Blair foi embora -- disse-lhe Vanessa monotonamen-
te, ignorando a pergunta dele sobre o anel brega de amor/
amizade que ele deixara na bancada da cozinha naquela ma-
nh. -- Ela no conseguiu viver to longe da Barneys em um
prdio sem elevador e porta pichada.
     -- Bom, quem pode culp-la? -- Aaron sorriu para o re-
flexo dos dois no espelho -- duas cabeas escuras raspadas,
dois pares de olhos castanhos, dois pares de lbios vermelhos
e finos. -- Recebeu meu e-mail?
     Ns quase podamos ser gmeos, pensou Vanessa, arrepiando-
se. Ela de repente se lembrou daqueles livros antigos e excn-
tricos de V. C. Andrews que ela lera quando tinha 12 anos,
sobre irmo e irm que ficaram trancados num sto e acaba-
ram dando  luz gmeos.
     -- Blair quer ser nossa oradora da formatura. Se eu faltar
 formatura, ela vai me matar.
     Aaron revirou os olhos, baixou a tampa branca da privada
e se sentou nela. Ele suspirou.
     -- No sei como  que ela faz isso.
     -- Como assim? -- Vanessa no deixou de observar que
aquela conversa no pequeno banheiro era a mais longa que eles
j tiveram sem esquecer do que estavam falando e sem tirar as
roupas um do outro.
     -- Voc  a pessoa mais ntegra que eu conheo, mas ela
at consegue que voc faa o que ela quer -- explicou Aaron,
esfregando a nuca onde crescia parte do cabelo supercurto.
     -- No  assim. Ns somos amigas. E depois... -- Vanessa
rapidamente mudou de assunto. -- Acho que viajar pelo in-
terior de carro e acampar parece to... legal. -- Ela ps as mos


108
nos bolsos, esperando que Aaron tivesse se esquecido da his-
tria do anel. -- Quer dizer, desde que haja, tipo assim, um
banheiro e um chuveiro que eu possa usar.
    Parece que ela no conhece muito bem o significado de
"acampar".
    --  mesmo? -- Aaron se levantou, sorrindo enquanto
virava a cara de Vanessa para ele. -- Ento, voc est, tipo as-
sim, totalmente nua debaixo dessa toalha? -- perguntou ele,
beijando seu pescoo e os ombros.
    Vanessa sabia que devia ficar envergonhada por sua trapa-
a ultrajante. Dan s havia sado h uma hora. Agora aqui es-
tava ela com Aaron, seu namorado de verdade, fingindo que
era perfeitamente natural tomar um banho no final da tarde,
quando ela normalmente s tomava de manh. Talvez ela es-
tivesse perdendo a cabea, mas de certa forma isso tornava
ainda mais excitante o fato de ficar com Aaron e Dan.
    Aaron abriu o chuveiro e tirou a camiseta pela cabea.
    -- Eu digo que a gente precisa de uma boa limpeza. -- Ele
puxou a toalha de Vanessa. -- Vem, eu vou lavar o seu cabelo.
    A toalha caiu no cho e Vanessa riu alto, surpresa por se
sentir to sem culpa. A verdade era que, no futuro muito pr-
ximo, ela no veria muito nenhum dos dois, ento por que
no curtir os dois agora, enquanto eles estavam bem ali diante
dela -- nus?
    Depois do banho quentssimo dos dois, Aaron se ocupou
em cozinhar nuggets de trigo integral com fritas de batata-
doce, enquanto Vanessa editava seu ltimo projeto de filme,
uma srie de entrevistas com veteranos da Constance e de ou-
tras escolas particulares que ela filmara nos ltimos meses.


                                                            109
    Algumas das entrevistas eram engraadas e perspicazes,
mas outras podiam ser interpretadas como uma espcie de
doena mental por quem no conhecia as pessoas. Blair pare-
cia totalmente apavorante sentada diante da Fonte Bathesda
no Central Park, vestida numa camisa plo preta e seus brin-
cos de cristal Swarovski e jade. Um grupo de rapazes sem
camisa jogava frisbee ao fundo, com meninas de biquni es-
palhadas aos ps deles.
    "Mas para mim no  s sexo.  todo o meu futuro. Yale e
Nate: as duas coisas que eu sempre quis...", declarou Blair,
parecendo incomumente psictica. "E se eu no conseguir...
Algum vai pagar por essa porra. Esta , tipo assim, minha
nica chance de ser feliz, e acho que eu mereo, sabia?"
    Bom, oi, piranha doida.
    Vanessa estremeceu.  claro que era um bom filme, mas
considerando como as coisas tinham rolado com Nate, ia fe-
rir demais os sentimentos de Blair usar isso.
    Aaron saiu da cozinha para espiar a telinha da cmera
digital de Vanessa por sobre o ombro, um palito de cenou-
ra na boca.
    -- Quando aparece a minha parte?
    Vanessa avanou at chegar  entrevista de Aaron, feita
numa noite no quarto dela -- o que explicava por que ele s
vestia um lenol listrado lavanda e verde-aipo. A entrevista foi
feita antes que ele cortasse o cabelo, e pequenas trancinhas
castanhas apontavam em todas as direes.
    "Estou me sentindo muito bem mesmo comigo desde que
soube de Harvard", disse um Aaron praticamente pelado e de
trancinhas para a cmera. "Quer dizer, antes eu era um cara


110
magrelo com aparelho nos dentes e cabelo crespo, e agora sou,
tipo assim, o rei.  totalmente demais!"
    Que bom pra voc, cara. Que bom pra voc.
    Atrs deles, o timer do forno apitou.
    -- Eu pareo um babaca -- observou Aaron casualmente
enquanto voltava  cozinha. -- Mas pode usar. Eu no ligo.
    Vanessa voltou  parte de Blair, vendo repetidamente e
tentando editar de uma forma que Blair no parecesse total-
mente demonaca. Talvez Blair no tivesse mais Nate, mas no
final das contas entrara para Yale.  medida que Vanessa rola-
va sem parar essa parte do filme, ouvindo as declaraes hilrias
de to egocntricas e as tristes verdades de colegas de turma e
outros estudantes, ela foi se tornando cada vez mais reticente
sobre faltar  formatura. No que ela realmente fosse de abra-
os em grupo ou de vestidos brancos, mas parecia meio errado
faltar ao nico dia que ela esperara desde que tinha comeado
em Constance Billard na stima srie.
    Mas, ficar com dois caras no mesmo dia no era errado?




                                                             111
      Professor Pierre Papadametriou

      Departamento de Ingls, The Evergreen State College

      2700 Evergreen Parkway NW

      Olympia, WA 98505


      Daniel Humphrey

      815 West End Avenue, apt. 8D

      Nova York, NY 10024


      Caro Daniel Humphrey,

      Fiquei to animado em contratar voc como meu assistente de
      vero que me esqueci de lhe falar sobre o tema de meu livro:
      poemas sobre sexo. Quero dizer, poemas que so sobre o sexo
      ao longo dos tempos, o que para mim  interessante porque
      eu ensino poesia e biologia, e eu sou grego! O livro ainda no
      tem ttulo, mas talvez voc possa me ajudar a pensar em um
      dos bons! Tambm no expliquei que voc vai morar em mi-
      nha pequena casa com meus dois ces, Plato e Plato Jr., e
      meu filho, Mick, porque Evergreen no permite que os alunos
      se mudem antes da orientao no final de agosto. A rede no
      sto est consertada, ento, venha! Vamos nos divertir muito
      com o ouzo caseiro de Micky!


      Atenciosamente,
      Pierre




112
d prefere sexo de verdade a poemas
sobre sexo
Dan estava sentado no fundo da sala da aula de ingls avanado,
as mos tremendo ao reler a carta. O professor Papadametriou
parecia um homem legal e provavelmente seria um bom
orientador. Dan podia se imaginar curtindo umas taas de
vinho na casa do professor enquanto ele falava da queda de Tria
e o filho recheava folhas de uva ou coisa assim. O caso era que
Dan no queria mais ir para Evergreen.
    -- Dan, pode nos esclarecer quem  o narrador neste
poema? -- perguntou a Srta. Solomon. Ela usava um mini-
vestido de renda preta apertado e quase transparente, os bra-
os compridos e magros, e as pernas ossudas se projetando do
corpo, o que a deixava parecida com um desenho animado em
um especial de TV de Halloween. Ela enrolou uma mecha do
cabelo de rato no indicador, um gesto que ela devia julgar
irresistvel para Dan. A Srta. Solomon tinha uma queda sria
por ele e sempre que suspeitava que ele no estava prestando
ateno na aula, batia o p como uma criana petulante e lhe
fazia uma pergunta, exigindo sua ateno.


                                                            113
    Ele nem sabia de que poema estavam falando, embora
soubesse que era de Robert Frost, e ele tinha decorado quase
tudo de Frost.
    -- Ou  o cara ou cavalo -- respondeu Dan mecanica-
mente sem sequer olhar para ela.
    -- Obrigada, Stormfield -- disse a Srta. Solomon com
sarcasmo.
    -- At eu posso fazer melhor do que isso -- caoou Chuck
Bass da frente da sala, onde decidira se sentar todo dia at a
prova final, numa derradeira tentativa de conseguir mais do
que um D em ingls. Chuck estava de bermuda xadrez laran-
ja e branca, uma camisa plo branca, sapatos de couro bran-
cos e um cinto de couro branco combinando. Era o tipo de
roupa que uma mame da Park Avenue colocaria no filho de
13 anos para ir  igreja, s que Chuck tinha escolhido a roupa
ele mesmo. Sweetie estava sentado no colo de Chuck, com
uma tiara pequena de strass.
    Dan deu de ombros. Ele estava alm das tiradas de Chuck,
e estava alm da paixonite insolente da Srta. Solomon. Muito
alm. Na verdade, neste exato momento ele estava to con-
sumido de amor por Vanessa, que no tinha certeza do que
fazer consigo mesmo.
    Arr.
    No metr, ele comeou a escrever seu discurso de forma-
tura, baseando-o em todos os discursos de formatura idiotas
que ouviu nos filmes. Ns somos o futuro. O ingresso para uma
vida de sucesso  uma boa educao. O mundo espera por ns com tudo
o que tem para ensinar. Mas isso foi antes de ele e Vanessa
transarem no terrao. Agora ele tinha certeza absoluta de que


114
estava mudando o tema. Pois como no poderia ele escrever
sobre o amor?
    Duas vezes arr.
    Ele olhou para a carta novamente, pegou a caneta preta
Paper Mate mastigada e virou uma folha em branco no fich-
rio de folhas soltas.

        Prezado Professor Papadametriou,
        Obrigado por me oferecer a oportunidade de trabalhar com o
   senhor neste vero. Porm, aconteceu uma coisa e eu no poderei
   aceitar o cargo. Gostaria muito de um dia conhecer o senhor, seus
   ces e seu filho. At l, boa sorte, e boa sorte com seu livro.
        Com meus melhores votos,
        Daniel Humphrey

    P.S.: anexei um poema que o senhor pode querer incluir em
seu livro.
    Ele abriu outra folha em branco.

Vises do terrao

A vista  melhor daqui de cima.
Vejo suas fbricas, seus rios.
Se suas colinas no estiverem na frente
Eu posso ver as janelas do apartamento do outro lado da rua.
Vejo uma mulher servindo leite ao pr a mesa para o jantar.
Ah, ali. Ali est a mesa. Ali.
Posso ver tudo daqui.
Ali. Sim. Bem ali.


                                                                   115
    Dan no tinha certeza se realmente teria coragem de man-
dar um poema to sexualmente explcito como esse a um pro-
fessor que ele nunca viu na vida, mas seria legal se o professor
Papadametriou usasse o poema em seu livro.
    A Srta. Solomon se sentou a sua mesa e pousou o queixo
pontudo e desagradvel nas mos, parecendo totalmente der-
rotada porque tinha usado o vestido mais sensual para Dan e
ele mal tinha olhado para ela nos ltimos quarenta minutos.
    -- Gostaria que vocs abrissem seus cadernos e usassem
os ltimos dez minutos de aula para escrever o que tiverem
vontade -- instruiu ela com a generosidade de sempre. Nor-
malmente, ela tagarelava sobre Wordsworth ou outro poeta
morto at cinco minutos depois de a sineta tocar, enlouque-
cendo os meninos. Dan aproveitou a oportunidade para co-
mear um novo discurso de formatura.
    Senhoras e senhores, estamos aqui reunidos para comemorar o tr-
mino do primeiro captulo de nossa vida e o incio do segundo. J sa-
bemos o que vir a seguir. Quatro anos de universidade, e depois outra
formatura. Mas tr-l-l! Agora  na hora de se apaixonar...
    Tr-l-l? Trs super-hiper-arrs.




116
quem  esse cara?
O horrio de estudos das veteranas era no ltimo tempo de
tera-feira na sala do terceiro ano da Constance Billard, um
antigo depsito sem janelas no alto da biblioteca que foi cedido
para as veteranas como um lugar onde todas as alunas do
primeiro e segundo anos podiam relaxar. No havia professor
algum ali, o que significava que nenhuma das meninas prestava
ateno em Mimi Halperin, a esperta mas idiota presidente
de turma do terceiro ano, enquanto ela fazia anncios sobre
os privilgios das alunas durante a semana de provas.
    -- Nada de uniformes a semana toda, meninas. E s pre-
cisamos vir  escola para as provas. Incrvel, hein? -- Mimi
bateu palmas e colocou o cabelo grosso atrs das orelhas
estranhamente pequenas. As outras meninas bocejaram e olha-
ram o relgio, ansiosas para ir embora e continuar sua busca
pelo vestido de formatura perfeito ou trabalhar em seus bron-
zeados. Mimi era a palhaa da turma e amiga de todas durante
a primeira srie mas, agora que estavam crescidas, ningum a
achava engraada. Ainda assim, elas votaram para que ela ocu-
passe a presidncia no final do primeiro ano porque ela era a


                                                            117
nica que parecia querer isso. Como entrava no currculo
que era enviado para a universidade, a presidncia da turma
era uma posio desejada, at o terceiro ano. A presidente
tinha de comparecer a reunies semanais do conselho de
alunas s sete e meia da manh e ajudar em todas as funes
da escola, como a feira de livros e o fundo para as bolsas de
estudo. Era muito trabalho e, agora que chegara o final do
terceiro ano e todas j haviam entrado para a universidade,
ningum ligava mais.
    -- Continuando,  um prazer para mim anunciar... rufar
de tambores, por favor... que nossa oradora da formatura ...
Blair Waldorf! A, Blair! -- Mimi pulou em suas pernas gor-
duchas e bateu palmas no alto da cabea como se esta fosse a
melhor coisa que lhe acontecera na vida.
    Engole essa, sua piranha!, regozijou-se Blair em silncio para
a nuca loura clara de Serena.  isso que voc consegue por me sabotar.
    A sala zumbia de fofocas enquanto todas discutiam os re-
sultados. Ningum realmente queria que Blair fosse oradora,
porque seu discurso ia ser todo sobre si mesma, mas elas ques-
tionavam a capacidade de Serena de escrever um discurso
coerente.
    -- Ela  to burra de todas as drogas que tomou no inter-
nato que provavelmente ia ter que subornar a Blair para es-
crever um discurso para ela -- cochichou Laura Salmon a Rain
Hoffstetter.
    -- Ouvi dizer que a Serena vai faltar -- cochichou Rain.
-- O Nate passou uma DST braba pra ela e ela vai perder a
formatura porque tem que ir a uma clnica na Blgica para
tentar se curar.


118
    --  verdade? -- perguntou-se Blair em voz alta. No
sobre a parte da DST, mas sobre a parte de desistir-do-discur-
so-de-formatura. Ela estava relutante em prolongar o horrio
das alunas, porque s restavam cinco minutos para ela se tro-
car, passar p, brilho labial e perfume antes do encontro mar-
cado com o lorde ingls que prometera passar a tarde fazendo
compras com ela. Na noite anterior, bebendo martnis Ketel
One, Lorde Marcus confessou que seu jogo de squash foi um
desastre total porque ele ficou pensando nela o tempo todo. E
Blair confessou que procurou pelo nome dele no Google no
minuto em que abriu o laptop. A famlia dele, os Beaton-
Rhodes, era dona da maior fbrica de txteis da Inglaterra e
morava em uma manso enorme e histrica nos arredores de
Londres. Eles tambm eram proprietrios de uma villa perto
de Milo e uma casa de praia em Barbados. Os pais de Marcus
eram amigos especiais da famlia real e o prprio Marcus fora
aos funerais da princesa Diana. Ele foi citado pela revista Hello!
como um dos solteiros mais cobiados da Inglaterra, e Blair
estava decidida a conquistar seu corao antes que qualquer
uma daquelas piranhas inglesas gananciosas o pegassem. Mas
primeiro precisava saber se tinha derrotado Serena na eleio
para oradora da formatura ou se s vencera porque era a nica
menina que restava na disputa. Ela olhou para Serena e repe-
tiu: --  verdade?
    Serena se remexeu na cadeira, puxando o uniforme por
sobre os joelhos nus e as meias amarelas nos tornozelos para
que parecessem ridculos e de nerd. Ela queria que seu mart-
rio passasse despercebido do resto da turma. Agora todo mun-
do sabia dele.


                                                              119
    -- Tem algum problema? -- respondeu ela, parecendo
muito mais cretina do que pretendia.
    -- Mas Blair, voc no queria ser a oradora? -- perguntou
Vanessa Abrahms de seu lugar ao lado de Blair. Vanessa usava
um top preto sem suti e devia ter sido mandada para casa por
vestir roupas inadequadas em vez do uniforme. Normalmente,
esse tipo de conversa vamos-l-turma lhe deixava maluca, mas
ela estava se sentindo to nostlgica com a formatura ultima-
mente que, na verdade, queria estar ali.
    --  -- admitiu Blair. -- Eu queria.
    Vanessa revirou os olhos e fez um afago delicado no brao
da amiga.
    -- Ento, que importncia tem para voc?
    Blair deu de ombros.
    -- Podemos ir agora? -- perguntou ela a Mimi, ansiosa
para tirar o uniforme e vestir a cala branca e apertada Juicy
Culture e o top verde Marni que tinha trazido para fazer com-
pras com Lorde Marcus.
    Serena olhou com gratido para Vanessa. Ela realmente no
queria criar confuso. E talvez, quando pensasse nisso mais
tarde -- anos depois, quando as duas tivessem cabelo azul de
velha e tivessem se retirado para Mustique ou outro lugar
ensolarado e quente --, Blair podia odi-a um pouco menos.
    Depois do horrio das alunas, as veteranas se reuniram do
lado de fora das grandes portas azuis da Constance Billard,
ainda zumbindo sobre a questo do discurso de formatura. Elas
no conseguiram deixar de perceber o lindo cara alto de cabe-
los dourados que estava na calada s a alguns metros dali, com
jeans perfeitamente passados e a mais linda camisa xadrez sal-


120
mo e branco Thomas Pink. Blair disparou por elas usando
uma roupa totalmente diferente da que vestiu na escola na-
quele dia, desceu correndo a escada e, para completa surpresa
de todas, deu um beijo no rosto do rapaz sem sequer parar
para tomar flego.
    --  bom te ver tambm -- disse Lorde Marcus rindo,
segurando os braos dela e olhando-a de cima abaixo com
prazer.
    Blair ficou cor-de-rosa ao olhar a sandlia Kate Spade ver-
de-jade. Meu Deus, ele era um sonho -- ainda melhor do que
o homem que ela sonhou que estrelaria com ela no filme de
sua mente, porque ele era real, e da realeza, e mais perfeito do
que Nate jamais conseguiria ser.
    Na noite anterior, no bar do Yale Club, quando ela come-
ou a embaralhar as palavras de tanto Ketel One, ele a levou
pela mo at os quartos, dando-lhe um beijo delicado antes
de dizer boa-noite. Blair estava to tonta que quase vomitou.
Como algum podia ser to insanamente sexy sem fazer es-
foro algum? Isso foi tudo o que ela pde fazer para no de-
molir a parede entre eles com o secador de cabelo profissional
do salo Vidal Sassoon e pular sobre aquele corpo maravilhoso.
    O grupo de veteranas se comprimiu na frente da escola com
seus uniformes azuis iguais, parecendo um pouco os pombos
que ficam empoleirados na beira do telhado da escola ao olhar
com incredulidade para Blair e seu lorde gato e britnico.
    -- O que foi que ela fez, criou o cara em laboratrio ou o
qu? -- perguntou Laura Salmon com um misto de inveja e
espanto. E puxou a blusa branca apertada no peito numa ten-
tativa ridcula de exibir o novo suti vermelho DKNY.


                                                            121
    -- Ele  totalmente perfeito -- sussurrou Isabel Coates,
arrancando parte das fivelas que prendiam seu cabelo casta-
nho comprido demais. -- Mas aposto que ele lava pratos no
Yale Club ou coisa parecida.
    -- Na verdade, acho que ele  primo dela... Sabe aquela
tia que ela tem na Esccia? -- improvisou Rain. -- Ela s
est fingindo que  o namorado gostoso dela para fazer ci-
me no Nate.
    -- Mas o Nate nem est aqui -- assinalou Kati Farkas, o
lbio inferior rosa num beicinho que a fazia parecer ainda mais
burra do que j era.
    -- No, mas a Serena est -- assinalou Isabel apropria-
damente.
    As meninas se viraram para olhar Serena, que acabara de
sair pelas portas. Ela ajeitou os fones de ouvido do mni iPod
rosa e piscou os olhos azuis gigantescos, o cabelo louro cla-
ro e comprido brilhando no sol quente. Ela acenou para as
outras meninas e depois comeou a descer a escada alegre-
mente at ver Blair, segurando as lapelas de seu gato da rea-
leza britnica.
    Lorde Marcus estava prestes a acenar para parar um txi
para a loja de Oscar de la Renta na Madison com a 66, onde
prometeu ajudar Blair a escolher o vestido de formatura, quan-
do Blair de repente agarrou sua camisa xadrez rosa e branca,
quase arrancando-a do corpo dele.
    -- Me beija agora -- disse ela com urgncia.  claro que
era meio inesperado, eles s se conheceram no dia anterior,
mas isso no tornava tudo mais romntico?
    Ou mais bizarro.


122
    -- Porque algum est olhando ou porque voc quer isso?
-- respondeu Lorde Marcus com um sorriso sacana e ir-
resistvel que deixava muito claro que ele no dava a mnima
para o motivo.
    -- As duas coisas. -- Blair fechou os olhos com a expec-
tativa do beijo.  claro que ela no estava apaixonada, ainda.
Era a idia de Lorde Marcus que ela amava. Mas o primeiro
beijo dos dois durou mais tempo do que um beijo na tela, foi
mais gostoso do que um bife e melhor do que um devaneio,
muito melhor. Certamente ela no ia precisar de muito tempo
para se sentir genuinamente apaixonada. E definitivamente
estava quase l.
    Um txi encostou ao lado deles e, com os lbios dele ain-
da nos de Blair, Lorde Marcus ergueu a mo para fazer sinal.
Mas o txi j estava ocupado por um muito tenso Nate Archi-
bald. Nate abriu a porta do txi e Lorde Marcus e Blair deram
um passo para o lado para permitir que Serena passasse voan-
do por eles e entrasse no banco traseiro. Ela fechou a porta,
olhando para Blair e Lorde Marcus pela janela com seus enor-
mes olhos azuis. Blair a encarou tambm, o corpo apertado
no de Lorde Marcus. Serena ergueu a mo para acenar para
eles, os lbios perfeitos separados em um sorriso enquanto o
txi arrancava para a Quinta Avenida.
    E embora Serena j tivesse ido, Blair sorriu tambm. Por-
que pela primeira vez em sua vida, ela sinceramente no dava
a mnima para onde eles estavam indo.




                                                          123
adivinha quem est transando na bergdorf?
Localizada na Quinta Avenida com a 58, a Bergdorf Goodman
era uma das mais antigas e mais luxuosas lojas de departamentos
de Manhattan. Foi a primeira loja em que a me de Serena a
levou para fazer compras e, embora estivesse mais cheia e fosse
mais antiquada do que a Barneys ou a Bendel's, parecia o lugar
adequado para comprar seu vestido de formatura. Ela pediu a
Nate para acompanh-la s porque precisava de uma segunda
opinio, embora, com seu uniforme padro de camisa plo
surrada ou camisa branca e cala cqui, Nate no fosse exatamente
um especialista em moda.
    -- Fico me perguntando onde Blair o conheceu -- disse
Serena em voz alta enquanto o lustroso elevador cor de mar-
fim da Bergdorf os levava para o terceiro andar.
    Nate no respondeu. Estava olhando os peitos de Serena.
Pareciam duros, como as pequenas mas que cresciam na
propriedade de veraneio da famlia em Mt. Desert Island, no
Maine. Ele tinha tomado alguns Viagras do treinador Michael
antes de encontrar Serena e tinha certeza absoluta de que es-
tava comeando a sentir o efeito. Havia muita presso ali, como


                                                             125
uma masturbao sem mos, e se ele no fizesse alguma coisa
a respeito logo, as coisas iam ficar meio atrapalhadas.
    Mas logo quando?
    As portas do elevador se abriram e Serena imediatamente
foi para uma arara de terninhos Oscar de la Renta brancos
extraordinariamente produzidos -- saias pregueadas na altu-
ra dos joelhos e casacos ajustados com cintos de couro branco
decorados com uma adorvel fivela de couro branco.
    -- No sei por que eu ligo -- continuou ela enquanto
passava os dedos nos terninhos sem sequer perceber que Nate
estava olhando para ela como se ela fosse uma fatia de pizza
com queijo extra que acabara de sair do forno da Original Pizza
do Ray. -- A Blair provavelmente nunca vai falar comigo de
novo.
    -- Posso ajud-la? -- ofereceu-se uma volumosa ven-
dedora de meia-idade com um crach dourado da Bergdorf
que dizia JOAN. Joan vestia um conjuntinho Chanel roxo que
no ajudava em nada com seus quadris encrespados e as per-
nas de piano.
    -- Preciso experimentar esses aqui em tamanho P. --
Serena apontou para trs dos terninhos Oscar de la Renta. At
agora ela no pensara em vestir um terninho para a formatura
em vez de um vestido, mas parecia fazer perfeito sentido. Ela
nunca foi do tipo de vestido-branco-de-franja mesmo, e ha-
via alguma coisa to cintilante e definitiva nos terninhos que
os tornavam totalmente perfeitos para a formatura.
    Nate estava praticamente explodindo ao seguir Serena e
Joan at a sala de provas das mulheres. Ele ficou parado do
lado de fora enquanto Joan passava os terninhos, fechava as


126
pesadas cortinas de veludo cinza e depois corria para encon-
trar mais alguma coisa que achava que Serena podia gostar.
Agora era a chance dele.
    Ele escancarou as cortinas. Serena tinha desabotoado seu
uniforme, sua blusa branca estava ao redor de seu pescoo e
ela estava usando apenas uma camiseta, em vez de um suti.
    -- Ei -- ela sorriu para ele timidamente. -- Tudo bem,
se voc quiser entrar.
    Nate fechou as cortinas com uma das mos enquanto de-
sabotoava o cinto com a outra. Vai, vai, vai!
    Serena comeou a tirar um dos terninhos do cabide. Depois
percebeu Nate olhando para ela com as calas pelos tornozelos.
    Como  que ?
    -- Nate, o que est fazendo? -- Os olhos verdes e bri-
lhantes dele reluziam e os lbios finos se separaram famintos,
como se ele no tivesse almoado ou coisa assim. Ela riu e
cruzou os braos. -- Eles no tm cmera nessas coisas, tm?
    At parece que um deles se importava!
    Ele pegou a camiseta dela e a arrancou do corpo, rasgan-
do-a inteiramente ao meio. Serena largou o terninho no cho
da sala de provas e agarrou Nate. Pela primeira vez, Nate no
estava chorando em um punhado de lenos amarrotados. E
ela no ia desperdiar essa oportunidade.
    Nate ficou eternamente grato que Serena fosse Serena e
no Blair. Blair ia querer dissecar o comportamento dele, en-
quanto Serena s arrancou o que restava de sua roupa e o aju-
dou a tirar a camisa.
    -- Voc no me disse que estava to excitado e com todo
esse tdio.


                                                          127
    Mais ou menos.
    Nate pegou os outros terninhos de cetim branco Oscar dos
cabides e os espalhou aos ps deles.
    -- Lembra quando estvamos na banheira na minha casa
no vero, antes da oitava srie? -- disse ele com urgncia,
apertando os lbios no pescoo dela.
    Serena corou novamente. Como poderia se esquecer?
Tinha sido a terceira vez. Quando os dois ainda faziam as
contas.
    -- Vamos fazer a mesma coisa novamente -- Nate prati-
camente gritou. -- Finja que todos esses vestidos brancos so
bolhas!
    Caramba. Quem disse que os homens no tm imaginao?
    -- !
    -- Ah, isso!
    -- Gostou de alguma coisa, querida? -- Joan, sempre a mais
prestativa das vendedoras matronas da Bergdorf, enfiou a cabe-
a grisalha pela abertura da cortina grossa de veludo. Ela viu uma
confuso de pernas bronzeadas e retorcidas e cetim branco no
cho da sala de provas e se retirou rapidamente, tomando al-
guns comprimidos para a presso antes de receber uma nova
remessa de suteres Missoni. Esse tipo de comportamento vul-
gar era totalmente inadequado a uma dama e portanto no era
nada Bergdorf, mas no havia muito que ela pudesse fazer. Se-
rena van der Woodsen abrira uma conta na Bergdorf quando
tinha sete anos e era uma cliente leal desde ento. E  claro que
era bom ver que ela se sentia to  vontade na loja.
    Nate comeou a chorar assim que acabou. O efeito do
Viagra passara bem a tempo.


128
    -- Eu nem acredito que voc vai usar um desses -- mur-
murou ele, tirando a saia de um dos terninhos de baixo de sua
bunda nua.
    -- Bom, eu ainda nem experimentei. -- Serena deixou a
cabea tombar para trs, fechando os enormes olhos azuis es-
curos enquanto Nate apertava o rosto encharcado no cabelo
dela. Era doce e meio feminino da parte dele chorar depois de
ter transado, e Serena de repente percebeu que ela era o lado
mais forte e mais "masculino" da relao. Pelo menos eles fi-
nalmente conseguiram. Agora eram autenticamente um casal.
    Mais ou menos um casal.
    -- Eu j tenho um vestido Tocca amarelo que gosto de
verdade, talvez eu possa descolorir ou coisa assim -- conti-
nuou ela distrada.
    E ento a mente de Nate tambm comeou a vagar, para o
trabalho final de histria.
    E vem me falar de multitarefa!
    Ele estava escrevendo sobre as origens do lacrosse, mas ser
que o professor de histria, o Sr. Knoeder, vulgo Sr. Sem Pau,
acha que  politicamente incorreto ou sei l o que escrever
sobre um esporte dos antigos ndios americanos sem lidar com
a poltica de como os ndios foram tratados no tempo da co-
lnia e essas coisas? Afinal, Nate ia para Yale no ano seguinte
para jogar lacrosse, e no para se tornar uma espcie de historiador
do lacrosse.
     bvio.
    Ele se apoiou no cotovelo e puxou um leno de sua bolsa
de lona azul-marinho Jack Spade. J estava acostumado a car-
regar lenos.


                                                                129
   -- Talvez a gente devesse ter ido  Bendel's para procurar
por um vestido l -- disse Serena, passando os dedos nos
botes de um dos terninhos.
   No... as cabines de provas de l no eram assim to
grandes.




130
olha b morrendo e indo para o cu
Por que nunca na vida Blair havia entrado na loja de Oscar
de la Renta na Madison Avenue, estava alm da compreenso
dela. A loja era baseada na casa do Sr. de la Renta na Repblica
Dominicana, com paredes de pedra coral dominicanas,
palmeiras de estuque e uma vitrine de sapatos montada como
uma passarela. Os trajes de noite estavam pendurados em
uma enorme sala mobiliada com sofs de dois lugares da
coleo de mveis de Oscar de la Renta. Que pssimo para
Blair que ela no estivesse procurando por um vestido de baile
de tule preta, ou ela teria agarrado Marcus e o puxado para
um dos sofs de toile s para agradecer por t-la levado ali.
    -- Ol, Marthe -- Marcus cumprimentou a vendedora
latina incrivelmente bonita que parecia uma amazona. Ela ves-
tia uma saia bufante dourada e um suter rosa-choque aper-
tado de manga curta que era ao mesmo tempo retr anos 1950
e ultramoderno.
    No comeo, os plos de Blair se eriaram e ela comeou a
mostrar os caninos, mas depois ela percebeu rapidamente que
ter cime de qualquer uma que fosse impossivelmente alta,
curvilnea e linda seria uma total perda de tempo.


                                                            131
    -- A Srta. Waldorf est procurando por um vestido bran-
co -- explicou Marcus, colocando o brao em torno de Blair
e apagando totalmente qualquer cime ou idia irracional que
ela tivesse, ou que viesse a ter.
    Caraca, ele  bom mesmo.
    Marthe assentiu com seriedade e os levou a uma arara de
vestidos brancos maravilhosos que ficariam estonteantes em
Martha, mas que Blair j sabia que a deixariam parecida com
uma gorda nanica sem curva nenhuma. Ela estava prestes a
protestar, mas Marcus -- Deus o abenoe -- j entendera
tudo.
    -- Que tal um daqueles terninhos? -- perguntou ele,
andando para passar o dedo em uma primorosa saia preguea-
da de cetim branco. A saia fazia conjunto com um casaco de
cetim branco ajustado que exibia o mais perfeito cinto de couro
na cintura, adornado com uma elegante fivela de couro branco.
    -- Voc tem o corpo perfeito para estes conjuntos -- de-
clarou Martha num maravilhoso sotaque. Ela andou at a ara-
ra e escolheu trs dos terninhos para Blair experimentar. -- E
voc  tamanho M, eu tenho certeza.
    -- Talvez ela seja at P -- replicou uma voz masculina
sonora de trs deles.
    Blair girou, o corao j alvoroado por ser confundida com
           ,
tamanho P e quase sufocou na prpria saliva quando viu quem
era. Parado a alguns metros dela estava o prprio Oscar de la
Renta, vestido num terno perfeitamente cortado, uma camisa
branca engomada e uma gravata rosa, a linda cabea careca
parecendo ter sido lubrificada com azeite, as sobrancelhas gri-
salhas ardentes. Blair o vira centenas de vezes nas pginas das


132
revistas de moda e nas colunas sociais, mas nunca pessoalmen-
te. E, para um velho, ele era suntuosamente sexy.
    -- Ah, Sr. de la Renta -- Marthe cumprimentou o chefe
com um sorriso caloroso. -- A Srta. Waldorf vai vestir bem
um de seus terninhos, no ?
    O Sr. de la Renta olhou Blair de cima a baixo e depois abriu
um sorriso de apreciao.
    -- Muito bom -- concordou ele. Ele se virou para Mar-
cus. -- Senti falta de sua me em Milo.
    -- Oi, tio Oscar. -- Marcus deu um sorriso largo, avan-
ou um passo e abraou o estilista, envolvendo-o num abrao
afetuoso. Blair quase vomitou no lindo cho.
    Tio Oscar?
    Marcus sorriu e depois tocou o brao dela.
    -- Ele no  meu tio de verdade, mas bem que poderia
ser. Minha me s usa as roupas que o tio Oscar faz para ela.
    Quem poderia culp-la?
    Pela primeira vez, Blair ficou sem fala. Ela se sentia exata-
mente como a Dorothy de O mgico de Oz quando acorda
depois do ciclone no Kansas e descobre que est em Munch-
kinland, diante de Glinda, a bruxa linda e boa. S que Blair
no era nem de longe to gorda quanto Judy Garland. Ela era
tamanho P!
    -- Por aqui, Srta. Waldorf -- instruiu Marthe, levando-a
para uma grande sala de provas com cortina verde-jade. Ela
pendurou quatro terninhos nos cabides dentro da sala -- dois
em tamanho M e dois P.
    -- No se preocupe, eu ajusto -- disse o Sr. de la Renta
atrs delas. -- S preciso encontrar minha fita mtrica.


                                                             133
    Blair estava convencida de que estava sonhando, ento o
que quer que o Sr. de la Renta dissesse estava timo para ela.
Marthe a ajudou a vestir a saia P, que se ajustou nela como um
sonho, mas assim que ela passou os braos nas mangas do ca-
       ,
saco P ficou claro que os ombros iam ficar apertados demais.
Marthe trocou para o M, afivelou o cinto de couro fino e de-
pois abriu a cortina.
    Tan-tan!
    Blair ps as mos nos quadris e saiu da sala de provas como
uma modelo na passarela, sibilando a saia pregueada de um
lado a outro, um enorme sorriso colado na cara. Por que ela
no pensou em usar um terninho desses antes? No que hou-
vesse muitos terninhos assim. Era ao mesmo tempo elegante e
vulgar -- totalmente chique mas, sobretudo, exclusivo.
    -- Diabos -- disse Marcus  meia-voz. -- Voc est sen-
sacional.
    E voc tambm!, Blair quase berrou. No s Lorde Marcus
era lindo e um aristocrata de tirar o flego como era amigo do
estilista de moda mais maravilhoso do universo.
    O Sr. de la Renta franziu o cenho e sacudiu a fita mtrica.
    -- A cintura est toda errada -- disse irritado, puxando o
casaco de Blair. -- E o corpete est apertado demais. -- Ele
desfez o cinto e abriu os botes do casaco, arrancando-o dos
braos de Blair. -- Pode ficar com a saia, querida. Mas por
favor, eu poderia fazer um casaco que caia bem?
    Se ele poderia?
    Blair queria que Serena ou suas outras colegas de turma
entrassem ali e a vissem parada no meio da loja de Oscar de la
Renta usando somente o suti La Perla rosa e uma das lindas


134
saias pregueadas do "tio Oscar", sendo medida para a roupa
de formatura pelo prprio Oscar de la Renta. Ela olhou para
Marcus, que sorriu para ela e depois colocou a mo direita
silenciosamente no corao, os olhos verde esmeralda brilhan-
do de adorao.
    Caramba.
    Blair precisou se esforar para no fazer xixi nas calas.
Estava to feliz, que nem tinha certeza se podia ficar de p.
    -- Fique parada -- instruiu o Sr. de la Renta ao levantar
os braos de Blair e passar a fita mtrica por seus peitos 36.
Talvez fosse o fato de que estava cercada de homens lindos e
roupas lindas, mas Blair teve o impulso ridculo de lamber a
cabea careca e sexy dele. Ela riu, cambaleando um pouco nos
ps descalos enquanto ele passava a fita mtrica para medir
seus quadris. -- Fique parada!
    Ela fechou os olhos com fora e fez o mximo que pde para
no se mexer, acreditando verdadeiramente que, quando abrisse
os olhos novamente, ia descobrir que morreu e foi para o cu.




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 temas      anterior    prxima      faa uma pergunta        respostas

Advertncia: Todos os nomes verdadeiros de lugares, pessoas e eventos foram
alterados ou abreviados para proteger os inocentes. Quer dizer, eu.




                            oi, gente!
   Open call

    Caso voc no saiba, aquele diretor de cinema indie esquisito,
    Ken Mogul, percebeu que ningum sequer ia prestar ateno
    nele at que ele fizesse um filme que fosse um grande suces-
    so, e ento ele est fazendo um. Ele tambm est na misso
    de descobrir a prxima estrela jovem do cinema, ento est
    dando uma open call para o novo filme, Breakfast at Fred's,
    no restaurante de mesmo nome na Barneys neste sbado. O
    filme  um remake de Breakfast at Tiffany's, Bonequinha de
    luxo, com um elenco inteiramente de adolescentes. E adivi-
    nha quem vai ser a primeira da fila no teste? E adivinha quem
    no sabe atuar de jeito nenhum?

    Mas adivinha s quem sabe??!

    Hummm... Eles vo escolher a garota que definitivamente
    sabe como encarnar o papel mas no tem talento, ou a ga-
    rota com talento que no  nada parecida com Audrey Hep-
    burn? Parece um daqueles bordes vazios de America's Next



                                                                      137
      Top Model, meu programa de amor-e-dio preferido de todos
      os tempos.


  Internato de prestgio amplia o currculo de artes

      Eu no ando com um monte de novidades? Ento, para o ca-
      so de algum estar interessado, a Waverly Prep, um colgio
      interno de prestgio no Upper Hudson Valley, est procuran-
      do por jovens e florescentes Picassos e Monets. Eles esperam
      um jorro de novos candidatos com talento artstico neste ou-
      tono, mas ns sabemos de uma em-breve-segundanista
      sem-escola que simplesmente no consegue esperar por mais
      tempo. (Voc no quer realmente ir para uma escola pblica,
      quer, J?)


  Dubls de celebridade

      Britney tem um. Leonardo tem um. E at alguns dos freqen-
      tadores do circuito da sociedade de Nova York tm um. Ao
      que parece, o estilista de moda Oscar de la Renta est em tal
      demanda nas festas em todo o mundo que manda seus clo-
      nes s festas que ele mesmo no se importa de faltar, e  loja
      na Madison Avenue para manter a equipe atenta. Seus du-
      bls so todos parentes dele, da Repblica Dominicana, e
      alguns at tm o mesmo nome, ento na verdade eles no
      precisam de muito esforo para fingir que so o primo famoso.
      Agora, se eu pudesse ter um dubl para ir a minhas provas
      finais, eu poderia me concentrar em descansar para as festas
      depois da formatura!




138
Tcnico de lacrosse do St. Jude investiga roubo de
Viagra

Este alerta veio na forma de um e-mail e me pegou de guar-
da baixa:

Cara Gossip Girl,

Por favor, informe a seus leitores que roubar  um problema
grave. Quem quer que tenha pego meu vidro de Viagra -- e
eu tenho certeza de que foi um veterano de meu time de la-
crosse -- no vai se formar! Obrigado por sua ajuda.

Michaels

Alguma sugesto de como devo responder?


Flagras

S e B, as duas com sacolas enormes de compras, saindo da
Bergdorf Goodman e da Oscar de la Renta, respectivamen-
te. Imagino que elas tiveram sorte e acharam os vestidos de
formatura de seus sonhos! Um D sem a cabea raspada e
mais-neurtico-do-que-o-de-costume comprando uma cole-
tnea de poemas de amor de Pablo Neruda na B&N. Ser
que ele est no fio da navalha desta vez? Pera, do que eu
estou falando? Ele est sempre no fio da navalha. V no CVS no
centro de Williamsburgh, comprando sabonete lquido bac-
tericida Jergens. Todos esses banhos pr-transa e ps-transa --
 preciso estar preparada. J, com o irmo, na livraria, lendo The
Best Public Schools in NYC. Ser que ela j desistiu do interna-
to? Olha, J -- leia a nota anterior. Voc ia ficar surpresa com



                                                                139
      o que pode acontecer nas ltimas semanas de aula. Gente pi-
      rando, sendo jogada de um lado para outro. Voc precisa ter
      f.  como aquela msica do West Side Story: "Existe um lu-
      gar para ns!..."

      Vou parar agora e fingir que estou estudando para as provas
      finais.

      Vejo vocs na open call na Barneys no sbado de manh --
      quem no vai estar l?

                      Pra voc que me ama,

                      gossip girl




140
objetos refletidos no espelho esto mais
prximos do que parecem
-- Isso tambm  marrom? -- perguntou Jenny Humphrey
a sua s vezes melhor amiga, Elise Wells. Ela sacudiu uma
escovinha de maquiagem Sephora na ponte de seu adorvel
nariz de boto algumas vezes. -- Estou tentando reduzir o
tamanho do meu nariz.
    Como se no houvesse outra parte do corpo que realmente
precisasse ser reduzida.
    -- Que nariz? -- perguntou Elise. -- Voc quase no tem
nariz. -- Elise tambm tinha nariz pequeno, mas era arrebi-
tado, o que era quase pior do que ter um narigo, porque ela
era alta e estava sempre preocupada que as pessoas olhassem
os plos e a meleca de seu nariz.
    Plos e meleca do nariz, ai meu Deus!
    Era o horrio de estudos do ltimo tempo e Jenny tinha
ido ao banheiro do jardim de infncia, que estava sempre va-
zio  tarde porque as alunas do jardim de infncia iam para
casa s duas horas. Os reservados eram mais estreitos do que
nos outros banheiros da escola e as privadas s tinham 45 cen-


                                                          141
tmetros de altura, com assentos rosa-choque Hello Kitty. At
as pias eram mais baixas, com degraus de plstico rosa Hello
Kitty diante delas e saboneteiras rosa-claro Hello Kitty. Toda
a parafernlia Hello Kitty fora doada por um pai de Tquio
que por acaso era dono da Hello Kitty.
     -- J ouviu falar de uma escola chamada Waverly Prep?
-- perguntou Jenny, passando blush vinho nos lbios e de-
pois borrando com Vaselina, outra dica que aprendeu na TV
com uma modelo/atriz de nome Lauren Hutton que era da
mesma idade dela mas ainda assim linda o bastante para ser
modelo da J. Crew.
     Elise sacudiu a cabea.
     --  outro internato? -- Elise no diria isso em voz alta,
mas ela odiava a idia de Jenny ir para um colgio interno e
deixar a amiga sozinha no segundo ano da Constance Billard.
Quem mais ia pedir rolinhos primavera com ela e receber o
pedido bem nas portas azuis? Quem mais ia dizer a ela, deli-
cadamente, que sua saia ficaria melhor sem pregas?
     -- Bom, acabo de saber que eles tm um novo programa
de artes que  timo. Tipo assim, eles tm uma galeria de ver-
dade que abrem ao pblico e os alunos organizam as exposi-
es e tudo. Parece bem legal.  claro que a solicitao de
matrcula devia ter sido feita, tipo assim, em dezembro, mas
eu estava pensando que talvez eu pudesse mandar uma obra
minha... -- Jenny puxou o fecho de sua bolsa de maquiagem
listrada de amarelo e rosa LeSportsac, vendo-se em um dos
espelhos minsculos e quadrados em cima da pia enquanto
falava. Lauren Hutton estava certa. Seu nariz parecia menor.
Se ao menos o cabelo escuro no fosse to crespo e rebelde.


142
--  minha ltima chance. Se eu no conseguir entrar para l,
vou ter que ir para uma escola pblica.
    Deus me perdoe!
    -- Eu s queria no ter queimado todas aquelas telas... --
acrescentou ela pensativa e roou os lbios um no outro pela
ltima vez.
    Quando estava apaixonada por Nate, Jenny tinha pintado
o retrato dele no estilo de cada um de seus pintores preferi-
dos: Matisse, Picasso, Chagall, Monet, Warhol, Pollock. Os
quadros eram vvidos e cheios de emoo, como se ela esti-
vesse tentando invocar o amor que sentia nas telas. Mas quando
Nate terminou com ela, Jenny ateou fogo nas telas numa li-
xeira de metal na calada de seu prdio, queimando rigorosa-
mente todas.
    Elise arreganhou os dentes para o espelho, tentando tirar
os restos da laranja que ela comeu no almoo com a unha do
dedo mindinho que ela no pintava.
    -- , mas voc ia querer mesmo mandar para um inter-
nato todo um monte de pinturas de um cara que nem fala mais
com voc? -- perguntou ela sensatamente.
    Bom, pelo menos eles iam saber que eu consegui ter um namora-
do, retorquiu Jenny em silncio, de repente preocupada com
a blusa rosa Peter Pan de Elise e o modo como seu hlito sem-
pre cheirava aos rolinhos primaveras da vspera.
    Alm disso, a Waverly parecia o tipo de escola que estava
sempre evoluindo; no uma escola zoneada per se, mas uma
escola que no tinha medo de experimentar uma novidade ou
assumir o risco de aceitar algum.
    Tipo ela, por exemplo?


                                                             143
     Elise parou de futucar os dentes e pegou a bolsa de ma-
quiagem de Jenny, abrindo-a sem pedir permisso e destam-
pando um tubo de brilho labial Stila lils. Ela abriu bem a boca
e comeou a passar o gloss generosamente.
     Quando realmente pensava no assunto, Jenny entendia que
corria um risco com Elise. Primeiro ela no tinha amiga ne-
nhuma, e agora tinha uma amiga, quer gostasse disso ou no.
     -- Voc tem razo -- refletiu ela, pegando de volta a bol-
sa de maquiagem e despejando o contedo em uma das pias
baixas e pequenas. -- Eu devia mandar alguma coisa nova 
Waverly. Algo que eu no tentei antes. -- Ela vasculhou o sor-
timento de delineadores, sombras e batons, procurando pela
paleta favorita de sombra para os olhos Clinique de quatro tons
de cinza em sua caixa de plstico verde. -- Se importaria se
eu pintasse seu retrato com isso? -- perguntou ela  amiga,
erguendo a paleta e sentindo-se repentinamente inspirada. Ela
ia fazer Elise com sombra para os olhos, o pai com vinho tin-
to e Dan com... caf instantneo. Era inovador e significativo,
e era melhor do que mandar  Waverly uma folha solta de sua
estria como modelo de suti ou seu primeiro aparecimento
na Page Six.
     No que Jenny ainda no fosse a baladeira que procurava
por uma escola que fosse uma zona, mas Serena van der
Woodsen lhe ensinara uma lio muito importante: as bala-
deiras so mais inteligentes e tm mais profundidade do que
parecem.




144
sossegue seu corao traidor
Vanessa estava sentada no cho da sala vestida somente com a
camiseta preta SUGARDADDY NA HUNGRIA que a irm,
Ruby, tinha mandado de Budapeste, uma parada recente na turn
da banda, e uma cueca samba-cano listrada de cinza e branco
de algum -- estava ficando difcil concatenar os dois. Ela tentava
editar suavemente a entrevista pavorosa e engraada de Chuck
Bass, completa, com macaco, e com Kati e Isabel falando de como
decidiram ir juntas para o Rollins College na Flrida, embora
Isabel tivesse entrado para Princeton. Chuck vestia uma camiseta
branca sem manga e apertada e estava passando bronzeador Bain
de Soleil nos braos musculosos e artificialmente bronzeados
enquanto explicava como ficava dourado o ano todo. Seu macaco
continuava enroscado no colo, piscando estupidamente para a
cmera com os olhos azuis apavorantes.
    "Normalmente eu uso as camas de luz uma ou duas vezes
por semana, ou uso este bronzeador maravilhoso Este Lauder
para manter a cor legal o ano todo. Mas eu me pergunto... Por
acaso voc sabe se existe um bom salo de bronzeamento perto
do Forte Lee?"


                                                               145
    Isabel e Kati estavam deitadas de costas com as cabeas
juntas -- a cabea brilhante e escura de Isabel e o louro cres-
po e arruivado de Kati -- sorrindo para a cmera como irms
que no eram nada parecidas.
    " tipo assim, como  que vou me concentrar em, tipo
assim, Introduo ao Direto em Princeton, se minha melhor
amiga no mundo todo foi para a Flrida sozinha?", pergun-
tou Isabel alegremente, os lbios to cheios de brilho que es-
tavam praticamente gotejando.
    "E alm disso, ns duas vamos perder cinco quilos neste
vero com a Dieta de South Beach para ficarmos lindas em
nossos biqunis xadrez preto e vermelho Shoshanna, que va-
mos usar todo dia!", guinchou Kati toda animada, esperneando
tanto que o uniforme listrado de azul-claro e branco subiu,
revelando a calcinha de algodo branco Gap.
    A maluquice era que quanto mais Vanessa repassava as
entrevistas, mais se tocava de que ia realmente sentir falta
dessas pessoas, mesmo sendo umas monstruosidades, e ela se
perguntou se havia um jeito de fazer com que parecessem mais
inteligentes e menos insanas.
    Provavelmente no. E desde quando isso seria divertido?
    Enquanto trabalhava, ela no conseguia deixar de se distrair
com a idia de que logo ali, depois da ponte de Williamsburg,
o diretor de cinema indie Ken Mogul estava selecionando o
elenco para o primeiro empreendimento comercial, Breakfast
at Fred's, que seria rodado no restaurante Fred's na loja de
departamentos Barneys na 60 com a Madison. Meses antes,
Ken Mogul assistiu a um curta-metragem de Vanessa, que
acidentalmente vazou para a Internet, e tentou contrat-la para


146
trabalhar com ele. Ele queria que ela largasse a escola e adias-
se a faculdade.  claro que Vanessa disse no. Mas agora Ken
Mogul estava em Nova York, fazendo um filme bem debaixo
do nariz dela. Ela ia viajar de carro pelo interior com Aaron
neste vero de qualquer forma, mas...
     meio tentador, n?
    Algum bateu na porta da frente.
    -- Oi! -- gritou Vanessa antes de ver quem era. Aaron
devia vir depois do ensaio da banda e tinha prometido levar
comida tailandesa para o jantar e ajud-la a estudar para a pro-
va final de matemtica. Devia chegar a qualquer momento,
mas ele tinha a chave. Ela se levantou e espiou pelo olho m-
gico na porta. No havia ningum ali.
    Ouvindo passos fracos ecoando na escada, ela semicerrou
os olhos e viu a bunda magrela vestida-num-short-azul-ma-
rinho de Dan enquanto ele desaparecia na escada preta e suja
a caminho do terrao. Ela se esqueceu de que ele tambm ti-
nha a chave.
    Vanessa j podia sentir o jato de adrenalina que sentiu da
ltima vez em que Dan apareceu. Era ficar com ele que a dei-
xava desse jeito, ou era a idia de que Aaron podia entrar pela
porta a qualquer momento e pegar os dois? Mas ser que isso
importava?
     bvio que no.
    Ela rabiscou um bilhete apressado para Aaron -- Fui na
lavanderia -- embora j tivesse pego a roupa limpa na Wash `n'
Fold de manh, antes de ir para a aula. Depois abriu a porta da
frente e correu escada acima.
    Dan estava deitado de costas no futon debaixo da caixa


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d'gua, vestido somente com a cueca samba-cano preta de
algodo, folheando uma coletnea de capa rosa de poemas de
amor de Pablo Neruda. Ao lado dele, em uma bandeja de es-
tanho, quatro ostras do Zabar's e uma garrafa aberta de Merlot
com dois copos trmicos. Quando ele viu Vanessa, imediata-
mente se sentou e comeou a ler em voz alta.

      No se afaste, nem por um dia, porque...
      Porque -- no sei como dizer: um dia  tempo demais.

    -- No acha que podia ligar antes de vir? -- perguntou
Vanessa, fingindo ficar furiosa, porque ela sabia que Dan fica-
va excitado quando ela estava puta. -- Aaron vai aparecer, tipo
assim, agora.
    -- Esse  um poema chamado "Desejo sua boca, sua voz,
seus cabelos" -- explicou Dan, olhando para ela com doura.
Ele serviu um pouco de vinho num copo e estendeu. -- Quer?
    Vanessa revirou os olhos e foi para o futon.
    -- Acho que sei o que voc deseja. -- Ela se sentou e ti-
rou a blusa, a adrenalina bombando ainda mais agora. -- De-
pressa -- ordenou ela. -- Aaron vai trazer meu jantar e depois
tenho que estudar.
    Os vizinhos nos prdios prximos ajustaram os telescpios.
Tinham se mudado para o bairro porque o aluguel era barato.
Quem diria que tambm teriam diverso ao vivo?
    Quanto mais mandona e irritada ficava Vanessa, mais ex-
citado e aflito ficava Dan, e mais ele a amava. Suas mos tre-
meram e o suor se formou no lbio superior recm-barbeado.
Ele estava inteiramente  merc dela.


148
    Na Broadway, Aaron ignorou o grupo de espectadores do
outro lado da rua, todos encarando o terrao do prdio de
Vanessa. Ele levava dois pratos de pad thai picantes e quentes
em um saco de papel debaixo do brao, estava com vontade
de fazer xixi, a porra do trem L estava tremendamente lotado
e ele estava suando feito um porco. S o que queria era entrar
e tomar uma boa ducha fria. De preferncia com Vanessa.
    Ele encontrou o bilhete dela e rabiscou ali, Estou no banho.
Depois deixou a porta da frente aberta para que ela entrasse
com mais facilidade com a cesta de roupa limpa e ligou o som,
berrando aquela msica dos Raves que Dan Humphrey gra-
vara com a banda -- a nica que era boa.
    -- Me quebra feito um ovo! -- Aaron cantou junto, no
chuveiro.
    Trs andares acima, Dan j estava enfiando os ps nas meias
de novo. A msica estava fraca mas era inconfundvel.
    -- Acha que ele viu a gente? -- Um pequeno arrepio
percorreu o corpo de Vanessa com este pensamento. Meu
Deus, que pervertida!
    Dan engoliu rapidamente a ltima ostra.
    -- O que quer que eu faa? -- perguntou ele, parecendo to
excitado quanto ela. Est vendo como somos perfeitos um para o outro?,
pensou ele. Os dois ficavam totalmente excitados com o fato de
que Aaron no sabia de nada.  claro que a traio era ruim e
errada, mas  totalmente divertida quando voc est completa e
loucamente apaixonado pela pessoa com quem voc traiu!
    -- Vou descer e distra-lo -- sussurrou Vanessa, embora
o trnsito na ponte de Williamsburg fosse to barulhento que
ningum podia ouvi-la. -- Enquanto isso voc vai embora.


                                                                  149
    Dan colocou a rolha na garrafa meio consumida de Merlot
e tentou enfi-la na bolsa de carteiro preta Manhattan Transfer.
    -- Quer que eu v embora? -- respondeu ele, frustrado.
Ele se imaginou escalando a fachada do prdio como o Ho-
mem-Aranha com Vanessa pendurada em seu pescoo feito
Kirsten Durst.
    Como se isso um dia fosse acontecer, Sr. Braos de Ma-
carro.
    -- Pode deixar isso aqui. -- Vanessa apontou o vinho. --
Ns vamos tomar depois.
    Ns significava ela e Dan, ou ela e Aaron?
    -- T legal -- respondeu Dan, entendendo que Vanessa es-
tava prestes a descer e fingir que no tinha estado ali. Meu Deus,
como Vanessa era inteligente. E to durona e fria quando estava
sob presso. -- Boa sorte nos estudos desse fim de semana.
    Vanessa deu um tapinha na bunda dele.
    -- Eu te ligo -- prometeu ela antes de correr para baixo. A
porta para o apartamento estava aberta e Aaron estava no banho.
    Vanessa tirou a roupa pela segunda vez em 15 minutos.
    -- Oi -- ela o cumprimentou, puxando a cortina do box.
    -- E a. -- Aaron sorriu e estendeu a mo ensaboada para
ajud-la a entrar.
    Dan desceu a escada devagar e na ponta dos ps, lendo
Neruda para si mesmo, as mos suando enquanto tentava
entender se o que acabara de acontecer era insanamente exci-
tante ou insanamente ultrajante.
    ...Nesta parte da histria sou eu quem morre...
    O problema com os poetas como ele  que eles sempre
pecam pelo negativismo.


150
adivinha quem vem para o caf-da-manh
no fred's?
No sbado de manh, a fila de meninas bonitas passava pelas
portas da frente da Barneys, subia a Madison com a 61 e virava
a esquina para a Quinta Avenida. A maioria estava de tubinho
preto sem mangas, sandlias pretas sem salto e culos de sol
pretos grandes, tipo Jackie Onassis. Serena vestia seu novo
jeans preferido True Religion.
    Tpico.
    De algum jeito, ela conseguiu ser uma das primeiras me-
ninas da fila. Talvez porque ela e Nate no tivessem realmente
ido dormir naquela noite -- graas ao vidrinho de comprimi-
dos que ele ficava tomando? -- e ela ainda estivesse acorda-
dssima s cinco da manh. Ela s pegou um latte duplo na deli
e foi para l, carregando o livro de francs, como se tivesse
realmente de estudar alguma coisa.
    Blair era mesmo a primeira da fila. E, surpresa, surpresa, ela
era mesmo Audrey Hepburn. O mesmo vestido preto Givenchy,
o mesmo colar de prolas, o mesmo corte de cabelo  france-


                                                              151
sa -- com a ajuda de uma peruquinha -- os mesmos culos
de sol enormes Chanel, as mesmas luvas pretas at o cotove-
lo. Lorde Marcus, sendo o doce e encantador gato que era,
ajudou-a a se vestir e at teve a idia de passar a noite em um
carro alugado, estacionado na frente da Barneys, para que ela
fosse a primeira da fila da open call.  claro que eles no conse-
guiram fazer grande coisa por medo de amassar a roupa de
Blair, mas ainda assim foi divertido ficar de mos dadas no
banco traseiro e conversar sobre o futuro prximo, quando
Blair seria uma estrela famosa de Hollywood.
    -- Eu serei seu lacaio -- props Lorde Marcus com o
adorvel sotaque ingls. -- Vou abanar voc com folhas de
palmeira e servir seus coquetis. --  claro que ele no dava a
mnima para desistir de sua vaga no programa de ps-gra-
duao em administrao na London School of Economics,
onde ia comear no outono. Ele faria qualquer coisa por Blair,
qualquer coisa!
    -- E eu vou ter os melhores estilistas fazendo roupas para
mim em cada cidade do mundo -- fantasiou Blair com os
roncos de nervosismo na barriga. Ela queria tanto esse papel
que nem comera o dia todo, mas j era quase meia-noite e ela
estava faminta. -- Ou talvez eu pea ao tio Oscar para fazer
todas as minhas roupas.
    Um vendedor de cachorro-quente estava se preparando
para a noite na esquina da 61 com a Madison. Ser que Lorde
Marcus ficaria apavorado se ela comesse um, de p diante do
meio-fio na frente da Barneys?
    No seria pior do que Audrey Hepburn comendo um bolo
de um saco de papel diante da Tiffany's.


152
     -- Olha, querida, o jantar! -- gritou Lorde Marcus, per-
cebendo o vendedor e lendo o pensamento de Blair. -- Fique
sentadinha aqui e eu vou buscar um para ns.
     Querida. Ela era a querida dele e ele buscava coisas para
ela!
     Ento eles comeram cachorros-quentes Sabrett com
mostarda e tempero e tomaram cerveja A&W, de mos da-
das, e cochilaram at que as plpebras de Blair se abriram e
viram Serena assomando na nvoa do amanhecer com seus
jeans perfeitamente relaxados e sem maquiagem nenhuma.
Ela saiu s pressas do carro e colocou os culos de sol Chanel
nos olhos. De jeito nenhum aquela vaca loura ia roubar seu
papel neste show.
     E pouco importavam as outras centenas de candidatas a
atriz que estavam comeando a aparecer para o teste.
     Agora eram quase oito da manh e o teste ia comear. Era
uma manh de maio incomumente quente e mida e as duas
meninas estavam paradas no incio da fila, abanando-se com a
folha das falas que os assistentes de Ken Mogul lhes deram e
que elas j haviam decorado.
     Por fim Serena no agentou mais.
     -- Mas como est quente. -- Blair no respondeu, ento
Serena estendeu a mo e tocou no brao nu de Blair. -- E a,
aquele cara com quem voc est saindo... Ele parece bem le-
gal -- aventurou-se ela, sem-jeito.
     Blair queria ser mais alta para poder olhar Serena de cima
com a severidade de um falco, e assim Serena nunca mais
tentaria falar com ela. Mas que pena, ela era quase 15 cent-
metros mais baixa do que Serena, em especial porque estava


                                                           153
usando as sandlias sem salto tipo Holly Golightly exigidas para
a ocasio.
    Ela estava prestes a dar uma resposta curta e extremamen-
te grossa quando percebeu uma coisa surpreendente. Ela nem
se importava mais com Serena e Nate. Blair tinha a verso de
Nate mais bonita, mais alta, mais refinada, de melhor famlia
e britnica, e ela estava perfeitamente feliz com ele, muito
obrigada. Na verdade, s para provar como estava de bem com
tudo, eles bem que podiam ser amigos -- os quatro.
    Ela puxou os enormes culos de sol Chanel para a cabea
e deu um sorriso reluzente para a ex-amiga.
    -- E se depois disso ns quatro tomssemos um drinque
no Yale Club? Eles tm um estar timo. Parece um bar de hotel
de um filme antigo ou coisa assim. Voc ia adorar.
    --  mesmo? -- Serena arfou, perguntando-se se podia
estar sonhando. Ser que Blair realmente convidara a ela e Nate
para tomar um drinque com ela e o namorado novo?
    -- Desculpe por faz-las esperar, senhoras. Muito bem,
Blair Waldorf, voc  a primeira -- anunciou um magricela
em seus vinte anos com um corte de cabelo mullet de hipster
e jeans Diesel desbotados enrolados at os joelhos.
    Blair baixou os culos de sol no nariz.
    -- Boa sorte -- disse Serena fraquinho, ainda sem ter
certeza se elas estavam realmente se falando.
    O cara do mullet conduziu Blair para dentro da loja --
felizmente tinha ar-condicionado! --, passando pela seo de
cosmticos, at os elevadores. A Barneys s abria s dez horas
no sbado, ento estava estranhamente silenciosa.  claro que
Blair passou tanto tempo ali que podia ter encontrado o ca-


154
minho para o Fred's de olhos vendados, mas isso no era o
bastante para conseguir seu papel.
    Fred's, o famoso restaurante da loja, ficava no nono andar.
Comprido e estreito, com janelas em toda uma parede dando
para a Madison e um bar pequeno e moderno, era o tipo de
restaurante que, dada sua popularidade, era surpreendente-
mente pouco espetacular. O que o tornava espetacular era sua
clientela -- as Holly Golightlys dos dias de hoje e suas mes
ou relaes pblicas que moravam na Park Avenue, todas ves-
tidas de Chanel ou Prada, tomando vinho branco e comendo
salada enquanto se preocupavam se outra pessoa compraria o
ltimo par de botas de salto agulha e cano alto Costume
National que elas viram quando subiam para o restaurante.
    Mas naquele exato momento o restaurante estava vazio, a
no ser por Ken Mogul e sua equipe. O diretor estava de p
junto ao balco do bar, os notrios olhos azuis esbugalhados
injetados de cansao, dando orientaes sobre a iluminao a
um bando ruidoso de louras da equipe com idnticos vesti-
dos pretos. Ele exibia uma barba avermelhada curta e espeta-
da e no tinha bigode -- o que nunca era um bom visual -- e
cabelo ruivo crespo na altura do ombro. Sua jaqueta de couro
estilo anos 1980 tinha ombreiras enormes e a cala Levi's era
apertada demais -- o que tambm no era bom. Blair nunca
o vira antes e achou que ele podia ser algum da equipe at
que ele se dirigiu a ela.
    -- Bom, voc certamente se parece com a personagem. --
Ele apontou para uma das banquetas de couro preto e cromo
do bar, gesticulando para ela se sentar. -- Mas este  um remake
completo, voc sabe disso. Estou tomando algumas liberda-


                                                            155
des. Por exemplo, a Holly pode no ter cabelo castanho. E ela
pode ser alta.
    Que jeito de irritar uma morena que sempre se irritou com
muita facilidade!
    Blair tinha levado trs horas para se vestir, ento ela deci-
diu ignorar o insulto. Ela dobrou a folha de papel que recebe-
ra para ler e a enfiou na bolsa, em parte para impressionar Ken
Mogul com o fato de que ela j decorara as falas, e em parte
para mostrar que suas plumas no se arrepiavam to facilmente.
Depois sentou-se na banqueta e cruzou as pernas com a graa
de bailarina de Audrey Hepburn.
    -- No vou te dar orientao alguma -- assinalou Ken
Mogul. -- S faa do seu jeito, t legal? Ento... ao!
    Blair tinha procurado Ken Mogul no Google e descobriu
uma tonelada de artigos sobre como ele se considerava o
"antidiretor", e como os atores odiavam trabalhar com ele
porque ele s os encarava sem os dirigir. Ele devia se achar
terrivelmente de vanguarda ou coisa assim. Bom, para ela, tudo
bem, porque ela no precisava ser dirigida -- ela era Audrey
Hepburn no papel de Holly Golightly 24 horas por dia.
    Ela pegou em sua bolsa Chanel fina de cetim preto um
cigarro e a comprida piteira de bano e madreprola que en-
contrara em um antiqurio em Rhode Island dois veres antes.
    -- Como vai? -- ronronou ela, parecendo exatamente
Audrey de seu jeito mais charmoso. Ela acendeu o cigarro e
soprou uma fumaa delicada sobre a cabea de Ken Mogul.
Depois deu aquele sorriso sonhador e distante que era a mar-
ca registrada de Audrey. -- Voc no adora isto aqui? No 
maravilhoso acordar e saber que este lugar est bem aqui, todo
dia?  meu paraso absoluto.


156
    Blair esperou pela resposta de Ken. Aquelas eram as ni-
cas falas que lhe deram e ela poderia diz-las com tanta per-
feio, mesmo que as dissesse para si mesma.
    Ken Mogul cobriu os olhos esbugalhados com a mo e
depois a tirou num jogo estranho de esconde-esconde. Ele
encarou Blair por um momento mais longo e depois gritou:
    -- Prxima!
    Blair desceu da banqueta e saiu com graa do restaurante
at onde Lorde Marcus esperava por ela, perto do elevador.
Ele a recebeu em seus braos fortes, competentes e aristocratas.
    -- Voc estava deslumbrante -- ele a tranqilizou. -- Eu
fiquei vendo da porta.
    Blair colocou o rosto no peito dele, ainda no personagem.
    -- Eu amo isto aqui -- suspirou ela sonhadora.
    As portas do elevador se abriram e Serena e Nate saram.
    -- Boa sorte! -- disse Blair com generosidade. Ela deu
outro trago no cigarro na piteira e abriu um sorriso sereno para
Nate. Ele retribuiu com um sorriso amarelo, os olhos meio
avermelhados, como se estivesse chorando, ou, mais prova-
velmente, extremamente chapado. Mas de onde Blair estava,
com o corpo apertado no lorde gato britnico, esta no era de
jeito nenhum uma preocupao dela.
    Depois Lorde Marcus a beijou na cabea, provocando-lhe
um pequeno arrepio pela coluna. A porta para o banheiro das
mulheres ficava bem diante deles. Ela pegou a mo dele e o
arrastou para l.
    Nada melhor do que uma pequena sesso de amassos an-
tes do caf-da-manh.




                                                            157
s tem que dizer as falas duas vezes
Serena estava preocupada porque achava que devia ter se
vestido como as outras meninas. Ser que o diretor ia pensar
que ela no estava se esforando o bastante porque no tinha
prolas e um tubinho preto? Alm disso, ela era loura e ossuda,
era alta e no se parecia nada com Audrey Hepburn. Na
verdade, agora que ela pensava no assunto, ela nem devia estar
tentando o papel.
    Tarde demais.
    -- Ah, graas a Deus -- exclamou Ken Mogul quando a
viu. -- Vai em frente. Ao.
    Serena no procurou Ken Mogul no Google e no sabia nada
de seu estilo de direo, mas ela sabia o que significava a palavra
ao e, no minuto em que a ouviu, comeou a fazer sua parte.
    -- Como vai? -- cricrilou ela toda animada, erguendo a
mo a um bartender imaginrio. Ela se sentou e depois girou
na banqueta do bar, rindo e balanando as pernas com satisfa-
o. -- Voc no adora isso aqui? No  maravilhoso acordar
e saber que este lugar est bem aqui, todo dia?  meu paraso
absoluto!


                                                               159
    Ken Mogul fez de novo o troo esquisito de esconde-es-
conde com as mos. Ele olhou para uma das louras que pare-
ciam suecas, agarrou o par de culos de aviador que ela trazia
na cabea e os atirou a Serena.
    -- Faa de novo com isto a -- ordenou ele.
    Serena fez o que ele mandou, perguntando-se se era bom
ou ruim que Ken Mogul tenha fechado os olhos quando ela
comeou a falar.
    -- Prxima! -- gritou ele, dispensando-a.
    Nate esperava perto do elevador, um leno molhado amas-
sado no punho.
    -- Minha me me trouxe aqui para comprar meu primei-
ro terno de verdade -- disse ele a Serena, o lbio inferior tre-
mendo. -- Depois fomos tomar sorvete de creme e ela me
levou ao zoolgico no parque. Tinha cheiro de amendoim.
    -- Ai. -- Serena o abraou e lhe deu um beijo na orelha.
-- Olha, acho que sei de um jeito de te animar. -- Depois do
incidente do Viagra na Bergdorf na tera-feira, Serena pen-
sou que Nate ficava basicamente excitado a qualquer hora, em
qualquer lugar. Ela apontou para o banheiro das mulheres.
    Nate hesitou. Tinha fumado um baseadinho quando acor-
dou e deixara o Viagra em casa. Alm disso, todo esse choro
era muito cansativo. Ele realmente no estava no esprito.
    A porta do banheiro das mulheres se abriu e Blair e aque-
le gato de cabelos cor de areia saram de mos dadas.
    -- Como vai? -- Blair gesticulou com a piteira vazia numa
imitao exagerada do papel que as duas tinham acabado de
fazer. Ela riu. -- Vocs no querem beber alguma coisa?
    -- Definitivamente -- disse Serena ansiosa.


160
     claro que eram s dez e meia de uma manh de sbado,
mas as futuras Audreys do mundo claramente sabem como
se divertir.
    Lorde Marcus apertou o boto do elevador e as portas se
abriram.
    -- Espera! -- gritou uma das louras de vestido preto da
equipe de Ken Mogul. O corao de Blair deu uma parada.
Certamente iam lhe oferecer o papel agora mesmo e mandar
as outras meninas para casa. Mas a garota olhava para Serena.
    -- pa! -- Serena corou, tirando os culos de aviador da
cabea e devolvendo-os. -- Mas que clepto que eu sou!
    A garota pegou os culos e depois ficou na ponta dos ps
para sussurrar no ouvido de Serena. Blair observou, concen-
trada, enquanto Serena assentia, ouvindo em silncio. Depois
a garota saiu para passar seus culos de sol a outra esperano-
sa Holly.
    Blair mordeu o lbio, quase tirando sangue. A necessida-
de de saber o que a mulher tinha sussurrado para Serena a
estava matando, mas ela se obrigou a no perguntar e Serena
decidiu no contar. A idia de que elas estivessem meio que
se falando de novo era to tnue e to nova, que nenhuma das
duas queria estragar tudo.
    E alm do mais, Lorde Marcus s tinha visto o melhor do
comportamento de Blair. Ela no podia bancar o Exorcista e
pirar na frente dele agora, ou ele ia fazer as malas e voltar para
o Reino Unido no tempo que levava para dizer "Maldio".
    Serena pegou a mo de Nate e deu um aperto excitado,
mal conseguindo guardar o segredo para si mesma.
    -- Vamos tomar um porre.


                                                              161
    -- Bravo, bravo! -- concordou Lorde Marcus.
    Blair sequer vacilou ao ver Serena e Nate de mos dadas.
Ela sempre quis fazer parte de um quarteto; sempre pensou
que seria ela e Nate e Serena e algum. Ela olhou para os lin-
dos olhos verdes-campo-de-golfe de Lorde Marcus e ele se
abaixou e a beijou com ternura na ponta do nariz.
    Nate nunca teve essas demonstraes pblicas de carinho.
E de qualquer forma, o que havia assim de to especial em Nate?




162
homens sero sempre homens e mulheres
sero sempre mulheres
-- Eu ouvi falar de voc. Voc  o cara que vai ficar no meu
lugar no time de lacrosse de Yale. Com licena, senhoras. --
Lorde Marcus estendeu a mo por sobre Blair e Serena para
apertar a mo de Nate no banco traseiro apinhado do txi
enquanto ele disparava pelo asfalto quente da Park Avenue.
-- A treinadora disse que voc era um doido com um basto.
    Essa  uma maneira de colocar as coisas.
    Nate esperava que Lorde Marcus no adivinhasse que ele
andara chorando. Agora seria uma boa hora para tomar outro
Viagra, s para dar uma sacudida no ego e impedir que as l-
grimas cassem. Se no tivesse aqueles efeitos colaterais irri-
tantes, ele tomaria todo dia.
    Tipo o qu, as erees? Mas isso no  efeito colateral,  a
grande questo!
    -- Ento Yale , tipo assim, muito pesada ou o qu? --
perguntou Nate, porque era a nica coisa em que pde pensar
em dizer. Blair estava com a cabea no ombro de Lorde Marcus
e parecia to  vontade, que era meio perturbador e legal de ver


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ao mesmo tempo. O cabelo escuro tinha crescido e parecia to
macio e brilhante que Nate quase podia senti-lo em suas mos.
    Ah, por favor. No chore.
    -- No  to duro quanto a bunda da treinadora Heffner
-- brincou Lorde Marcus. -- Ela nos contou de ter te furado
com um garfo quando voc tentou chegar nela.
    Nate tinha bloqueado este episdio de sua mente e vaci-
lou ao se lembrar.
    -- Eu no estava esperando uma treinadora, uma mulher
-- admitiu.
    -- Pode acreditar, nenhum de ns estava -- respondeu
Lorde Marcus com um sorriso astuto. Ele acendeu um Marl-
boro, mas o taxista baixinho e mirrado agitou a mo irritado,
ento ele atirou o cigarro pela janela.
    -- Vamos todos acender um cigarro e ver o que ele faz --
cochichou Serena, ainda sentindo-se nas nuvens. Ela tirou
quatro Merits Ultra Lights da bolsa de camura preta Ba-
lenciaga e Lorde Marcus a ajudou a acend-los com um is-
queiro Tiffany de prata.
    O motorista parou cantando pneu quando percebeu a fu-
maa.
    -- Saiam do meu txi! -- gritou ele, os punhos mirra-
dinhos erguidos de raiva.
    Lorde Marcus, sempre o ingls educado, comeou a se
desculpar, fingindo no saber que era ilegal fumar em txis
americanos. Mas eles j estavam na Park Avenue com a 57,
perto da esquina do Yale Club, ento saram do carro.
    Mas que viso: uma morena adorvel vestida exatamente
como Audrey Hepburn em Bonequinha de luxo, dois rapazes


164
elegantemente vestidos de olhos verdes que jogavam lacrosse
e uma linda e arrasadora loura de jeans. O cdigo de vestimenta
do Yale Club proibia jeans, mas Serena estava to linda daquele
jeito que ningum se importou. Assim que entraram no sa-
guo grande e neoclssico do clube, todos os ex-alunos de
meia-idade de Yale, com seus ternos J. Press, pararam de falar
de negcios e desligaram seus celulares BlackBerry. Ah, ter 17
anos e ser irresistvel!
    Como se algum deles um dia tivesse sido irresistvel.
    Lorde Marcus levou Nate a seu quarto para mostrar al-
guns trofus de lacrosse que s Nate apreciaria, enquanto Blair
levou Serena ao estar do clube, onde elas se acomodaram no
elegante balco do bar com seu teto dourado, piso de madeira
encerado e painis de madeira escura.  claro que elas esta-
vam acostumadas a sair o tempo todo, mas ainda parecia ex-
tremamente adulto ficar no bar de um clube privativo numa
manh de sbado, em especial quando elas deviam estar gru-
dadas em seus livros didticos, estudando para as provas fi-
nais, que comeariam na segunda.
    -- E a, o que vai dizer no discurso de formatura? --
perguntou Serena a Blair. -- O que diz mesmo aquele li-
vro do Dr. Seuss... Sabe qual , aquele que todo mundo
sempre cita?
    Blair revirou os olhos. Ela no ia citar nada daquele livro.
    -- Ah, Os Lugares Para Onde Iremos!
    O bartender de gravata-borboleta trouxe o primeiro drinque
de Blair -- um martni Ketel One com uma azeitona. Ela to-
mou um gole e depois enfiou um cigarro na piteira. Estava
gostando tanto de toda essa histria da piteira que pretendia


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us-la direto at que Breakfast at Fred's sasse e todas as meni-
nas comeassem a copi-la.
    Da a diferena entre estar na moda e criar moda.
    -- Na verdade, vou escrever sobre procurar o que voc
quer e conseguir -- declarou ela, soprando fumaa por sobre
a cabeleira loura clara de Serena. -- Nunca pensei que ia con-
seguir absolutamente tudo o que queria. Mas continuei ten-
tando, de qualquer forma, e agora tenho. Tudo.
    Serena assentiu.
    -- Sei o que quer dizer. -- O bartender trouxe seu gin fizz
Tanqueray e ela tomou alguns goles inseguros, perguntando-
se se devia contar a Blair agora que quando a assistente de Ken
Mogul cochichou no ouvido dela, ela pediu a Serena para
voltar para um segundo teste. Mas as coisas estavam indo to
bem com a Blair neste momento, que ela no queria estragar
tudo. Alm disso, mesmo que lhe oferecessem o papel, ela no
tinha certeza se o queria. Ela tentou pensar em outra coisa para
dizer, algo sobre conseguir o que sempre quis, embora ela
nunca quisesse realmente nada, as coisas simplesmente caam
no colo dela. -- Estou to apaixonada por Nate -- soltou ela,
tentando parecer to emocionada com o modo como as coi-
sas estavam rolando quanto Blair.
    Blair acendeu o cigarro de Serena. Como seria fcil atear
fogo por acidente nos longos clios de Serena. Ela olhou o salo,
tentando decidir se deixaria que seu mau gnio tomasse conta
dela ou no.
    Caraca, ela est pensando nisso? Ser um ponto crtico na vida?!
    Blair adorava o estar do Yale Club. O revestimento em
folhas de ouro e os tapetes orientais o tornavam grandioso e


166
exclusivo, mas era mais confortvel e menos enfadonho do
que alguns dos outros sales do clube. O estar era o lugar
perfeito para escapar do calor. E combinava com seu vestido.
    -- Logo, logo vamos todos estar em Yale -- refletiu ela.
    As duas meninas se encararam, os olhos azuis duros, ten-
tando concluir se isso era bom ou ruim.
    -- E podemos pegar o trem para a cidade e ficar aqui, e
nossos pais nem vo saber que estamos em Nova York!
    Isso parecia divertido.
    -- Seria um timo lugar para dar uma festa -- replicou
Blair, decidindo ser uma pessoa legal. Ela pestanejou, pergun-
tando-se por que no tinha pensado nisso antes.  claro que
significava que haveria um monte de penetras, outras vetera-
nas estpidas de outras escolas que ela nem conhecia, e segun-
danistas que pensavam que eram descoladas, agora que seriam
veteranas no ano que vem. Mas ela era oradora da turma da
Constance Billard. Fazia perfeito sentido que desse uma festa
de formatura, a festa de formatura.
    Ela deu um abrao rgido em Serena, mal conseguindo
evitar que a piteira erguida ateasse fogo no cabelo dela.
    -- Ns sempre temos as melhores idias -- murmurou
ela, um pouco para si mesma e um pouco para a velha amiga.
    Serena sorriu ansiosa, embora no soubesse a que idias
Blair estava se referindo.
    -- No temos? -- concordou ela.
    Nate tinha trazido alguns baseados j enrolados. Ele e
Lorde Marcus se acomodaram confortavelmente na sute
com papel de parede dourado e branco, o ar-condicionado
bombando enquanto ficavam deitados de costas na cama


                                                          167
king-size cor de abacate, fumando e trocando segredos so-
bre a Blair.
    T vendo, os homens so mesmo piores do que as mu-
lheres.
    -- Ela fica toda amuada quando voc chega nela e depois
reclama quando voc no vai -- queixou-se Nate, sacudindo
a cabea. -- Eu nunca entendi isso.
    -- Mas desde que voc deixe claro que ela  irresistvel,
ela no pode criar caso -- assinalou Lorde Marcus. -- Isso 
fundamental.
    Nate virou a cabea para olhar o rapaz mais velho atravs
de uma nuvem de fumaa de maconha. Ele conhecia Blair
praticamente desde que nascera. Como  que esse cara, que
s a conheceu agora, parecia entend-la perfeitamente? Seria
possvel que ele e Blair fossem totalmente incompatveis?
Talvez eles realmente no combinassem muito bem.
    Nate no conseguia pensar mais nisso sem ter uma forte
crise de choro. Em vez disso, ele deu outro tapa e permitiu
que sua mente ficasse oca.
    -- Estou pensando em pedir a Blair para ir  Inglaterra
para me visitar no vero -- refletiu em voz alta Lorde Marcus.
-- Contei a toda a minha famlia sobre ela e eles esto deses-
perados para conhec-la. Ao que parece, meu pai conhece o
pai dela. E minha me j nos v casados.
    Nate deu outro tapa. No havia necessidade de ficar tris-
te. Sua mente estava to branca, macia e sem rugas quanto as
fronhas de linho de 800 fios da cama de Lorde Marcus.
    Lorde Marcus terminou seu baseado e se sentou, apagan-
do-o elegantemente na sola dos sapatos cor de mbar.


168
    -- As moas devem estar se perguntando onde ns es-
tamos. -- Ele deu um tapinha no ombro de Nate. -- Vamos,
ento?
    Nate se apoiou nos cotovelos e sacudiu a cabea enevoa-
da, como um cachorro. Uma lgrima errante saiu do canto
do olho esquerdo e caiu por seu rosto. Ele a enxugou com
raiva, mas outra comeou a sair pelo canto do olho direito.
    -- Voc est bem? -- perguntou Lorde Marcus. -- Pre-
cisa de um minuto?
    Nate deu de ombros e depois o lbio inferior comeou
a tremer.
    Lorde Marcus se sentou ao lado dele e pegou Nate nos
braos.
    -- Calma, calma -- murmurou ele. -- Voc vai ficar bem.
    Esse no era o carinho gay fingido que Nate e seus amigos
costumavam fazer para irritar um ao outro. Era pra valer: um
abrao de irmo mais velho. Nate nunca teve irmo mais ve-
lho, nem irmo ou irm nenhuma, e era exatamente de um
abrao que ele precisava.
    -- Mon pre habite em France dans le Loire. Il aime des autres
hommes. Il est un fag! -- guinchou Blair, e ela e Serena explodi-
ram numa gargalhada.
    -- Qu'est-ce que vou faites, mes cheries? -- disse Lorde Marcus
enquanto ele e Nate se aproximavam.
    -- Estvamos conversando em francs. Tem uma parte
oral na prova de francs avanado. Temos que conversar so-
bre nossa famlia por dez minutos -- explicou Blair. -- Usando
todos os tempos verbais.
    Serena revirou os olhos.


                                                               169
    --  nisso que d fazer o curso avanado. -- Ela estreitou
os olhos para os dois rapazes. -- Ei, vocs dois esto chapados?
    Nate sorriu timidamente.
    -- Mais ou menos.
    -- Seu grande idiota. -- Serena o pegou e lhe deu um
beijo na boca, transbordando de alvio porque ela e Blair esta-
vam se falando novamente.
    Blair ficou to bem em ver Serena e Nate se beijando bem
diante dela, que nem se mexeu. Segundos depois Lorde
Marcus deslizou por trs dela e a abraou sensualmente pela
cintura -- o tipo de gesto de marido e dono com que Blair
sempre sonhou. Ele piscou para Serena.
    -- Sabia que Serena significa sereia em italiano?
    -- Sabia -- Serena riu e depois olhou para Blair de um
jeito que dizia: Onde foi que voc achou isso?
    Blair retribuiu o olhar com um sorriso malicioso que era
uma mistura de Est vendo, eu te disse que tinha tudo e Pode tirar
a mo, piranhuda.
    Nate lambeu dos lbios o gosto do gloss de baunilha MAC
de Serena e depois virou o resto do gin fizz, os olhos nos ps
perfeitos e levemente bronzeados de Blair. Alguma coisa no
modo como eles ficavam naqueles sapatos pretos e sem saltos
o deixou seriamente excitado.
    Ainda bem que ele deixou o Viagra em casa.




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 temas       anterior     prxima        faa uma pergunta           respostas

Advertncia: Todos os nomes verdadeiros de lugares, pessoas e fatos foram alterados
ou abreviados para proteger os inocentes. Quer dizer, eu.




                               oi, gente!
    Uma festa no-to-privativa no Yale Club

    Caso voc esteja se sentindo excludo do festival de liberti-
    nagem noite-e-dia no Yale Club no sbado -- eles certa-
    mente mantiveram os funcionrios ocupados trotando
    para a Grand Central para procurar por mais Prosecco do
    Campbell Apartment e cheesecake da Junior's -- uma cer-
    ta futura aluna de Yale vai dar uma tremenda festa de for-
    matura no clube na segunda que vem  noite. O Yale Club
     estritamente para scios, mas no tema. O papai da fu-
    tura aluna pagou generosamente ao clube para manter as
    portas abertas a noite toda a qualquer baladeira bem-ves-
    tida que entre procurando por outras maneiras de festejar.
     o jeito dele de se desculpar com a filha por no estar pre-
    sente em carne e osso. Ai, que coisa doce.

    Vamos esperar que ele no se esquea de que ela tambm vai
    precisar de um jeito para chegar a New Haven no ano que
    vem. Vrum, vrum.




                                                                              171
  Depresso ps-caf-da-manh

      Ken Mogul ou  extremamente exigente, ou extremamente
      cruel ou as duas coisas juntas. Rola um boato de que s qua-
      tro meninas foram chamadas para fazer um segundo teste
      para o papel principal de seu novo filme, Breakfast at Fred's.
      Outro boato diz que ele est colocando a irm mais nova no
      papel de Holly Golightly e que a seleo de elenco do sba-
      do era na verdade s para extras. Mas que desperdcio de
      talento.


  Um casamento arranjado

      Todos ouvimos falar de que realeza britnica tem uma ten-
      dncia aos casamentos arranjados. Muito problema e cons-
      trangimento  poupado quando ningum precisa sair de
      fininho nem tem que se preocupar em apresentar a namo-
      rada socialmente inepta e mal vestida  mame, que por
      acaso  a rainha. Bom, de acordo com minhas fontes no Rei-
      no Unido, um certo gato ingls de sangue azul, que recen-
      temente se formou em Yale e agora mora no Yale Club
      enquanto termina uns negcios -- vulgo farra -- em Nova
      York antes de voltar para casa no vero,  noivo de uma in-
      glesa igualmente aristocrata desde que mal tinha dois anos
      de idade. Eu no vi uma foto dela, mas tendo testemunhado
      a rapidez com que ele pegou nossa B, aposto que no deve
      ter l muito boa aparncia e ele provavelmente tambm no
      est emocionado demais em se casar com ela.




172
 Identificado ladro de bens roubados

     No  que eu queira ser portadora de outras ms notcias,
     mas meu amigo treinador vem me mandando e-mails regu-
     larmente -- ei, quem deu esse link a ele?! -- e ao que parece
     o ladro de Viagra foi identificado e ser castigado de acordo
     com seu crime. Ser que isso significa que ele/ela no vai se
     formar?


 Seu e-mail

       Cara GG,
P:     Eu sei que no devia, mas eu meio que dedurei um dos
       meus amigos e agora estou preocupado que ele no se
       forme por minha culpa. Eu s pensei, antes ele do que
       eu, n?
       -- Idiota

       Caro idiota,
R:
       , isso foi mesmo meio idiota. Mas voc j sabe disso.
       -- GG

       Querida Gossip Girl,
P:
       Eu queria convid-la pessoalmente a fazer um teste em
       meu novo filme. Voc tem a atitude que estou procu-
       rando. Espero que tambm tenha a aparncia. Quando
       vc est disponvel?
       -- mogs

       Caro mogs,
R:
       Valeu a tentativa.
       -- GG



                                                                  173
  Flagras

      B, S, N e Lorde M no Cripriani Dolci em frente ao Yale Club,
      tomando Bloody Marys no brunch de sbado. Eles certamente
      sabem como se preparar para as provas finais! V com A no Sa-
      ab vermelho dele, fingindo no perceber quando quase atro-
      pelaram D atravessando a Hudson a caminho de um cinema
      no Angelika. D voltava de um daqueles herbanrios chineses
      na Canal Street, carregando um saquinho do que era anunci-
      ado como "Poo do Amor". Ah, a teia emaranhada que te-
      cemos. J sozinha nos Gristedes na 96 Oeste comprando uma
      meia-garrafa de vinho tinto e uma lata tamanho jumbo de
      cristais instantneos de Folgers. Suas roupas e mos estavam
      manchadas do que parecia sombra cinza para os olhos, caf e
      vinho. Obviamente, ela est to dedicada a sua arte que nem
      ousaram pedir a identidade dela.


  Mais uma semana


      Ento  isso, meus amorezinhos -- a reta final. Alm das pro-
      vas, que na verdade so s aborrecimentos banais, a escola
      praticamente acabou. Repita comigo: s mais uma semana
      at a formatura. S mais uma semana at a formatura. S
      mais uma semana at a formatura.

      Boa sorte!!!

                      Pra voc que me ama,

                      gossip girl



174
d escreve outra ode
Dan terminou a prova de ingls avanado com vinte minutos
de antecedncia e comeou a reescrever o discurso de formatura
sobre o amor nas costas de seu caderno de prova azul. Desta
vez ele pretendia citar o poema de Robert Frost "A Estrada
Menos Percorrida":

   Diante de mim havia duas estradas;
   Eu escolhi a menos percorrida
   E isso fez toda a diferena.

    Mas as palavras pareciam estreis e inteiramente batidas
para ele, em especial no contexto da formatura. Alm disso,
nem ele nem os colegas de turma iam realmente escolher a
estrada menos percorrida. Estavam se formando e iam direto
para a universidade. E isso no era um tdio? A verdade era
que nunca lhe ocorrera fazer outra coisa. At agora.
    Ele lutou com a idia durante dias. Vanessa ficaria aqui em
Nova York e ele estaria l, em Olympia, no estado de Washing-
ton -- do outro lado do pas. O pensamento era insuportvel


                                                           175
para Dan, embora ele ainda no tivesse certeza dos verdadei-
ros sentimentos de Vanessa por ele, em especial depois de ela
dispens-lo to bruscamente na outra noite no minuto em que
Aaron chegou em casa e de no ter ligado para ele durante todo
o fim de semana.
    Mas talvez fosse ele quem no tivesse sido claro. Ele j disse
quele professor meio maluco que decidiu no passar o vero
trabalhando em Olympia. Por que no dar um passo alm e
anunciar a todos na formatura que ele no ia para a faculdade,
e ponto final? Isso mostraria a Vanessa, e ao mundo, at que
ponto ele estava disposto a ir -- por amor. Ele escolheria a
estrada menos percorrida.
    Dan virou a pgina e escreveu as palavras Ode sobre o Amor,
baseando seu novo poema naquele de seu poeta favorito, John
Keats. Keats escrevia odes o tempo todo: "Ode  Psique", "Ode
sobre uma Urna Grega", "Ode a um Rouxinol", "Ode sobre
a Melancolia", mas nunca uma "Ode sobre o Amor". Ento
por que no seria Dan a escrev-la?
    -- Faltam 17 minutos -- anunciou a Srta. Solomon. Dan
olhou para as costas rgidas dos colegas de turma curvados
sobre suas carteiras, as canetas trabalhando freneticamente
enquanto o relgio preto de parede batia os minutos. Ele vol-
tou a seu caderno azul. "Ode sobre o amor".  claro que seu
amor por Vanessa era misturado com uma forte dose de
luxria imortal. Mas como transmitir isso sem parecer por-
nogrfico? Afinal, o poema devia fazer parte do discurso de
formatura.




176
   Suas orbes brancas de leite,
   Os travesseiros de sua barriga,
   Coxas como btulas.

    Eca, chega!
    Ele desenhou um X grande nas palavras. Os travesseiros de
sua barriga? Credo.
    Exatamente.
    Depois ele se lembrou dos versos de "Ode sobre uma Urna
Grega":

   Mais feliz amor! Mais feliz amor!
   Para sempre aquecido e ainda a querer fruir
   Para sempre ofegante e jovem
   Acima de toda paixo humana
   Que deixa um corao desconsolado e exausto,
   A fronte incendiada e lngua ressecada.

    Havia algum jeito melhor de dizer isso?
    Provavelmente no.
    Dan comeou a desenhar a caixa d'gua em cima do pr-
dio de Vanessa, mas ele no era artista e sua caixa d'gua mais
parecia uma noz. Se ao menos ele pudesse usar o telefone
durante as provas. Ele podia ligar para o escritrio de admi-
nistrao de Evergreen e comunicar que no iria para l.
    Em vez disso, ele tentou refazer o segmento de abertura
de seu discurso de formatura nas ltimas pginas do caderno
de prova.



                                                           177
    Senhoras e senhores, obrigado por comparecerem  colao de grau
deste ano da Riverside Preparatory School for Boys. Devem estar muito
orgulhosos de seus filhos -- to orgulhosos que esto lhes dando exata-
mente o que eles queriam de formatura, no ? (Pausa para os risos.)
    De qualquer modo, estou honrado por ser o orador da formatura
deste ano. Gostaria de comear lendo um poema de Robert Frost.

      Diante de mim havia duas estradas;
      Eu escolhi a menos percorrida
      E isso fez toda a diferena.

    Esta  uma citao famosa para discursos de formatura. Sei disso
porque procurei no Google. (Pausa para os risos.) Mas  irnica, por-
que quantos de ns realmente vai escolher a estrada menos percorrida?
(Pausa para o silncio atnito.) Bom, eu vou. E aqui est como
vou fazer isso: vou seguir meu corao...
    O pequeno cronmetro em formato de ovo da mesa do
Sr. Solomon disparou.
    -- Baixem os lpis, por favor -- anunciou ela.
    Dan olhou para cima com uma expresso confusa. Como
sempre, ele tinha extrapolado.
    -- No terminou a prova, hein? -- disse Chuck Bass rin-
do  esquerda dele. Os veteranos tinham permisso para que-
brar o cdigo de vestimenta nas provas e Chuck escolhera vestir
uma camisa sem mangas Dolce & Gabbanna amarela que de
certa forma era mais reveladora do que se ele estivesse de saia.
    Dan olhou para ele. Seria possvel ser morto em servio
enquanto voc ainda est s na academia militar? Ele certa-
mente esperava que sim.


178
    A Srta. Solomon andou pela sala para recolher os cader-
nos azuis.
    -- H algum problema, Sr. Humphrey? -- perguntou ela,
esticando o peito ossudo para ele atravs de seu vestido listra-
do preto e laranja estranhamente feio.
    Dan franziu a testa.
    -- Posso arrancar as ltimas pginas do meu caderno
de prova? -- perguntou ele, sem muita esperana de que
ela permitisse.
    A professora ergueu os ombros inadequadamente nus.
    -- V em frente.
    Dan arrancou as pginas antes que ela mudasse de idia,
surpreso com a total falta de cretinice dela. Talvez a Srta.
Solomon finalmente tivesse arrumado um namorado e esti-
vesse ocupada demais devaneando com os finais de manh do
vero quente e sexy que se aproximava e o sexo vaporoso para
se incomodar em ser desagradvel com Dan.
    Ah, at parece que ele no estava devaneando com finais de
manh e sexo vaporoso. Alis, quem no est?




                                                            179
quem pode resistir a uma garota da page six?
A ltima prova final de Jenny era de biologia e ela ficou
acordada a noite toda estudando. Ncleos, protozorios,
osmose -- ela sabia disso tudo. Ela respondeu s perguntas
automaticamente, preenchendo os espaos sem parar e deixando
as colegas de turma com uma inveja e tanto. A osmose era o
processo em que os organismos assumem as qualidades do
outro s por ficarem juntos. Bom, se funcionava com os
organismos pequenininhos, por que no funcionaria com elas?
Elas andaram com Jenny o ano todo e nem assim ficaram mais
inteligentes.
    E os peitos delas tambm no ficaram maiores.
    Gostei do seu cabelo, escreveu com o lpis nmero dois Kim
Swanson na beira da carteira de plstico cinza de Jessica
Soames. D pra ver a resposta de Jenny para a n 21?
    Kim Swanson era a garota mais perfeitamente produzida
do primeiro ano. Ela mantinha os cabelos, naturalmente cas-
tanhos claros, com luzes louras desde os nove anos e preferia
blusas brancas Agns B, perfeitamente passadas com seu uni-
forme pregueado cinza. Corria o boato de que at a calcinha


                                                          181
dela era passada a ferro, e ela nunca saa de casa sem maquiagem
completa, uma pulseira de corrente Cartier de ouro e prata
em cada pulso e os brincos de diamante Cartier no to pe-
quenos na orelhas. Ela passava tanto tempo se produzindo que
dificilmente tinha tempo para estudar.
    Pera, escreveu em resposta Jessica Soames. Jessica era a
piranha da turma desde a quinta srie, quando ela ficou mens-
truada, e culminando na stima srie, quando ela perdeu a
virgindade. Tinha o maior peito de toda a turma tambm --
at Jenny florescer na oitava srie, ultrapassando-a por trs
tamanhos. Jessica deu uma olhada sutil na carteira  direita dela,
tentando ler as respostas da prova de Jenny. Mas Jenny j ha-
via terminado e agora estava rabiscando em caligrafia em uma
pgina em branco do caderno de prova.
    Fracassada, escreveu ela em letras elegantes, pretas e cheias
de voltas, e Jessica tentou no tomar isso como ofensa pessoal.
    A verdade era que Jenny tinha escrito a palavra para des-
crever a si mesma. A primeira coisa que ela fez naquela se-
gunda-feira de manh foi mandar para a Waverly Prep por
FedEx seu trio de incrveis novos retratos, todos emoldura-
dos, mas agora era quinta-feira e ela ainda no tinha recebido
resposta do escritrio de admisso. Era a primeira semana de
junho. Setembro ia chegar depois de trs curtos meses, e ela
no tinha escola para onde ir. Estava se aproximando calma-
mente do desespero.
    Antes que elas se sentassem para fazer a prova, Elise lem-
brou a ela que Waverly tambm estava encerrando o ano leti-
vo e provavelmente s ia receber o pacote que ela mandou
depois que as terceiranistas se formassem. Mas Jenny no


182
engoliu nada disso. Ela obviamente perdera a oportunidade
de ir para um internato. Sua nica opo alm da escola p-
blica era arrasar nas provas e depois implorar  Sra. M para
deixar que ela ficasse na Constance. Ela podia repetir o pri-
meiro ano, cultivar sua reputao de nerd total, usar culos
grossos de aro de tartaruga e esticar os uniformes at os tor-
nozelos. No apareceria mais na Page Six. No teria mais
escapadelas na moda. No ia mais namorar astros do rock.
Nem teria nudez online.
    Ai. Mas no era isso que tornava Jenny to especial?
    O problema era que ela j era uma aluna que tirava A di-
reto. Como podia fazer melhor do que j estava fazendo?
    Ocorreu a Jenny que talvez suas notas e sua nova obra de
arte no fossem o suficiente. Por que no mandar  Waverly
um exemplar da revista W em que ela aparece como modelo
com Serena van der Woodsen e a Page Six que mostra uma
foto dela beijando Damian, o guitarrista dos Raves, na calada
do Plaza Hotel?
    E j que vai fazer isso, por que no mandar para eles uma
mecha de cabelo? Ou um dos enormes sutis Bali?
    Kim Swanson riu discretamente enquanto escrevia algu-
ma coisa na carteira de Jessica Soames. Jenny baixou o lpis e
pousou a cabea nos braos, o cabelo escuro e crespo caindo
em cascata em pequenos anis por toda a carteira. Se ela man-
dasse a edio da W e o trecho da Page Six, seria o assunto da
escola antes mesmo de ter chegado. Era uma forma de cha-
mar a ateno das pessoas, mas depois todo mundo estaria to
cheio de idias preconcebidas sobre ela que ela nunca conse-
guiria fazer com que mudassem de opinio. Melhor conquis-


                                                          183
tar sua reputao fazendo com que as pessoas dessem por sua
presena depois de chegar l.
     frente, ela teria um estranho vero em Praga com a me,
comparecendo a algum famoso acampamento de arte tcheco
-- algo que ela se comprometera a fazer sob a influncia de
vinho Manischwitz demais. Seu pai a lembrou da semana
passada, quando ela pensou que pelo menos ia ter o internato
para ansiar no outono, mas agora ela no tinha tanta certeza.
    -- Quatro, trs, dois, um , s quatro dias para eu me formar! --
gritou animado um grupo de veteranas no corredor do lado de
fora do laboratrio de biologia. Depois a sineta tocou e as cole-
gas de Jenny atiraram os lpis no ar e comearam a se abraar e
assinar livros do ano. At Elise foi pedir a assinatura de Kim
Swanson em seu livro do ano, e ela desprezava Kim desde que
a menina espalhou o boato horroroso de que Elise nascera de-
formada e retirou uma corcunda quando tinha dois anos.
    -- Summertine -- comeou a cantar Roni Chang em seu
falsete treinado no coral -- and the living is easy!
    Jenny queria poder compartilhar dessa empolgao. Afi-
nal, era a ltima prova que fazia. Ela passara de ano! Trs longos
meses de vero esperavam por ela na Europa e as possibilida-
des eram infinitas. Mas de certa forma ela no tinha vontade
de gritar nem de assinar o livro do ano de ningum, embora
sua letra fosse melhor do que a delas.
    Agora ela entendia como as veteranas devem ter se senti-
do durante todo o inverno enquanto esperavam pela resposta
das universidades. Ela fez tudo o que podia. Seu destino esta-
va nas mos de outra pessoa.




184
uma cola em nome dos velhos tempos
Blair e Serena se sentaram lado a lado junto  comprida mesa
preta do laboratrio de qumica, respondendo a sua ltima prova
final. As alunas de qumica avanada tinham sido acomodadas
entre as alunas de qumica regular e estavam fazendo uma prova
diferente, ento no devia importar que as meninas estivessem
praticamente se acotovelando. Constance Billard preferia pensar
que suas alunas estavam alm das colas, mas a verdade era que
elas colavam o tempo todo. Blair e Serena no eram exceo.
    Molaridade se 5,827g de NaCl  diluda a um volume de 100
ml? Serena escreveu na face interna do antebrao com lpis
nmero dois. Ela bocejou e se espreguiou, deixando que o
brao casse na beira do caderno de provas de Blair.

   n = 5,827g/58,4425

   n = 0,09970 mol de NaCl

   M = 0,09970 mol / 0,100 L

   M = 0,9970 molar



                                                           185
     Blair escreveu a resposta na capa interna do caderno azul
de prova. O que vai vestir na segunda?, escreveu ela depois disso.
     Por que segunda?, escreveu Serena antes de copiar a respos-
ta que Blair lhe dera. Seria possvel que Blair j soubesse que
ela foi chamada para um segundo teste?
     Formatura -- d?!, escreveu Blair apressadamente.
     Serena encarou as palavras que Blair havia escrito. Era to
tpico dela no ter percebido seu erro. O segundo teste seria
na segunda-feira -- e a formatura tambm. Seus pais iam es-
tar l. Erik, o irmo, tinha adiado os planos de passar o vero
esquiando na Nova Zelndia com Liesl, a gostosona-da-se-
mana, para poder estar l. E Blair ia fazer o discurso.
     pa.
     No precisa me contar se no quiser, escreveu Blair, antes de
correr pelas duas pginas seguintes da prova.
     Serena a observou com admirao. Blair merecia totalmen-
te ir para Yale. Era uma fera quando se tratava de provas. A luz
do sol entrava pelas janelas do laboratrio de qumica e um
passarinho cantou alegremente. Serena suspirou e comeou a
escrever seu nome no canto da pgina trs de sua prova de nove
pginas.
     Serena van der Woodsen. Breakfast at Fred's, estrelado por
Serena van der Woodsen.
     Normalmente ela no devaneava com coisas assim, mas
esta era sua primeira oportunidade de estrelar um filme de
verdade. Era difcil no querer isso nem um pouquinho.
     Blair virou a ltima pgina da prova, escreveu rapidamen-
te as respostas e depois voltou para verificar seu trabalho.
Quando ficou satisfeita com as respostas corretas, olhou para


186
a inspetora, a Sra. Crandall. A professora gorda de cara ver-
melha estava ocupada com suas unhas, que eram pintadas de
um bege escuro atroz, deixando seus dedos parecidos com os
ps de porco macerados em formaldedo que elas tiveram que
dissecar na aula de biologia do primeiro ano. Blair afastou sua
prova e estendeu a mo para a de Serena.
    -- Ei -- Serena comeou a objetar.
    -- Shhhhh -- sussurrou Blair, j comeando a responder
s perguntas em branco.
    Serena desenhou um carinha sorridente na pgina em que
Blair estava trabalhando. Era como nos velhos tempos. A no
ser pelo fato de que ela estava com Nate e Blair com seu novo
gato britnico. Ela fez uma careta. E ela ia perder a formatura,
o que ia fazer com que Blair a odiasse novamente.
    .




                                                            187
homens demais, opes demais,
tempo de menos
Vanessa escondeu em seu armrio o vestido branco Morgane
Le Fay que Blair comprara para ela usar na formatura at o
domingo  noite, vspera da cerimnia. As luzes estavam
apagadas no apartamento e ela estava sozinha. Ela tirou a
camiseta listrada de preto e banco e vestiu a roupa pela cabea
raspada, andando at o espelho de corpo inteiro nas costas da
porta do quarto para dar uma olhada.
    O vestido era muito mais bonito do que qualquer coisa
que ela j teve na vida, com um decote em V que afundava no
corpete de cetim, uma bainha assimtrica e uma espcie de
cintura baixa no estilo melindrosa que ela no tinha idia se
valorizava seu corpo ou no. Ela e Blair calavam o mesmo
nmero, e Blair tinha deixado um par de sandlias brancas
Michael Kors de salto para combinar com o vestido. Ela at
achou para Vanessa um par de luvas de renda branca legais de
alguma loja de consignao no Upper East Side, porque era
tradio de Constance Billard as meninas usarem luvas bran-
cas durante a cerimnia.


                                                           189
    O caso era que Vanessa no iria  cerimnia. Aaron ia apa-
recer s dez da manh para peg-la, seu Saab 900S vermelho
carregado de cigarros naturais, biscoitos de soja, edamame de-
sidratado e ice tea Snapple sabor pra para a sexcapadela pelo in-
terior. Os pais dela estavam em Santa F, no Novo Mxico,
participando de algum happening de um artista hippie, e a irm
mais velha, Ruby, ainda estava na Finlndia, Polnia ou na
Lapnia, criando uma base de fs estrangeiros para sua banda, a
SugarDaddy. No era como se algum em sua famlia se im-
portasse se ela perdesse a formatura. Ela receberia o diploma
por e-mail e Blair podia devolver o vestido. No era grande coisa.
    T legal. A gente acredita em voc.
    Houve um som de arranhar na porta da frente. Vanessa
saiu do quarto e acendeu a luz da sala enquanto algum enfia-
va uma folha de papel por baixo da porta. Ela reconheceu o
garrancho infantil de Dan antes mesmo de se ajoelhar para
pegar o papel.

    No posso passar pela formatura amanh sem ver voc mais uma
vez. Estou l em cima.
    -- D

    De novo no!
    Vanessa no tirou o vestido e subiu a escada para o terrao
com suas sandlias Michael Kors. Era uma noite branda de
junho, quase nove da noite, mas no estava muito escuro. O
trnsito ia e voltava pela ponte de Williamsburg e um coro de
alarmes de incndio soava na Broadway. Uma lanterna estava
pendurada na viga de ao que sustentava a caixa d'gua. Abai-


190
xo dela, Dan estava sentado em posio de ltus, nu, com uma
brochura grossa aberta no colo.
    -- O que est fazendo? -- perguntou Vanessa.
    Dan olhou para ela, a cara apaixonada iluminada pela lan-
terna. Ele vibrava todo -- com a luz e devido a completa ado-
rao por ela.
    -- Caraca -- murmurou ele delicadamente. -- Voc est
to linda.  quase como se... -- ele parou com um sorriso
constrangido.
    -- O qu? -- Vanessa cruzou os braos. Se ela e Dan j
no fossem amigos h tanto tempo, ela podia ter ficado puta
da vida com a droga da apario pelada dele. Mas Dan era Dan,
ela s conseguiu sentir uma leve irritao.
    -- Voc est como eu imagino que estaria em nosso casa-
mento -- soltou Dan hesitante.
    Caramba.
    Vanessa concluiu que a nica resposta adequada era igno-
rar completamente o que ele disse.
    -- Isso tem alguma coisa a ver com o discurso que voc
vai fazer amanh? -- Ela apontou para o livro.
    -- Qu? -- Dan olhou para baixo, como se tivesse se es-
quecido de que ele estava ali. -- Humm, mais ou menos. Na
verdade, no. -- Ele fechou o livro e o ergueu, revelando suas
partes masculinas nuas. --  chamado A arte sexual do xtase.
Descobri na livraria.
    Vanessa assentiu com um interesse fraquinho, como se ele
tivesse acabado de dizer que podia chover mais tarde.
    -- Tem uma parte sobre meditar juntos at que voc che-
gue a um lugar em que os dois, tipo assim, esto. Fala de como


                                                          191
Sting consegue, tipo assim, fazer isso para sempre, embora ele
seja velho. Bom,  assim que ele faz.
    Como se a gente realmente quisesse saber.
    Vanessa o encarou. Dan era meio adorvel de seu jeito
estranho e magricela, mas a verdade era que ela no esperava
v-lo novamente antes de partir no dia seguinte porque ela
no queria ter de explicar nada -- que o amava, mas que pro-
metera a Aaron. Que foi meio excitante e divertido ver dois
caras ao mesmo tempo, mas que agora tinha de terminar em
algum momento. A verdade era que ela nem tinha certeza de
como se sentia, porque andara tentando no pensar no assunto.
    Dan colocou o livro de lado e estendeu a mo.
    -- Ou a gente pode s se beijar -- sugeriu ele com uma
espcie de ternura educada que fez com que ela se alegrasse
por ele j estar nu.
    Ela se abaixou e se ajoelhou diante dele, com o cuidado de
levantar o vestido para que no tocasse o cho.
    -- S cuidado com o vestido -- ela o alertou.
    Essa podia ser a nica chance dela de us-lo. No que ela
fosse contar isso a ele.




192
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Advertncia: Todos os nomes verdadeiros de lugares, pessoas e fatos foram alterados
ou abreviados para proteger os inocentes. Quer dizer, eu.




                               oi, gente!

    Viu como foi fcil?

    Conseguimos! Agora, se a gente simplesmente puder decidir
    por um entre os sete vestidos que compramos para a forma-
    tura na Bergdorf, na Barneys e na Bendle's porque a) depois
    de tomar Vivarin e se entupir de pizza de madrugada, nin-
    gum sabe se vamos engordar ou emagrecer durante a sema-
    na de provas; b) ns odiamos tomar decises; e c) o branco  o
    novo rosa do vero. Pelo menos,  melhor que seja.


    Um navio carregado de carros importados da Europa
    desembarcou nas docas de NY ontem  noite

    Estou comeando a parecer o Wall Street ou coisa assim, no
    ? Mas ento, se voc estava andando pela Park Avenue on-
    tem  noite como eu estava, pode ter percebido a frota de
    carros pretos e reluzentes sendo entregues a uma certa gara-
    gem do Upper East Side. Parece que alguns de ns vo ga-
    nhar o que pediram, s que... Pai, eu pedi rosa!



                                                                              193
  Eles sabem que voc colou

      Para aqueles de vocs que colaram nas provas finais, ns sa-
      bemos quem vocs so e seus professores tambm sabem.
      Vimos como voc terminou cedo e passou o resto do tempo
      escrevendo bilhetes e fazendo exerccios faciais de atriz -- S!!
      Eles s fizeram vista grossa porque querem se livrar de voc.
      Est alm da minha compreenso por que eles se incomodam
      em aplicar provas finais s veteranas.


  Um remdio para o nervosismo ps-formatura

       claro que no h motivo nenhum para nervosismo. S o que a
      gente tem que fazer  ficar linda e aceitar nossos diplomas. Mas
      estamos nervosas mesmo assim. Talvez porque vamos ter que
      passar por isso tudo com nossos pais olhando. Talvez porque
      no fazemos idia do que vir pela frente. Voc sabe como a
      enfermaria da escola sempre receita a mesma coisa, indepen-
      dente do problema que voc tem? Mastigue um Pepto-Bismol.
      Gargareje com gua salgada. Bom, eu estou do mesmo jeito:
      champanhe e um gato. Tome uma dose e depois repita a cada
      15 minutos at que os sintomas desapaream.

      Feliz Formatura! Vejo vocs na festa depois!

                       Pra voc que me ama,

                       gossip girl




194
pompa e circunstncia
Na frente da Brick Church, na Park Avenue com a 92, um
monte de carros pretos deixava mulheres vestidas de Chanel
e homens e rapazes de Ralph Lauren Purple Label na igreja
para ver as filhas e irms se formarem na colao de grau da
Constance Billard. Era uma balsmica manh de junho e uma
brisa agradvel farfalhava as macieiras que limitavam a calada,
espalhando ptalas e lindas folhas verdes na avenida. A
adorvel igreja de tijolos vermelhos, com suas robustas
colunas brancas e hera bem-cuidada, parecia ter sado de um
livro de fotografias. Na verdade, hoje todo o Upper East Side
parecia meio pitoresco e banhado no sol e no perfume das
flores de ma, porque hoje era o dia da formatura.
    Urraaaa!
    A me de Isabel, Titi Coates, esticou o pescoo cirurgica-
mente melhorado para ver o pblico bem-vestido, quase es-
tourando os botes de seu vestido Versace de manga curta rosa
e ouro.
    -- Eu soube que Harold Waldorf veio de Paris com o fo-
goso namorado francs para ver Blair se formar hoje -- co-


                                                            195
chichou ela a Lillian van der Woodsen, que estava sentada no
banco de mogno escuro ao lado dela. -- Ele at mandou um
Peugeot vermelho conversvel desmontado, com um mec-
nico francs especial para montar o carro para ela.
    A Sra. van der Woodsen sacudiu a cabea. Gostava de
fofoca, mas s as inofensivas -- sobre os cachorros ou o jogo
de golfe das pessoas.
    Fofoca inofensiva? Que graa tem isso?
    -- Harold Waldorf est em Bordeaux, em um leilo de
vinhos -- corrigiu ela a vizinha de roupa brega num sussurro
educado enquanto ajeitava a saia de seda lils na altura da
panturrilha de seu conjuntinho Yves Saint Laurent simples-
mas-lindo. -- Sei disso porque uma querida amiga minha est
comprando umas garrafas de Burgundy para ns l. Mas eu
no sei nada sobre o carro.
    Perto dali, em uma das cmaras externas da igreja, as vete-
ranas faziam fila por ordem de tamanho, esperando atordoa-
das os primeiros acordes de "Pompa e circunstncia". Kati
Farkas e Isabel Coates eram as mais baixas, usando sandlias
Ferragamo sem salto brancas e iguais e vestidos Carolina
Herrera iguais estilo noiva com laos de renda nas costas e uns
pompons pendurados das mangas nos cotovelos. Desespera-
das para ficar uma ao lado da outra na fila, elas fizeram um
levantamento de todas as outras meninas da turma, pergun-
tando o tamanho do salto que pretendiam usar na formatura.
At Vanessa, a usuria de botas Doc Martens, disse que ia usar
plataforma, ento as sandlias sem salto eram sua melhor al-
ternativa. Que legal que no s elas ficassem juntas na fila,
usando roupas iguais -- elas eram as primeiras!


196
     Iupiiiiii!
     Com os sapatos de dana Manolo de pelica branca salto 7,
Blair estava em algum lugar no meio. O terninho Oscar de la
Renta de cetim branco tinha sido feito sob medida sem uma
nica falha, o casaco apertando a cintura pequena e acentuando
seus lindos ombros. Nenhuma das outras meninas tinha sido
criativa nem avanada o bastante na moda para sequer pensar
em usar um terninho, que dir o batom rosa-coral Chanel que
ela comprou especialmente para o dia ou as prolas simples que
ela escolhera para colocar nas orelhas. Ela decorou seu discurso
e ficava recitando repetidamente em sua cabea, batendo os ps
para manter a circulao e a adrenalina altas.
     Obrigada por comparecerem, senhoras e senhores. E agradeo 
turma do terceiro ano por me eleger oradora. Sabem de uma coisa, al-
gumas de ns estamos juntas desde o jardim de infncia. Aprendemos
a ler juntas. Perdemos os dentes de leite juntas. Aprendemos a comer a
maior quantidade de Oreos no recreio juntas. E  medida que os anos
se passaram, aprendemos juntas a no ceder sob presso. Agora aqui
estamos, pr-universitrias, e todas ainda somos amigas. Como no
seramos?
     H outra coisa que aprendi na Constance que gostaria de dividir
com vocs hoje: conseguir o que quero...
     -- Algum viu Serena? -- perguntou Nicki Burton em
voz alta enquanto examinava seus olhos castanhos de conta
em um espelhinho e ajeitava o vestido de formatura de cintu-
ra baixa e estilo melindrosa. -- D pra acreditar que eu com-
prei isso em uma loja de roupas para criana? -- perguntou ela
pela dcima vez para que todo mundo pudesse observar que
ela era magra e pequena.


                                                                  197
    -- E a Vanessa? -- acrescentou Laura Salmon, prenden-
do a respirao enquanto tentava apertar o corpete de renda
pouco adequado em seu vestido estilo espartilho Alexander
McQueen.
    -- Acho que elas podiam tentar no se atrasar pelo me-
nos uma vez na vida -- disse Rain Hoffstetter, ajudando Laura
com os laos e tentando no esbarrar em algum com seu
Christian Lacroix inexplicavelmente bufante.
    Blair olhou em volta. Estava to preocupada em repassar o
discurso que nem percebeu: Vanessa e Serena no estavam ali.
    Como ?
    -- So quase dez e meia -- anunciou a Sra. McLean com
urgncia, batendo palmas com as mos carnudas e sardentas
para chamar as meninas  ordem. -- Vamos ter que comear
sem elas.
    Blair girou sem parar o anel de rubi no dedo anular da mo
esquerda. Serena e Vanessa iam perder a formatura?! Mas elas
iam perder seu discurso, e alis, onde  que elas foram, porra?!?!
    A Sra. Weeds, a professora de msica hippie de cabelo fri-
sado da Constance, tocou alguns acordes no rgo, as omo-
platas gordas gingando num tomara-que-caia Laura Ashley.
    -- Muito bem, meninas,  agora! -- gritou a Sra. McLean
toda animada. -- Seu ltimo urra como alunas da Constance.
-- Ela ergueu o punho sardento no ar, o terninho vermelho,
branco e azul Talbots para ocasies especiais amarrotando-se
com o esforo. -- Vamos arrebentar! -- acrescentou ela, pa-
recendo mais sapata do que nunca.
    -- Oh! -- o pblico arfou enquanto as meninas comea-
ram a entrar no corredor principal da igreja e descer a nave


198
central adornada de lrios no ritmo da msica, parecendo um
cruzamento de modelos de passarela com noivas por enco-
menda.
    Eleanor Waldorf Rose estava sentada entre o marido de
menos de um ano, Cyrus Rose, e o irmo de 12 anos de Blair,
Tyler. Eleanor era a nica mulher no ambiente a usar um cha-
pu Philip Treacy cinza-pombo de aba larga com penas de
pombo de verdade nele.
    Exatamente onde ela pensava que estava... Na Inglaterra?
    Cyrus Rose vestia um terno Hugo Boss extraordinaria-
mente feio, cor de abacate e trespassado, e estava balanando
Yale, a irm de seis meses de Blair, no joelho. Yale estava com
a kilt da Burberry que Blair comprara para ela antes mesmo
de ela nascer e uma blusinha branca de ilhoses que Blair tinha
encomendado da Oeuf, uma loja para bebs de Paris. Tyler
parecia estar de ressaca. Ou talvez Blair no o visse h tanto
tempo que tinha se esquecido de como ele era, embora ele
fosse seu irmo. E Aaron no parecia estar ali.
    Imagine por qu.
    Quando Blair se aproximou do banco deles, Eleanor fi-
cou de p num salto e lhe soprou um beijo, disparando o ce-
lular-cmera Nokia rosa-beb enquanto as lgrimas escorriam
por seu rosto cheio de rouge.
    -- Estamos to orgulhosos de voc -- despejou ela numa
voz que era definitivamente mais alta do que um sussurro.
    Do outro lado da nave central, a Sra. Van der Woodsen
pegou o olhar de Blair e sorriu orgulhosa para ela, como se
Blair fosse sua filha. Blair deu de ombros como quem se des-
culpa, embora tivesse certeza absoluta de que a me de Sere-


                                                           199
na no havia percebido que Serena estava ausente. Coitados
do Sr. e Sra. Van der Woodsen. At Erik, o irmo gato de Se-
rena, estudante da Brown, com quem Blair quase perdeu a
virgindade nas frias de primavera passada, estava ali.
     Blair nunca viu os pais de Vanessa, mas Vanessa os descre-
vera muito bem, e ela no viu nenhum hippie mal vestido de
cabelos grisalhos no pblico. Ela decidiu ficar de olho no rabo-
de-cavalo castanho da menina na frente dela na fila, que por
acaso era Rain Hoffstetter, que ela por acaso meio que odiava.
S o que Blair tinha de fazer era seu discurso, que ela decora-
ra to perfeitamente que podia recitar at dormindo, e depois
pegar o diploma. Depois ia ter a melhor festa de formatura da
vida, transar com Marcus, dar um passeio de carruagem pelo
Central Park e depois ele ia pedir Blair em casamento... Seus
olhos se enevoaram sonhadoramente e ela pisou nas costas do
vestido branco de Rain, quase derrubando-a.
     Foco, foco!
     Uma por uma, as meninas enfileiraram-se e se sentaram
nas primeiras trs filas de bancos. Trinta e quatro veteranas
no total, sem contar que faltavam duas. A Sra. McLean subiu
ao plpito, esperando para se dirigir  turma e a suas famlias.
Blair faria seu discurso logo depois dela, e depois a oradora
convidada, a "tia Lynn", uma senhora idosa que basicamente
fundou as bandeirantes ou coisa assim, devia falar. Tia Lynn
j estava curvada em seu andador na fila da frente, vestida numa
cala de moletom marrom-coc e com aparelhos auditivos nos
dois ouvidos, parecendo sonolenta e entediada. Depois que
ela falasse -- ou emborcasse e morresse, o que viesse primei-
ro -- a Sra. McLean entregaria os diplomas.


200
   A Sra. Weeds atacou os ltimos acordes de "Pompa e cir-
cunstncia".
    -- Vamos orar -- orientou a Sra. McLean sobriamente e
baixou a cabea. A diretora tinha se tornado profundamente
religiosa depois que o marido, Randall, morreu em um aci-
dente de pesca submarina em Florida Keys. Pelo menos essa
foi a histria que as meninas ouviram, junto com outra sobre
a namorada da Sra. McLean, Vonda, que morava na casa de
campo da Sra. McLean em Woodstock, Nova York, e dirigia
um trator. A Sra. McLean tinha as palavras Me monta, Vonda
tatuadas na face interna da coxa. Havia um boato de que Vonda
antigamente era Randall, mas nenhuma das meninas tinha
certeza disso.
    -- Parece que Serena e Nate fugiram para Mustique. 
por isso que ela no est aqui -- cochichou Rain a Laura. --
Ela usou o vestido de formatura como vestido de noiva. Lem-
bra que a gente a viu experimentando aquele vu na Vera
Wang? -- acrescentou ela maliciosamente.
    -- E eu ouvi dizer que a Vanessa est grvida -- respon-
deu Laura. -- Ela est em Vermont com os pais, tratando des-
se assunto. Acho que mesmo assim ela ainda deve receber o
diploma.
    Blair tentou sem sucesso no ouvir, mas  claro que estava
morrendo de vontade de saber onde estavam Serena e Vanessa.
Ser que Vanessa foi para algum lugar com Aaron? Ou com
Dan? Ser que Serena e Nate realmente fugiram? Era um dia
to doido e uma poca to doida na vida deles, que ela no
sabia bem no que acreditar.


                                                          201
    -- E agora,  um prazer apresentar Blair Waldorf, nossa
oradora do terceiro ano -- anunciou a Sra. McLean. Com um
aceno de sua cabea morena Raggedy Ann, ela saiu do palanque
para dar lugar a Blair. Blair se levantou, ajeitou a saia preguea-
da de cetim branco Oscar de la Renta e subiu delicadamente
com os ps em sapatos brancos ouvindo as suas colegas de
turma, tornando-se cada vez mais irritada enquanto pegava
trechos de seus cochichos e murmrios.
    -- Serena no vai de jeito nenhum para Yale no ano que
vem.
    -- Vanessa est em Los Angeles. No soube? Ela est fa-
zendo um filme com Brad Pitt.
    Blair subiu os degraus at o palanque -- uma viso de
perfeio com seu terninho feito sob medida, o cabelo escu-
ro, brilhante e macio, os olhos azuis de clios longos, a boca
com gloss coral e os primorosos sapatos brancos. Ela deu um
pigarro, tentando desviar a ateno de todas do tema das duas
meninas ausentes.
    -- Obrigada -- comeou ela. -- Primeiro, gostaria de dar
os parabns a minha turma. Ns conseguimos! -- gritou ela
com uma alegria exagerada. Mas nenhuma das porras das co-
legas de turma sequer olhou para ela.
    Quem liga? Quem  que liga? Quem liga? Ela estava se for-
mando hoje, tinha um novo namorado incrvel que por acaso
era um lorde ingls e no outono ia para Yale. Isso era tudo o
que importava, disse ela a si mesma enquanto continuava seu
discurso. E que ela estava seriamente gostosa em seu terni-
nho Oscar de la Renta enquanto todas as outras meninas pa-


202
reciam a pastorinha Little Bo Beep com os vestidos brancos
de babados.
    -- Agora aqui estamos, pr-universitrias, e todas ainda
somos amigas -- declarou Blair categoricamente.
     claro que so.




                                                        203
oh, os lugares para onde voc vai! -- ou no
Daaaa, di-di-di, daaaaa, daaaaa...
    O St. Jude's no se incomodou em alugar uma igreja nem
em enfileirar seus alunos por ordem de altura. S fizeram uma
pequena cerimnia solene na academia do terrao da escola,
desejaram o bem dos meninos e depois os mandaram passear.
A academia, em geral de aparncia cavernosa, agora parecia
menor, cheia como estava de cadeiras dobrveis, mes com
casaquinhos e saias de linho Chanel at os joelhos e pais com
ternos de flanela cinza Brooks Brothers.
    Nate esperou por esse dia a vida toda e, para marcar a oca-
sio, ele e os amigos ficaram altos na casa de Charlie antes da
cerimnia. Depois colocaram as gravatas vinho da escola e os
casacos de l azul-marinho com os botes de bronze idiotas
que nunca, jamais usariam novamente, e saram.
    Ele olhou por sobre o ombro para os pais, sentados rigi-
damente do outro lado do corredor, a seis filas de distncia. O
capito Archibald encontrou o olhar dele e apontou para o
programa de formatura com o dedo indicador, as sobrance-
lhas louro-acinzentadas reunidas de ultraje.


                                                           205
     Nate pegou o programa de onde tinha cado entre os sa-
patos de camura castanhos Church's of London e o analisou
para ver se poderia entender qual era o problema do pai. Os
nomes de 43 meninos estavam impressos elegantemente em
azul-marinho em duas colunas concisas. O primeiro nome na
lista tinha um pequeno asterisco ao lado e, na base do progra-
ma, perto de um asterisco igual, estava a observao, Diploma
pendente. Nate semicerrou os olhos, perguntando-se se seu
crebro totalmente chapado estava pregando peas nele, mas
estava ali novamente, um asterisco ao lado de seu nome --
Nathaniel Fitzwilliam Archibald.* Diploma pendente.
     Mas que porra!
     O padre Mark, um ex-pastor que era diretor do St. Jude's
desde pelo menos 1947, subiu ao palanque montado diante
da academia, as mos tremendo enquanto comeava a ler os
nomes dos rapazes.  claro que Nate foi o primeiro.
     -- Nathaniel Fitzwilliam Archibald!
     Nate se levantou e foi para a frente da academia, manten-
do os olhos nas linhas pretas e azuis em fita adesiva no cho
para os aros e o hquei.
     -- Vai nessa, cara -- sussurrou um bando de meninos
sarcasticamente. O pescoo de Nate ardeu de vergonha. Ha-
via um asterisco ao lado do nome dele.
     O padre Mark lhe entregou uma pasta de couro falso azul-
marinho e apertou a mo dele como devia fazer, sem nenhum
reconhecimento pelo asterisco. Nate se virou e foi para a sua
cadeira, quase se chocando com o treinador Michaels, que
estava bloqueando o corredor com a droga do agasalho ver-


206
melho Lands' End. Ele pegou a manga do palet de Nate e se
curvou para sussurrar no ouvido dele.
    -- Eu tenho seu nmero, garoto -- ofegou ele, depois deu
um tapa meio rude no ombro de Nate antes de deix-lo ir.
    -- Ai. No  um doce? -- piou a me de algum, con-
fundindo a ameaa do treinador com um abrao de parabns.
    Nate voltou a seu lugar, sem flego e suado.
    -- Anthony Arthur Avuldsen! -- grasnou o diretor, ace-
nando impaciente a pasta azul que continha o diploma de
Anthony acima da cabea branca.
    Anthony passou por cima dos joelhos com calas cqui de
Nate com uma concentrao de chapado. Nate deu um tapa
nas costas musculosas do amigo.
    -- Voc conseguiu -- murmurou ele fraquinho enquan-
to a sensao de sufocamento, agora familiar, crescia em sua
garganta.
    -- Charles Cameron Dern! -- grasnou o padre Mark com
a voz rouca.
    -- Cara -- murmurou Charlie para Nate enquanto cam-
baleava --, o que  essa estrelinha?
    Nate estava perplexo demais para chorar. Ele s ficou sen-
tado ali num torpor de chapado, o olhar furioso do pai abrin-
do buracos em suas costas enquanto os colegas de turma
pegavam os diplomas. A pasta de couro azul ficou fechada em
seu colo. Ele a abriu com o polegar s um pouquinho. Exata-
mente como ele desconfiava. A pasta estava vazia.
    Ah, cara.
    Diretamente atrs do velho padre Mark, havia a grossa por-
ta de metal com as palavras DEPARTAMENTO DE EDU-


                                                          207
CAO FSICA em estncil branco. Nate olhou a porta,
os olhos verdes reluzentes piscando de consternao. Ser
que o asterisco tinha alguma coisa a ver com o Viagra do
treinador?
    At que enfim ele entendeu!




208
d pode usar um pouco mais de amor
-- E ento, para concluir, quem precisa da universidade... pelo
menos, agora? Passei a vida toda recebendo educao. Assim
como John Lennon dos Beatles escreveu certa vez: "Voc s
precisa de amor. Voc s precisa de amor. Voc s precisa de
amor."
    Dan olhou o pblico enquanto terminava o discurso, pa-
rado atrs do palanque de madeira na frente do palco. A ceri-
mnia informal da Riverside Prep estava acontecendo no
auditrio da escola e era muito parecida com uma das peas
desorganizadas que o departamento de teatro promovia duas
vezes por ano. Atrs dele, os 41 colegas de turma estavam sen-
tados em cadeiras dobrveis, a boca escancarada de surpresa
chocada. At Larry, o professor desesperado-para-se-enturmar-
com-os-meninos, ficou rindo de nervoso e olhando para as
trinta filas de professores, pais e parentes sentados nas poltro-
nas de veludo cinza no estilo cinema, como se estivesse se
perguntando se devia explicar que o discurso de Dan era ou-
tro daqueles trotes dos veteranos que seus rapazes estavam
sempre aprontando.


                                                             209
    Na ltima fileira de lugares, a cabea de Rufus tombou de
lado, o cabelo grisalho e crespo preso com o elstico laranja
festivo que veio no gargalo de uma garrafa de champanhe
Veuve Cliquot que ele comprara para tomarem mais tarde.
Jenny segurava a mo dele. Ela olhou para cima, encontrou o
olhar de Dan percorrendo as fileiras de cabeas com seus olhos
castanhos comoventes. Seu babaca, como pde fazer isso com nos-
so doce e bem-intencionado pai?, parecia dizer a expresso dela.
Caso no esteja se lembrando, educao  tudo para ele.
    Dan continuou no palco para receber o prmio de Reda-
o E. B. White, o prmio da Riverside Prep para realizaes
em redao criativa.
    -- Meus parabns, filho. -- Seu diretor balbuciante, alto,
jovem e com cara de patinador russo, o Dr. Nesbitt, entre-
gou-lhe um papel enrolado e apertou a mo dele enquanto
um fotgrafo tirava fotos. O Dr. Nesbitt era pai de um alu-
no e vinha trabalhando como diretor h um ano e meio,
desde que o Sr. Coobie, o diretor anterior, tinha sido demi-
tido depois de uma tentativa de ensinar ele mesmo repro-
duo humana na quinta srie em vez de contratar um
profissional.
    Os aplausos foram magros e espordicos enquanto Dan
recebia o prmio e voltava para seu lugar. Tinham de ser ma-
gros, depois de um discurso daquele. No oua seus professores?
Deixe o amor ser seu professor e siga seu corao? Voc s precisa de
amor, voc s precisa de amor, voc s precisa de amor?
    Acordaaaa!!!
    -- E agora, aos diplomas -- anunciou o Dr. Nesbitt, e o
pblico se remexeu ansioso em seus lugares.


210
    Nenhum dos sobrenomes dos rapazes comeava com A,
ento Chuck Bass foi o primeiro. Para a ocasio, Chuck se
vestira inteiramente de linho creme, inclusive os sapatos fei-
tos por Hogan em que at o solado era creme. Com seu cabe-
lo escuro lustroso e o bonito rosto bronzeado, ele na verdade
estava bem elegante, como um astro de Hollywood da dcada
de 1940. Chuck enfiou a pasta de couro marrom do diploma
debaixo do brao, pegou um charuto cubano no bolso do pa-
let e o colocou entre os lbios.
    Ele estava prestes a se virar e sair do palco quando o Dr.
Nesbitt arrancou o charuto de sua boca, limpou-o nas pr-
prias calas e o enfiou na boca.
    -- Vou precisar de alguma coisa para mastigar enquanto
passo por todos esses nomes -- zombou ele no microfone, e
o pblico de pais reagiu com um rugido de risos. O Dr. Nesbitt
era to popular desde que se tornou diretor, que tinha fecha-
do temporariamente o consultrio de psiquiatria porque a
escola ainda no havia encontrado um diretor de que gostasse
da mesma forma.
    -- Bom discurso, cabea de bagre -- sibilou Chuck en-
quanto passava pelos ps de Dan ao voltar a seu lugar. -- Siga
seu corao? Isso significa que vamos fugir para Vegas juntos
depois da cerimnia? -- Dan resistiu ao impulso de moer seus
Wallabees na cabea de Chuck. Ele no tinha pensado em como
o discurso podia soar a todos os outros. S sabia que tinha
escrito com sinceridade, com uma pessoa em mente: Vanessa.
    -- Bom trabalho -- escarneceu Zeke Freedman a Dan
enquanto passava por ele a caminho do palco. Zeke e Dan eram
grandes amigos at Vanessa se tornar namorada de Dan e Dan


                                                          211
meio que se esquecer de tudo e de todos. Zeke era um nerd
de informtica e tinha um orgulho extremo do fato de que ia
para o MIT no outono, ento no era preciso muito esforo
de adivinhao para saber que o discurso de Dan o havia irri-
tado muito.
     Dan olhou novamente para a famlia. Jenny agora estava
abraada ao pai e os ombros de Rufus tremiam de tristeza. Os
outros pais provavelmente pensavam que Rufus estava cho-
rando de orgulho, mas Dan sabia muito bem o que era. Tal-
vez ele devesse ter avisado antes ao pai e lhe contado que no
iria para Evergreen no ano que vem.
     , talvez.
     -- Daniel Jonah Humphrey -- chamou o Dr. Nesbitt.
     Dan se remexeu em seu lugar. Ser que no tinha usado
bastante tempo no palco? Ele disparou de sua poltrona na ter-
ceira fila, pegou a pasta de couro marrom da mo do Dr.
Nesbitt e correu para seu lugar novamente, como se tivesse
medo de que os colegas de turma fossem lhe atirar tomates
podres ou coisa assim.
     Jenny pensara que a formatura de Dan seria relativamente
indolor e chata. Ela nem se importou quando o pai trocou
sua passagem para Praga para o dia seguinte, para que ela no
faltasse. Ele pegou o diploma enquanto ela e Rufus cochi-
chavam e apoquentavam os colegas de turma nerds. Depois
eles iam comer comida chinesa no restaurante preferido de
Dan na Broadway, e mais tarde ela arrastaria Dan para a festa
que, diziam os boatos, Blair Waldorf ia dar no Yale Club --
uma festa que ela estava absolutamente determinada a no
perder.


212
    Em vez disso, toda a sua famlia estava se dividindo e ela
estava pirando.
    Ela e Dan basicamente pararam de ser legais um com o
outro quando Jenny passou a noite no quarto do Plaza Hotel
com os membros dos Raves e depois gravou uma msica com
eles no mesmo dia em que demitiram Dan. Em casa, parecia
que nada do que Dan fazia era errado. Ele era um escritor
publicado e um aluno nota 10. Tinha vrias alternativas de
universidades, inclusive Brown, Colby, NYU e Evergreen. Seu
pai se jactava das realizaes dele o tempo todo. Jenny era uma
aluna ainda melhor, mas desde que a Sra. McLean solicitara
que ela no voltasse a Constance no ano seguinte, ela se sen-
tia a irm mais nova e malcriada de Dan. O fato de que o
superprotetor Rufus realmente concordasse que ela fosse para
um colgio interno deixava tudo ainda mais claro: Dan  que
era o bom, e ela era a m.
    Mas agora aqui estava ela, segurando a mo do pai e fin-
gindo ficar totalmente calma e mentalmente estvel enquan-
to na verdade se perguntava como viria a ser o ano seguinte
dela. Se ao menos ela pudesse tomar o lugar de Dan na Ever-
green. Devia ser uma universidade artstica -- ela provavel-
mente ia se sair bem.
    Que pssimo que no tivessem um segundo ano do ensi-
no mdio.




                                                           213
a l v como a um livro
Embora o estivesse traindo totalmente e uma viagem pelo interior
no fosse sua idia de diverso, Vanessa estava pronta para Aaron
quando ele encostou o Saab vermelho, bem na hora marcada.
Ela s no podia convid-lo a subir porque, se convidasse, teria
de explicar seu comportamento ofensivamente odioso, o que ela
no estava preparada para fazer, porque ela sinceramente no sabia
por que estava se comportando de forma to odiosa. Talvez ela
s estivesse...
    Maluca?
    -- Vou descer num minutinho! -- gritou ela quando ele
buzinou de baixo.
    -- No, abre pra mim, vou subir -- respondeu ele.
    Vanessa devia saber que alguma coisa estava rolando quan-
do ele entrou e no deu um beijo nela. L embaixo, Mookie, o
enorme boxer castanho e branco de Aaron, latiu ansioso pelo
teto solar aberto do Saab.
    Havia contas verdes no cabelo castanho e grosso de Aaron.
De repente Vanessa percebeu que ele tinha deixado crescer
trancinhas de 3 centmetros em toda a cabea. Quando foi que
isso aconteceu?


                                                              215
    -- Graas a Deus Blair tambm est se formando hoje --
assinalou ele. -- Meu pai estava totalmente decidido a ir na
formatura dela em vez de na minha. -- Ele bateu nos bolsos da
bermuda verde militar. -- Humm... -- comeou ele, os olhos
escuros disparando nervosos pela sala. -- Ei, vestido legal!
    O vestido Morgane Le Fay se pendurara sozinho no ar-
mrio da sala.
    Vanessa deu de ombros.
    -- Estou devolvendo.
    Aaron foi at o vestido e o tirou do cabide, girando-o para
ver o efeito completo da roupa.
    -- Veste a -- sugeriu ele, estendendo-o para ela.
    Ela sacudiu a cabea.
    -- Eu j experimentei algumas vezes. Alm da formatu-
ra, eu no tenho outro lugar onde usar.
    Aaron pendurou o vestido.
    -- Olha -- comeou ele. -- Eu meio que acho que no 
uma boa idia voc vir comigo. Primeiro, com Mookie, eu
meio que no tenho mais nenhum espao no carro. Segundo,
eu meio que sei que voc e Dan esto juntos h algum tempo.
    Eu meio que sei.
    Vanessa cruzou os braos, de repente sentindo-se meio
grande demais, ou meio idiota demais, ou meio alguma coisa
demais que ela no conseguia definir. Ele sabia? Mas ela e Dan
no foram totalmente discretos?
    Voc chama de discreto o sexo em plena luz do dia em um
terrao!
    -- Me desculpe -- ela conseguiu declarar. Foi s nisso em
que conseguiu pensar.


216
    -- Est tudo bem. Mas voc devia ter me contado quanto
eu tentei te dar isso. -- Aaron ergueu o anel brega de prata dos
coraes unidos. -- Eu achei em uma gaveta com as colheres.
-- Ele nem parecia to triste, o que deixou Vanessa se sentindo
ainda pior. Obviamente ela no estava prestando ateno que
ele tivesse tempo para pensar nisso e deixou passar. Mas alm
de se sentir pssima, ela tambm estava totalmente aliviada.
    Aaron ergueu o vestido novamente e o girou no cabide.
    -- Eu tambm meio que acho que voc no quer perder
a formatura. Voc adora essas meninas -- acrescentou ele de-
licadamente, parecendo meio gay.
    -- Ah, t -- concordou Vanessa sarcasticamente, mas de
novo ela se sentiu aliviada. Ela podia usar o vestido, embora
devesse odiar branco. Podia se sentar ao lado de Blair e se di-
vertir com a sra. M e finalmente se formar, e todas tomariam
um porre juntas depois, embora elas devessem se odiar.
    T legal, talvez ela adorasse essas meninas um pouquinho.
    Aaron balanou o vestido diante dela.
    -- Voc sabe que quer.
    Vanessa bufou e pegou a roupa das mos dele, prenden-
do-o em um abrao enquanto fazia isso.
    -- No pense que vai se safar sem me dar um beijo de
despedida. Eu no sei quando vou ver voc de novo.
    Ela o beijou rapidamente na boca e depois apertou a testa
no ombro quente e familiar dele, seu corpo um feixe de ner-
vos. Ela estava terminando com o namorado, estava prestes a
se formar, havia uma festa para ir e quatro anos inteiros na
Universidade de Nova York esperavam por ela, sem mais ne-
nhum uniforme idiota!


                                                            217
    Ubaaa! S que ela no tinha se esquecido de uma coisa?
    Vanessa trocou de roupa na frente de Aaron, sentindo-se
quase uma irm dele, agora que eles tinham terminado. Ela
ainda o amava e provavelmente sempre o amaria. Mas o que
era bom no amor era que ele evolua.
    Vamos nos lembrar disso.
    -- O que voc acha? -- perguntou ela, dando um giro de
Barbie com os sapatos plataforma de Blair.
    Aaron vacilou, como se doesse v-la to incrivelmente lin-
da. Ele segurou a mo dela.
    -- Vem. Eu ouvi no rdio que o metr est brabo. Eu te
levo.
    Ai. Como os meninos podem ser to gracinha depois que
terminamos com eles?




218
quem  essa garota?
-- E  por isso que estou parada aqui hoje, com um par de
sapatos de dana Manolo Blahnik edio limitada e um terninho
Oscar de la Renta feito sob medida para mim -- disse Blair a
sua platia com um sorriso complacente enquanto terminava
o discurso. -- No deixem que algum lhes diga que vocs
devem ser felizes com o que tm. Sempre h mais, e no existe
motivo para que vocs no tenham tudo.
    Todos na igreja continuaram num silncio educado, como
se no tivessem muita certeza se ela havia terminado o dis-
curso ou no.
    No que algum estivesse realmente prestando ateno.
    -- Ei, isso  o que eu penso que seja? -- cochichou Kati
Farkas para Isabel Coates. As duas meninas esticaram o pes-
coo para ver por sobre a cabea das colegas de turma enquanto
Vanessa aparecia em uma das entradas laterais da igreja. Seu
rosto estava de um rosado feliz e o vestido era de um branco
estonteante. Os sapatos plataforma eram incrveis e as peque-
nas luvas de renda se destacavam. Ela parecia to diferente de
seu ser carrancudo de preto, que mal podia ser reconhecida.


                                                          219
    -- , e ela parece mesmo meio... bem -- observou Isabel
com relutncia. --  claro que foi a Blair que escolheu o ves-
tido. Caso contrrio, ela teria vindo embrulhada num lenol
branco ou coisa assim.
    Na verdade, Vanessa tinha mesmo flertado com a idia do
lenol, mas o vestido Morgane Le Fay era muito mais satis-
fatrio.
    -- Humm, isto  tudo -- anunciou Blair de seu lugar no
palanque. Ela olhou em volta, procurando pela Sra. M, e foi
ento que percebeu Vanessa. Primeiro Blair semicerrou os
olhos para mostrar que estava muito irritada com Vanessa por
ter se atrasado tanto. Depois ela ergueu o polegar para a amiga
e ex-colega de apartamento por ela estar to completamente
incrvel. A platia irrompeu num aplauso fraco enquanto ela
voltava a sua cadeira.
    -- Obrigada, Blair -- disse a Sra. M, assumindo seu lu-
gar no palanque. -- E agora, o momento que todas vocs es-
to esperando.  um prazer entregar os diplomas de formatura
da turma. Vanessa Marigold Abrams, no se incomode em se
sentar. Voc  a primeira. -- Ela abriu um de seus raros e fa-
mosos sorrisos calorosos para Vanessa, perdoando sua mais
alternativa formanda por perder metade da cerimnia.
    Marigold?!  isso que voc ganha com pais hippies e artistas.
    Vanessa andou toda empertigada para a frente da igreja com
seus sapatos sensacionais, as orelhas ardendo ao som de seu
ridculo nome do meio e os olhos brilhando de lgrimas, cheia
de amor por todos ali, inclusive a Sra. M. Ela nem acreditava
que quase sentia falta disso. Pegando o diploma na pasta de
couro vinho, os grandes olhos castanhos brilhando de lgri-


220
mas de felicidade, ela abraou a diretora como se fosse a av
h muito desaparecida.
    -- Tambm estou extremamente orgulhosa de conferir a
voc, Vanessa Marigold, o prmio Georgia O'Keeffe de exce-
lncia criativa -- anunciou a Sra. M. Ela colocou uma fita de
cetim azul-claro em volta do pescoo de Vanessa. Dela se pen-
durava uma medalha banhada em ouro com uma das papou-
las de Georgia O'Keeffe que pareciam uma vagina. -- Meus
parabns.
    Vanessa saiu do palco e andou pelo corredor central da
igreja at o banco de Blair na terceira fila.
    -- Posso sentar aqui?
    -- Chega pra l -- disse Blair a Rain. Rain estava com um
vestido de tule branca que parecia um tutu enorme de O lago
dos cisnes. -- Seu vestido no precisa desse espao todo.
    -- Isabel Siobhan Coates -- chamou a Sra. M, erguendo
o diploma de Isabel.
    Vanessa se ajeitou ao lado de Blair e segurou o programa
de formatura.
    -- Que merda. Eu lamento ter perdido seu discurso.
    No, ela no lamenta no.
    -- Est tudo bem. -- Blair puxou o vestido de Vanessa.
-- Me diga que voc no adora isso, ou eu vou te matar. Voc
devia usar branco, tipo assim, todo dia.
    Vanessa limpou as lgrimas com os polegares e abriu a pasta
de couro vinho que trazia seu diploma.
    -- D uma olhada -- disse ela a meia-voz. As duas meni-
nas olharam a folha de papel com relevo em ouro que estava
impressa com o nome de Vanessa, seguida da data e do nome


                                                           221
da escola, e depois todo um monte de coisas em latim. Era
de aparncia totalmente oficial e ao mesmo tempo no valia
nada. Todos aqueles anos de uniforme e dever de casa de-
mais para isso?
     Vanessa fechou a pasta e a segurou apertada no peito. Ela
no ligava -- ela conseguira! E todo o seu futuro estava diante
dela. Depois de fazer cada curso de cinema que a NYU ofere-
cesse, ela se tornaria uma cineasta indie famosa, s que ela ia
se prender a filmes indie de verdade -- ao contrrio do ex-
mentor, Ken Mogul, que estava totalmente vendido com aque-
le filme adolescente que estava rodando na Barneys. Era bom
que Aaron tivesse terminado com ela hoje, porque agora ela
estava livre para conhecer todo tipo de gente interessante do
mundo e ela podia experimentar diferentes relacionamentos.
Afinal, no era para isso que servia a faculdade?
     , talvez. Mas ela no est se esquecendo de algum?




222
algum argumentaria que o sobrenome
dela comea com w
-- Serena Caroline van der Woodsen -- chamou a Sra. M.
    -- Que merda -- murmurou Blair. Onde Serena estava,
porra? Ela olhou para trs, para os outros Van der Woodsen.
Eles pareciam espertos e animados. Era incrvel que ainda no
tivessem percebido que Serena no estava ali.
    -- Serena? Voc est presente? -- perguntou a diretora,
varrendo a igreja com os olhos castanhos vtreos. -- Algum
viu Serena? -- A loura bonita que nunca-atingia-seu-poten-
cial sempre se atrasava para as reunies matinais, mas era de
se imaginar que ela podia fazer um esforo para chegar no
horrio a este evento em particular.
    As outras meninas piaram. Ningum deu uma resposta 
diretora. Blair olhou novamente para a famlia Van der Woodsen.
Agora eles pareciam confusos, embora os Van der Woodsen nunca
perdessem sua frieza. Erik empinou o queixo para Blair, suge-
rindo em silncio que ela fosse receber o diploma em nome de
Serena.



                                                           223
     -- Blair Cornelia Waldorf -- anunciou a Sra. M com se-
veridade. Nenhuma menina da Constance perdera a forma-
tura antes e ela agora estava contrariada, muito contrariada.
Ela permitiu que Serena voltasse a Constance depois de ter
sido expulsa do internato e agora Serena sequer se incomoda-
va em aparecer para a colao de grau?
     Felizmente o W de Blair vinha logo depois do V de Sere-
na. Na verdade, alguns argumentariam que o sobrenome de
Serena comea com W e portanto vinha depois do de Blair.
No que isso importasse ou que algum ligasse a essa altura.
     Blair subiu no palanque para receber o diploma.
     -- Eu recebo o de Serena por ela -- sussurrou ela, espe-
rando que sua voz no fosse pega pelo microfone.
     A Sra. M sorriu tensa e apertou a mo dela.
     -- Isso no ser necessrio -- respondeu ela, assentindo
para alguma coisa por sobre o ombro de Blair.
     Blair girou o corpo e viu Serena correndo pela nave cen-
tral com a roupa dela -- exatamente o mesmo terninho bran-
co de cetim Oscar de la Renta com a saia pregueada na altura
dos joelhos que ela prpria estava usando. E como Serena era
praticamente trinta centmetros mais alta do que Blair e as duas
tinham o mesmo peso, a roupa ficou ainda melhor em Sere-
na, apesar do fato de que ela estava descala, o cabelo todo
despenteado e de ter se esquecido das luvas.
     -- Desculpe, Sra. M! -- disse Serena arfando, abrindo
para a diretora o famoso sorriso encantador que conquistava a
todos, de artistas de vanguarda a escritrios de admisso em
Yale, Brown, Harvard e em todo lugar a que ela se candidatou.
-- Pensem s nisso... essa  a ltima vez que eu me atraso!


224
     Blair queria bater nela por ser to charmosa quando devia
estar numa encrenca sria. Na verdade, Serena provavelmen-
te teria repetido em qumica e no teria se formado se no fosse
por ela. Ela odiou o modo como ficaram lado a lado com os
terninhos iguais. As pessoas iam pensar que as duas compra-
ram juntas ou coisa assim. Uma coisa era certa -- Blair defi-
nitivamente obrigaria Serena a mudar de roupa antes de sua
grande festa no Yale Club esta noite. De jeito nenhum ia dei-
xar que Marcus visse que Serena ficava muito melhor do que
ela naquele maldito terninho.
     A Sra. M estava satisfeita. Mais meia hora de apertos de
mos com os pais e algumas piadinhas idiotas sobre suas fi-
lhas inteligentes e doces, e ela iria para Woodstock para passar
o vero vendo Vonda capinar sua plantao de tomates usan-
do s o top vermelho bordado que a Sra. M comprara para ela
na feira de artesanato do ltimo fim de semana.
     -- Tomem seus lugares, meninas -- ordenou ela, dispen-
sando Blair e Serena.
     Elas voltaram para os bancos. No havia espao para Sere-
na, ento ela se empoleirou no joelho de Vanessa.
     -- Vocs tm minha bno. -- A sra. M soprou um bei-
jo para as veteranas. -- E agora, a turma est dispensada!
     Iuuuuuupiiiii!




                                                            225
o corao dela est na manga de outro cara
Depois da cerimnia, Nate apertou uns baseados com os
outros meninos na sala de bilhar da casa de Jeremy, mas seu
corao no estava ali. Eles estavam todos formados no Ensino
Mdio, enquanto ele ainda tinha um "diploma pendente", o
que quer que essa merda significasse.
    Deixando-os para continuar a comemorao sem ele, Nate
perambulou devagar para o oeste, na rua 86, indo para casa,
grato que os pais tenham ficado to chateados com o maldito
asterisco que fossem direto para Mt. Desert Island para passar
a semana, deixando-o em paz. Em seu quarto, ele comeou a
vasculhar o closet de cedro. Na prateleira acima dos cabides de
roupa, atrs daquela ridcula cabea de Darth Vader que ele
usou no Halloween dois anos seguidos na quarta e na quinta
srie, estava a arca do tesouro de pirata em mogno com o fe-
cho de bronze que o tio Gerald lhe dera quando ele tinha oito
anos, e onde Nate guardava fotos antigas. Ele pegou o trilho
das roupas com uma das mos e o usou para se estabilizar
enquanto escalava a parede do closet com o p descalo, ten-
tando descer a droga da arca.


                                                           227
    A arca caiu, abriu e despejou seu contedo no cho. Ali
estava ele no barco de pesca em Prince William Sound, no
Alasca, h dois agostos, com o brao em volta do pai, os dois
sorrindo como bobos e vestidos numa capa amarela. Foi a
melhor poca que ele e o pai tiveram juntos em toda a vida.
Pescaram na estranha luz do sol das onze horas, cercados por
geleiras espectrais e dividindo uma garrafa de usque a cami-
nho de volta para o porto. Depois havia fotos dele e Blair. Ele
parecia entediado, sonolento e constrangido, com a cabea nos
travesseiros cor-de-rosa dela, e ela parecia loucamente em
xtase, com o rosto apertado violentamente na orelha dele
enquanto segurava a cmera diante da cara dos dois e batia a
foto ela mesmo.
    Depois havia uma foto do p elegante e bronzeado de
Serena com a palavra Saudade escrita em marcador roxo que
ela lhe mandara no ano passado enquanto ainda estava no in-
ternato. Nate a guardara, adorando o sensual anel de prata no
dedo do p e como sabia que era o p de Serena, embora ela
no tivesse mandado um bilhete, nem endereo para resposta
nem nada. Ele segurou a foto nas mos, tentando invocar aque-
le formigamento e excitao que teve quando recebeu a cor-
respondncia, mas agora era s uma foto velha e boba que no
invocava nada.
    Ele olhou a foto dele com Blair novamente, sentindo falta
do modo como eles ficavam juntos fazendo idiotices, como
beber vodca com tnica demais antes de ir ao cinema para
acabar saindo durante os trailers porque no conseguiam pa-
rar de rir. O cheiro do sapato-novo-e-da-loo-para-pele-
Kiehl de Blair. O modo como Blair ficava to sexy quando


228
estava dando um ataque. Ele queria que ela se sentasse no
colo dele. Ele queria as mos dela nos bolsos dele. Ele que-
ria que ela ligasse para ele s sete da manh de um domingo
porque ela estava ligada demais e no conseguia esperar que
ele acordasse.
    Ele atirou as fotos na arca de pirata e fechou a tampa. Pen-
durado no trilho das roupas, dentro de um saco plstico, esta-
va o suter de cashmere verde que Blair lhe dera na primavera
passada. A empregada mandara para a lavagem a seco para que
estivesse pronto para Nate vestir em Yale no outono. Nate
abriu o saco e tateou a manga direita do suter. No, talvez
fosse a esquerda. Sim, ali estava. O pingente de coraozinho
de ouro que Blair costurara por dentro para que ele sempre
estivesse com o corao dela na manga. Blair devia achar que
ele no ia perceber o corao, mas ele usou tanto o suter, como
no teria notado? Ele adorava aquele suter.
    Parece que o amor ia alm do tric.
    As lgrimas comearam a sair pelos cantos dos olhos ver-
des de Nate enquanto ele pegava o pingente de corao entre
o polegar e o indicador e o arrancava da manga do suter. O
telefone tocou antes que ele conseguisse decidir o que ia fa-
zer a seguir.
    Esperemos que no fosse nada muito imprudente.
    -- Al?
    -- Foi um ano danado para voc, filho -- ladrou o trei-
nador Michaels do outro lado da linha. -- Pensei que voc
tivesse superado todo aquele absurdo das drogas. E a voc vai
e rouba meu maldito Viagra? Qual  o problema com voc,
garoto?


                                                            229
    -- Desculpe -- murmurou Nate quase inaudivelmente.
Ele j estava chorando. O treinador no podia fazer com que
ele se sentisse pior.
    -- Tive uma longa conversa com o Dr. Nesbitt e seu pai
depois da cerimnia -- continuou o treinador --, e voc  um
cara de sorte.
    Sorte? No era exatamente a primeira palavra que ocorria
a Nate.
    -- Segurar seu diploma foi como uma bofetada para voc
saber que no pode se safar roubando minhas coisas, em es-
pecial meus remdios. Seu verdadeiro castigo vir neste ve-
ro. Eu tenho uma casa nos Hamptons que pode precisar de
umas reformas. Ento, se quiser jogar lacrosse em Yale no ano
que vem, vai ter que ser meu ajudante neste vero. Morar em
cima da garagem, trabalhar para mim e, nas horas vagas, vai 
igreja do lugar para as reunies do AA.
    Nate engoliu em seco. Ele tinha imaginado um vero de
preguia no Maine se bronzeando e ajudando o pai com os
barcos, mas no tinha alternativa. Teria de ficar com o cretino
do treinador nos Hamptons no vero.
    -- Desculpe por ser to idiota, treinador -- disse ele com
sinceridade. -- Prometo que vou compensar o senhor.
    O treinador Michaels riu.
    -- Ento pelo menos voc vai ser um idiota com diploma!
    Nate se obrigou a rir junto com o velho. As coisas iam fi-
car bem, disse ele a si mesmo. Ele teria o diploma no final do
vero.
    -- Obrigado, treinador. -- Ele desligou e abriu a mo
suada, vendo o pingente de corao.


230
    Bom, algumas coisas iam ficar bem.
    Ele deu o suspiro meio trmulo e exausto que vem depois
de um longo choro e atirou o corao na cama caprichosamen-
te arrumada. Depois voltou a vasculhar o closet. Devia encon-
trar Serena na festa do Yale Club s sete. Talvez ela aparecesse
com um jeito de deixar tudo bem.
    Sem Viagra nenhum.




                                                            231
ser que j vai ter de estudar em casa?
-- Acho que falhei na criao de vocs. -- Rufus soltou um
suspiro pesado enquanto olhava para uma taa cheia de vinho
tinto. Pelo modo como ele falou, tinha-se duas opes nesta
cidade. Ou gastava o que no tinha para mandar os filhos para
uma escola particular, onde eles aprenderiam a comprar roupas
insanamente caras e a ser esnobes com o pai, mas tambm
conversariam em latim, decorariam Keats e fariam algoritmos
de cabea; ou os mandava a uma escola pblica, onde talvez
aprendessem a ler, talvez no se formassem e se arriscariam a
levar um tiro. Ele pensou que tinha feito o que era certo. Mas
agora parecia que nenhum dos dois filhos ia a escola alguma
de tipo algum no ano seguinte.
    -- Voc no falhou, pai -- corrigiu Dan enquanto pe-
gava uma garfada de macarro. Rufus e Jenny tinham es-
perado do lado de fora da Human 92, na 92 com a Amsterdam,
enquanto ele comprara o jantar de comemorao. Ele pas-
sara a noite toda trabalhando no discurso, tomado caf ins-
tantneo um atrs do outro e fumando Camel atrs de


                                                          233
Camel. Se no comesse alguma coisa, no ia a festa alguma
mais tarde. Agora eles estavam em casa, sentados  mesa da
sala de jantar, encarando-se, com uma garrafa fechada de
champanhe na mesa. Era uma segunda-feira e mal eram
quatro da tarde, uma hora estranha para se reunirem.
    -- Pelo menos ele entrou para a faculdade -- disse Jenny
carrancuda. Ela estava usando o novo vestido drapeado Pucci
lavanda-e-amarelo-claro stretch da formatura de Dan, e ha-
via duas manchas de umidade enormes debaixo de cada pei-
to pendular, onde ela suara no calor. Ela se sentia nojenta e
estava particularmente ressentida com o irmo e o pai por
estarem num humor igualmente ruim para sequer tentar
anim-la. Ela pensou em ligar para Elise, mas ela estava na
casa de veraneio em Cape Cod e s faria Jenny se sentir pior
ao lamentar o fato de que elas iam se separar no ano que vem.
Isto , se Jenny realmente fosse a algum lugar no ano que
vem. Do jeito que as coisas estavam, ela podia ter que estu-
dar em casa.
    Ela olhou para o pai. Numa tentativa de se adaptar aos
outros pais, ele vestiu um terno para a formatura de Dan, mas
era de l preta -- quente demais para junho e no combinava
nada com a camisa abbora apertada e moderninha demais que
ele pegara emprestado com Dan para usar por baixo do terno.
Ele arrancou o elstico laranja, furioso, e seu cabelo grisalho
ficou numa espcie de coque bagunado, mantido junto pelo
m azul-brilhante que ele usava para pregar os cardpios do
servio de entrega na porta da geladeira. Para piorar as coisas,
havia uns fiapos de toalha rosa em sua barba.
    Talvez estudar em casa no fosse uma tima idia.


234
    -- Tem algum lugar a que vocs precisem ir? -- pergun-
tou Rufus, secando o que restava do vinho. Obviamente, uma
taa no seria suficiente.
    -- Ah, qual , pai -- queixou-se Dan. -- No  que eu no
v para a faculdade nunca mais. Eu s adiei por um ano,  s isso.
    Rufus pegou a garrafa aberta de Sangiovese no meio da
mesa e se serviu de mais vinho.
    -- Eu simplesmente gastei oitenta mil dlares com sua
educao de nvel mdio, tudo emprestado, ento provavel-
mente o valor vai dobrar com os juros. Me desculpe se no
fico em xtase. -- As sobrancelhas grisalhas se uniram numa
nica linha peluda. -- A Vanessa pelo menos sabe disso? --
perguntou ele desconfiado.
    Dan abriu com os dentes um sach plstico de molho agri-
doce fluorescente e espalhou em um rolinho primavera.
    -- Na verdade, no.
    Jenny e Rufus o encararam numa surpresa chocada.
    Dan olhou para eles.
    -- Que foi?
    -- Idiota -- murmurou Jenny para ele. Ela trabalhou com
Vanessa Abrams na Rancor, a revista de arte das alunas da
Constance, e tinha sado com ela vezes o bastante para saber
que ela era tremendamente independente e de jeito nenhum
ia agentar esse tipo de merda de cachorrinho-apaixonado de
Dan. Alm disso, ela no estava namorando o meio-irmo da
Blair Waldorf? -- Idiota -- murmurou ela de novo.
    Rufus no disse nada. S pegou a taa de vinho, saiu da
sala de jantar, andou pelo corredor e foi para seu escritrio,
batendo a porta depois de entrar.


                                                              235
    Dan deu de ombros e abriu outro sach de molho.
    -- Eu no sei mesmo qual  o problema de todo mundo.
    Jenny estava prestes a dizer a ele que babaca ignorante e
presunoso ele era quando seu Nokia Azul-beb comeou a
tocar as primeiras notas de "Feliz Aniversrio", a gravao dos
Raves em que ela fez o backing vocal. Ela mordeu o lbio, ainda
olhando para Dan com os grandes olhos castanhos.
    --  o seu telefone.  melhor atender -- disse Dan a ela
de boca cheia.
    -- T legal. -- Jenny pegou a bolsa imitao de Louis
Vuitton Calla Lily e apertou o boto "yes" no celular. Devia
ser Elise, ligando de Cape Cod para reclamar que estava cheia
de comer lagosta com os pais. -- Vou logo avisando que no
estou de bom humor -- disse Jenny ao atender.
    Houve um silncio do outro lado.
    -- Al? -- disse Jenny com impacincia.
    -- Sim?  Jennifer Humphrey? -- respondeu uma voz
educada de homem.
    pa.
    Ela se sentou reta na cadeira.
    -- Pode falar.
    Jenny fazia Dan se lembrar de algum, mas ele no conse-
guia lembrar quem era. A me deles, talvez? S que a nica
lembrana que ele tinha da me era dela tentando lhe ensinar
a fazer um n de gravata quando ele s tinha cinco anos. Ele
ficava errando porque o perfume dela era to forte que o dei-
xava tonto.
    -- Aqui  Thaddeus Moore, diretor de admisso da Waverly
Prep -- apresentou-se o homem. -- Voc tem um minuto?


236
    Mas  claro que ela tem!
    -- Sim -- respondeu ela com cautela, o corao batendo
com tanta fora que ela praticamente podia sentir as costelas
rachando. O mao de Camel de Dan estava na mesa. Ela o
pegou e puxou um cigarro, batendo no tampo da mesa como
uma fumante veterana. Se ao menos o pai dela tivesse deixa-
do o vinho.
    -- Que bom. Bem, eu queria que voc soubesse que re-
cebemos sua solicitao e o pacote que mandou, e ficamos
muito impressionados, em especial com sua arte -- informou-
lhe o Sr. Moore. -- Eu mesmo falei com a diretora, a Sra.
McLean, e ela no pde se conter em palavras gentis e entu-
siasmadas a seu respeito.  claro que as solicitaes de matr-
cula do prximo outono j se encerraram em dezembro. Mas
devido a circunstncias inesperadas, abriu uma vaga para o
outono. Ento, se ainda estiver interessada em freqentar a
Waverly no ano que vem, ficaremos felizes em receb-la.
    Jenny atirou o cigarro apagado no irmo e ele quicou em
sua testa idiota e saliente e caiu no cho.
    --  mesmo?! -- ela quase gritou. -- Ai, meu Deus. 
verdade?
    -- Sim,  verdade -- respondeu o Sr. Moore com o que
parecia um toque de humor. -- Vamos lhe mandar a papelada
hoje, se quiser.
    Ah, que homem legal, como ele  legal.
    -- Sim, por favor! -- Jenny se levantou e se sentou no-
vamente. Estava to empolgada que pensou que podia fazer
xixi no vestido drapeado. -- Obrigada. Ai, meu Deus. Mui-
to obrigada!


                                                           237
    -- No h de qu.
    Ela percebeu que devia desligar antes que dissesse alguma
coisa bem imbecil e ele mudasse de idia.
    --  melhor contar ao meu pai agora. Estou to feliz que
tenha telefonado. Obrigada.
    Jenny desligou, danou em volta da mesa e atirou os bra-
os em Dan.
    -- Eu vou para o colgio interno! -- guinchou ela ale-
gremente, pegando os ombros dele e sacudindo seu corpo
magro e fedorento feito uma boneca de trapos. -- Eu vou para
o colgio interno!
    -- Legal -- respondeu Dan, aliviado que a ateno tenha
sido desviada de seus prprios apuros dbios. Ele pegou um
biscoito da sorte no fundo do saco de papel que viera com a
comida chinesa. -- Que bom pra voc.
    Jenny girou e correu para o escritrio do pai. Ignorando a
regra estrita que Rufus estabelecera quando ela ainda era um
beb, ela abriu a porta sem bater.
    Rufus olhou para ela surpreso, um fsforo acendendo um
cachimbo de vidro verde e transparente nas mos, a janela
aberta e o ar quente e acre do cheiro de maconha.
    -- Grrrr -- ele rosnou.
    Jenny no deu a mnima. Ela sempre desconfiou de que
ele fumava maconha mesmo.
    -- Pai, eu entrei para a Waverly -- disse ela sem flego.
-- Sabe qual , o internato que eu soube que tem aquele pro-
grama de arte novo? Eu entrei! -- ela praticamente gritou para
ele. -- Eu entrei!


238
    Rufus apagou o fsforo, abriu a mesa da escrivaninha e
enfiou a prova do crime ali. Depois abriu os braos para dar
um abrao de urso na filha.
    -- Eu queria tanto, tanto que isso acontecesse -- disse
Jenny, a cara apertada no ombro quente e fumarento do pai.
    Ns sempre dissemos, "cuidado com o que deseja". Mas
talvez Blair afinal tivesse razo: quanto mais voc quer, mais
voc consegue.




                                                          239
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Advertncia: Todos os nomes verdadeiros de lugares, pessoas e fatos foram alterados
ou abreviados para proteger os inocentes. Quer dizer, eu.




                               oi, gente!

    Nossa ltima noite juntos

    Agora somos oficialmente formados no Ensino Mdio! Vamos
    nos preparar para festejar pra valer -- no Yale Club! No tem
    lista de convidados e no tem cdigo de vestimenta, ento,
    penetras -- vocs podem no conseguir um quarto, mas cer-
    tamente sero bem recebidos! Definio de um penetra: al-
    gum que no se formou hoje e/ou nem conhece a garota
    que est dando a festa.


    A ltima noite deles juntos

    Ai, que pena, o lorde ingls adorvel de B est indo para casa
    amanh. Ser que ele vai terminar o compromisso com a ga-
    rota que, dizem os boatos,  noiva dele desde que ele era um
    beb mijo? Ou ele vai se casar com ela, abandonando Blair?
    Pelo menos ela pode dirigir para o pr-do-sol no Beamer con-
    versvel novo, adorvel e cor de porcelana. J viu o carro esta-
    cionado na frente da Brick Church? Importado diretamente



                                                                              241
      da Europa. Ningum -- e quero dizer ningum mesmo -- tem
      um carro desse neste pas.


  Seu e-mail

        Cara GG,
P:      Estou no segundo ano de medicina em Yale e soube que
        aquele cara, N, j se inscreveu para ser rato de laboratrio
        da diviso de psiquiatria da faculdade de medicina. Tipo
        assim, eles vo dar a ele todas aquelas drogas psicotrpi-
        cas que esto testando, e at vo pagar a ele por isso.
        -- jrmed

        Cara jrmed,
R:
        At parece que ele precisa ser pago. De qualquer forma,
        vamos comear pelo incio -- o cara ainda nem conseguiu
        o diploma do Ensino Mdio.
        -- GG

        Querida Gossip Girl,
P:
        Meu filho me disse que voc  a voz dos jovens e ento eu
        devo lhe perguntar se voc conhece um poeta talentoso
        que ia para o Evergreen College mas resolveu seguir seu
        corao. Veja voc, eu mesmo sou poeta! Este poeta ia me
        ajudar com meu livro de histria e poesia sexual, mas ele
        escreveu dizendo que no viria. Estou to aborrecido! Preci-
        so de assistncia de talento! Talvez voc possa vir a Olympia
        para me ajudar. Voc dorme na rede. Meu filho faz uma
        boa comida grega!
        -- professorpop




242
       Prezado professorpop,
R:
       Cara, isso  mesmo tentador, mas eu meio que j tenho
       planos para este vero. Alm disso, as redes nunca foram
       o meu forte -- eu sou o tipo de garota de lenis de algo-
       do egpcio de 600 fios. Mas seu livro parece intrigante.
       Boa sorte com ele.
       -- GG


 At que enfim eles sacaram

     Quase todas as escolas particulares de Manhattan finalmen-
     te entenderam: os alunos do terceiro ano no querem fazer
     provas finais nem se sentar em uma sala de aula no ltimo
     ms do ano letivo, e nem precisam fazer isso, uma vez que j
     foram aceitos nas universidades e a essa altura esto to es-
     gotados mentalmente que no podem aprender nada de no-
     vo. Ento, a partir do ano que vem, os alunos do terceiro ano
     s tero de ir  aula at meados de maio. Eles vo terminar o
     ano letivo fazendo um estgio de sua preferncia em algum
     lugar da cidade. Parece bem legal, n? Que pssimo que ne-
     nhum de ns tenha conseguido isso. Eu podia ter "estagiado"
     numa coluna de notcias online e "ido trabalhar" na cama com
     minha camisola DKNY preferida, de algodo preto. No que
     eu esteja amargurada. Afinal, eu j me formei!


 Flagras

     B chegando no Yale Club com seu novo Beamer conversvel.
     V chegando no Yale Club no novo Beamer conversvel de B.
     As meninas comearam a comemorar cedo, ento quem sa-



                                                                 243
      be como estaro  noite... Aquele cineasta indie convencido
      fazendo uma visita pessoal  cobertura da famlia de S, na
      Quinta Avenida. S saindo de seu prdio, parecendo resplan-
      decente em um vestido de vero Tocca amarelo de ilhoses.
      Graas a Deus ela trocou de roupa. J na Bed, Bath and Be-
      yond, j decorando o quarto na Waverly Prep. D compran-
      do um buqu de rosas vermelhas para adivinha quem? Que
      bom que ela no vai sair da cidade, mas que pssimo que ela
      tenha se esquecido completamente dele! Esta noite deve ser
      trs, trs interessant.

      A gente se v l!

                          Pra voc que me ama,

                          gossip girl




244
foi o melhor dos tempos, foi o pior
dos tempos
Ainda com o terninho de cetim branco Oscar de la Renta
perfeitamente ajustado, Blair se sentou no joelho de Lorde
Marcus em uma poltrona de couro marrom no estar do Yale
Club, sentindo-se estranhamente contente enquanto um
monte de gente chegava para sua festa de formatura com os
livros do ano enfiados debaixo do brao. Ela e Lorde Marcus
no tiveram a oportunidade de consumar a formatura ainda,
mas assim que a festa estivesse a todo vapor, iam escapulir para
o quarto dela e transar de uma vez por todas. Ela j havia
enchido o quarto com velas Diptyque nos aromas sndalo,
bergamota e lima, e por baixo do terninho usava seu novo
conjunto de camiseta e calcinha Cosabella de algodo bordado
de cor creme.
    O estar tinha o mesmo jeito de Nova York antiga e rude,
exceto pelos seis aparelhos de TV Pioneer de tela plana pen-
durados nas paredes de painis de madeira, passando sem parar
o ltimo filme de Vanessa. O fato de que todos os persona-
gens do filme estivessem entrando aos poucos na festa fazia-a


                                                            245
parecer a noite de estria de um novo documentrio mo-
derninho, e todos na festa sentiam-se totalmente famosos.
    -- Eu te disse que eu era fotognico -- gritou Chuck Bass,
vendo a si mesmo na tela. Ele tinha chegado com uma comi-
tiva de rapazes com cabelo  escovinha e uniformes de flanela
cinza que ningum ali vira na vida.
    Isso porque ele tinha invadido a sala do segundo ano de
uma escola catlica qualquer perto de seu apartamento na
Suton Place e pago aos meninos para ir.
    -- Eles so uma gracinha -- observou Isabel, os olhos
arregalados para um menino de aparncia particularmente
inocente e olhos grandes que estava assinando o livro do ano
da Riverside Prep de Chuck com um marcador amarelo. Isa-
bel tinha trocado a roupa por um jeans Rogan com as pernas
cortadas e uma camiseta Juicy Couture vermelha curta e esta-
va quase indecentemente piranha.
    O menino a encarou tambm. Ele nunca vira uma pele
exposta to bem-cuidada. Talvez fosse sua noite de sorte!
    -- Ele tem, tipo assim, s uns 13 anos -- ridicularizou
Kati enquanto folheava seu livro do ano, contando quantas
pessoas tinham assinado. Ela estava poupando sua virgindade
para a faculdade. Bom, mais ou menos. Tecnicamente, ela j a
perdera para Chuck Bass em uma festa na casa de Serena, uns
dois anos antes, mas ela estava to bbada na hora que nem se
lembrava disso.
    Lorde Marcus passou alguma coisa fria e maravilhosa no
pescoo de Blair. Blair tocou sua clavcula e olhou para baixo.
Era um colar de prolas Bvlgari exatamente igual quele que
ela pegara emprestado com a me para o teste de Breakfast at


246
Fred's, s que dez vezes mais bonito. Cada prola no cordo
tinha um formato nico, ao mesmo tempo imperfeito e perfei-
to, com um fecho de ouro decorado com a forma da letra B.
    -- Meus parabns, Bee -- murmurou ele, beijando-a na nuca.
    Bee?
    Blair sempre quis ter apelido. Ela ergueu o queixo para
beij-lo na boca, sentindo-se bbada de felicidade e de tanta
vodca que tinha consumido com Vanessa nas horas entre a
formatura e a festa. Blair tinha um carro novo insanamente
lindo, um namorado novo insanamente gato e agora ia para
Yale no outono. As prolas eram s acessrios para sua vida j
perfeita.
    Bom, ns no somos presunosas?
    -- Eu adoraria que voc fosse para a Inglaterra neste ve-
ro -- sussurrou Lorde Marcus, os lbios roando o cabelo
de Blair. -- Minha famlia est louca para conhecer voc. Voc
podia ficar em minha casa. E talvez a gente possa ir a Paris
visitar seu pai enquanto voc estiver l.
    A respirao de Blair ficou presa na garganta e ela se virou,
piscando para ele como uma princesa de conto de fadas que
tinha acabado de ser despertada de um feitio. Ele s a convi-
dou para visit-lo, mas pareceu quase... uma proposta de casa-
mento. Ele era o prncipe dela, seu cavaleiro -- bom, no
exatamente, mas um lorde era quase a mesma coisa. Ele apa-
receu em seu cavalo branco, puxou-a para cima e agora queria
lev-la para casa para conhecer os pais dele porque logo --
talvez at em algum momento no vero -- ele ia dar a ela uma
incrvel aliana com um diamante raro, ajoelhar-se diante dela
e lhe pedir que se casasse com ele.


                                                             247
    No que ele realmente tenha falado em casamento. E
quando exatamente um cavalo branco entrou na foto?
    -- Sim -- respondeu Blair cheia de felicidade. -- Ah, sim!
    Era mais uma resposta  proposta de casamento em sua
cabaa do que uma resposta  proposta original de Lorde
Marcus mas, no mundo segundo Blair, eles estavam intrinse-
camente ligados: ela iria  Inglaterra e voltaria noiva de Lorde
Marcus.
    Embora ela s tivesse 17 anos e a me dela no o conhe-
cesse. No que ela tenha planejado apresentar a me a Marcus.
Eles podiam se conhecer no casamento. Ou talvez eles fugis-
sem para alguma ilha remota do Pacfico Sul e fizessem um
casamento ntimo  noite numa praia com apenas os nativos
como testemunhas. Eles comeriam cabra assada na fogueira e
danariam nus na areia.
    Lembrem-se, qualquer coisa pode acontecer na Ilha de
Blair.
    Ela manteve o vero em aberto, pensando que iria preci-
sar dos dois meses e meio s para comprar e preparar as malas
para Yale. Ela chegou a pensar em ir  Europa para ver o pai --
mas principalmente para fazer compras, porque as lojas de
Nova York nunca apresentavam a moda de outono antes de
setembro, e ela precisava chegar a New Haven para a orienta-
o no final de agosto. Como diabos chegaria a Yale com os
suteres de cashmere certos, as botas perfeitas e os casacos
ajustados se no os comprasse diretamente na Prada em Mi-
lo ou na Burberry em Londres?
    Agora seu vero estava mais definido. Ela faria compras,
ficaria noiva e depois faria mais compras.


248
    -- No suporto pensar que esta  nossa ltima noite jun-
tos -- lamentou Marcus, beijando-a atrs da orelha. -- Faria
bem ao meu corao saber que voc vai aparecer daqui a algu-
mas semanas.
    Blair teria fechado os olhos e o beijado e depois sussur-
rando alguma coisa do tipo ela realmente, sem nenhuma d-
vida precisava se deitar, ento por favor, leve-a ao quarto dela
para que ela possa tirar as roupas e eles possam consumar seu
casamento um pouco cedo, mas ento Serena e Nate entra-
ram na festa atrs de um grupo de meninas da L'cole que
estavam todas fumando Gauloises e vestidas em camisetas de
croch Marni e sandlias Gucci douradas porque a modelo
francesa Pru tinha acabado de usar uma camiseta de croch
Marni e sandlias Gucci douradas na capa da edio de junho
da Vogue francesa. Serena tinha trocado de roupa -- felizmen-
te. Caso contrrio Blair teria quebrado o nariz perfeito e aris-
tocrtico dela.
    -- Pensei que voc tinha me dito que eles terminaram --
comentou Tina Ford, que acabara de se formar na Seaton
Arms, com Isabel Coates. Ela mordeu um cubo de gelo enso-
pado de Absolut Citron. -- No foi por isso que os dois per-
deram a formatura?
    -- Eu soube que eles nunca ficaram realmente juntos --
disse Kati Farkas em resposta, embora Tina sequer estivesse
falando com ela. -- O Nate  gay. Ele assumiu na semana
passada. E ele est numa encrenca danada. Os pais dele o es-
to deserdando. Eles nem vo pagar Yale.
    -- Ento por que a Serena ainda finge que est saindo com
ele? -- quis saber Isabel, levantando a camiseta vermelha ras-


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gada e expondo a barriga s para dar alguma emoo quele
garoto da escola catlica de cara inocente que Chuck tinha
trazido.
    As outras meninas reviraram os olhos.
    -- Ah, voc sabe como ela . Ela sempre tem que ser legal
com todo mundo -- reclamou Rain. -- O pai do Nate pro-
vavelmente, tipo assim, contratou a Serena para dar mole pro
Nate para ele no ser mais gay!
    Na verdade, isso parece mesmo uma coisa que o capito
Archibald faria.
    Enquanto elas saam da Brick Church, e nos segundos
antes que suas famlias as encontrassem, Serena tinha tentado
explicar a Blair por que ela quase perdeu a formatura, enquanto
Blair fingia no ouvir. Obviamente o segundo teste de Serena
para Breakfast at Fred's era mais importante do que ouvir o dis-
curso de Blair ou pegar o diploma. Pelo menos Blair teve a
satisfao de saber que Serena no ia conseguir o papel. Ela
era alta demais, loura demais, tinha olhos azuis demais -- to-
talmente errada para ele.
    -- Consegui o papel! -- gritou Serena a plenos pulmes,
to empolgada que nem se importou com quem estivesse
ouvindo. Ela agarrou Nate e o apertou em seus braos longos
e perfeitamente bronzeados. -- Ken Mogul acaba de ligar. Eu
consegui o papel!
    Blair quase caiu dos joelhos de Lorde Marcus. Ela j esta-
va odiando Serena de novo por ter perdido o discurso de for-
matura e por usar exatamente o mesmo terninho Oscar de la
Renta que ela usara. E  claro que ela ainda a odiava secre-
tamente por ficar com Nate. No parecia possvel odi-la ainda


250
mais -- at agora. Mas Blair j comeara a falar com Serena
de novo -- ela at fez a prova de qumica de Serena por ela,
pelo amor de Deus, ento agora estava presa  alternativa
medonha de repentinamente agir como uma vaca sem ne-
nhum motivo na frente de Lorde Marcus, ou ser completa-
mente falsa e fingir ser legal para que Lorde Marcus no
pensasse que era uma vaca e mudasse de idia sobre querer se
casar com ela.
    Como se ele j no tivesse percebido o lado vaca de Blair.
    Nate se colocava ao lado de Serena como um acompanhante
de celebridade contratado. Ele esfregou os olhos e sorriu para
Blair e Marcus com os olhos vagos e pela primeira vez em muito
tempo Blair se perguntou o que tinha visto nele. Independente
de como eles terminaram, suas fantasias de felizes-para-sem-
pre sempre mostravam Nate, mas agora elas tinham um astro
novo e aprimorado. Ela se apoiou no peito de Marcus, deixan-
do bem claro que estava sumamente  vontade no colo dele e
totalmente tranqila com a novidade de Serena. Seu terninho
perfeitamente cortado era um pouco quente para a sala sufo-
cante, mas ficava to bem nela que ela no ligou.
    De repente, outro casal bonito, porm mais baixo, se
aproximou de Nate e Serena e olhou tensamente pela sala,
como se estivessem preocupados que algum gritasse por
terem entrado na festa de penetra. Blair se sentou e desabo-
toou o casaco Oscar de La Renta, atirando-o no cho de
desprazer. A parte masculina do novo casal era seu irmo Tyler
de 12 anos, tentando parecer um astro do rock usando um
palet de smoking Armani sobre uma camiseta preta e rasga-
da do AC/DC. A garota sardenta com jeito de sem-teto em


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seu brao estava com a mesma porra de terninho Oscar de la
Renta de Blair. Ela at estava usando a mesma porra de sapa-
tos Manolo Blahnik de Blair. A porra do cabelo dela era da
mesma cor do de Blair, e estava penteado num coque em ca-
madas, como o de Blair. Blair semicerrou os olhos. Nunca vira
aquela merda de garota na vida mas, se no estava enganada,
ela tambm estava usando a porra do brilho labial Chanel
Stroppy que era a porra do batom preferido de Blair.
    Grunhido.
    Blair puxou para cima as tiras de sua camisetinha Cosabella
creme totalmente transparente. Se no fosse por Lorde Marcus,
ela teria agarrado a garota pelo pescoo e atirado-a na rua.
    -- E a, mana -- Tyler a cumprimentou numa falsa voz
de chapado, erguendo os ombros numa tentativa de parecer
maior. -- Essa  a Jasmine. Jazz, essa  minha irm, Blair.
    -- Legal -- respondeu casualmente o clone sardento de
Blair. Como se no tivesse passado o dia todo tentando se vestir
exatamente igual a Blair.
    Blair franziu o narizinho arrebitado.
    -- Consegui o papel! -- gritou Serena do outro lado da
sala, pelo que parecia a porra da milsima vez. Blair pegou a
piteira, esperando que Marcus lhe oferecesse o isqueiro.
    -- Como vai? -- respondeu ela na melhor imitao gra-
ciosa-sob-presso de Audrey Hepburn, soprando a fumaa
sobre a cabea do irmo e da namoradinha idiota dele.
    Serena pode at ter conseguido o papel, mas Blair o vivia,
todo santo dia.




252
nunca mais
Era quase surreal como a formatura mudou a tudo e a todos. A
festa parecia uma reunio de ex-alunos, s que eles s tinham
se formado de manh. Algumas das meninas ainda estavam com
seus vestidos de formatura brancos com chinelos de borracha e
o cabelo todo despenteado, parecendo noivas fugitivas. Os
meninos tinham enrolado as calas cqui bem passadas para que
parecessem modelos numa campanha de roupa masculina
Ralph Lauren, vestidos para coquetis mas sentados num per
com os ps pendurados no lago como se preferissem tomar
cerveja juntos em vez de voltar para o coquetel sufocante.
    Serena se considerava uma pessoa emotiva. O estilista de
moda Les Best havia at batizado um perfume de Lgrimas
de Serena quando ele a pegou chorando na neve em uma ses-
so de fotos no Central Park. Ela sempre pensou que ia ficar
muito nervosa na formatura. Afinal, ela fora criada com aque-
las pessoas, dividira os mesmos altos e baixos, sofrera as mes-
mas decepes e os mesmos triunfos. Mas aqui estava ela, nada
alm de esttica. Nem o humor desligado e lamentativo de
Nate conseguia deprimi-la, porque ela conseguiu o papel!


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     , Serena, ns ouvimos na primeira vez.
     Com seu jeito pretensioso e esquisito de sempre, Ken
Mogul sequer tinha assistido ao segundo teste. Ficou de cos-
tas, tentando averiguar se ela irradiava a energia certa para o
papel. Quando ela terminou de dizer a fala, ele no se virou,
s ergueu as mos e disse: "Obrigado."
     O segundo teste aconteceu em um antigo armazm no
Meatpacking District, no extremo oposto de Manhattan em
relao  Brick Church. Serena j estava vestida para a forma-
tura e ela prometeu pagar generosamente ao taxista se ele es-
perasse por ela do lado de fora. Segundos depois, ela estava
correndo para o leste pela rua 14, rezando para que a Sra. M
no a fizesse repetir o ltimo ano e percebendo tarde demais
que tinha deixado os sapatos para trs.
     Depois da formatura, no almoo no Tavern on the Green,
sua me ficara mais zangada com a perda dos Jimmy Choos bran-
cos do que com o fato de Serena quase ter faltado  cerimnia.
     -- Que tipo de menina anda descala? -- quis saber a Sra.
van der Woodsen. Depois Ken Mogul telefonou para o celu-
lar de Serena.
     -- Eu no gosto de bronzeados nem sardas, ento por
favor, procure ficar longe do sol. Vamos comear a rodar no
Fred's no ms que vem -- anunciou ele grosseiramente. Se-
rena s ficou sentada com o fone apertado na orelha, tentan-
do entender do que ele estava falando. Depois ela percebeu.
Eu consegui o papel. Eu consegui o papel!
     Ei! D para mudar de assunto agora, por favor?
     Os pais dela consideravam atuar em filmes algo dclass,
mas em menos de nove meses depois de ser expulsa do inter-


254
nato, Serena tinha sido aceita em Yale, Harvard, Brown e
Princeton, e estava prestes a estrelar um remake de Bonequinha
de luxo. Eles no podiam reclamar.
    Consegui o papel, consegui o papel! Serena ficou gritando para
si mesma. Seu primeiro papel de verdade em seu primeiro
filme de verdade. Pela primeira vez na vida, ela percebeu que
esta era uma coisa que ela realmente queria. E no aconteceu
simplesmente. Ela fez acontecer. Que bom que agora estava
numa festa, porque havia uma garotinha empolgada em um
trampolim dentro dela, quicando e quicando e quicando.
    Boing!
    -- Eu soube que ela e Ken Mogul fizeram uma farra de
drogas ontem  noite e ela o convenceu totalmente a ganhar o
papel no filme. Ele disse que o papel era para uma mulher mais
velha e que tinha escolhido Natalie Portman, mas Serena fez
uma lavagem cerebral nele -- cochichou algum.
    -- Ela at tentou conseguir que ele contratasse Nate para
contracenar com ela, mas ele sempre est to chapado que se
esqueceu das falas durante o teste -- cochichou mais algum.
    -- E voc no soube? O Nate no se formou. Ele levou
uma dura por roubar analgsicos da enfermaria da escola dele
e agora vai ter que ir para uma priso de reabilitao na parte
ruim dos Hamptons, tipo assim, o vero todo -- informou Rain
Hoffstetter a todos que estivessem ouvindo. Ela ficou com
Charlie Dern quando os pais tinham estacionado um ao lado
do outro em um drive-in no Cape no fim de semana passado.
Eles conversavam ao telefone todas as noites desde ento, e
por isso ela estava bem atualizada quanto  informao sobre
o Nate.


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    Nate estava grato por seu papel de acompanhante mudo
de Serena. Ele se sentia fechado em 15 centmetros de plsti-
co transparente. A voz de todo mundo parecia abafada e dis-
tante. No ajudava em nada que Blair estivesse radiante no
joelho de Marcus, ou que Serena claramente no precisasse
de um namorado agora, ou que ele estivesse incrivelmente
doido.
    -- Blair!? J soube? Consegui o papel! -- Serena se ati-
rou para Blair e Lorde Marcus, arrastando Nate com ela. Ela
apertou os ombros de Blair de forma exuberante. -- Voc no
est chateada, est?
    Eu, chateada? Blair deu um sorriso tenso, ainda tentando
impressionar Marcus com sua natureza doce e magnnima.
    R!
    -- Voc  uma atriz excelente -- disse ela por fim  ex-
amiga, toda educada. -- Voc merece muito isso.
    O sorriso de orelha a orelha de Serena desapareceu aos
poucos. Ela sabia que Blair no seria capaz de esconder que
estava menos do que satisfeita e mais do que irritada. Blair era
complicada: era melhor fugir quando ela parecia voltil.
    -- A Vanessa chegou? Estou louca para contar a ela... Es-
tou conversando com Ken Mogul para contratar Vanessa para
fazer o filme!
    Com a cara resolutamente vazia, Blair apontou para onde
Vanessa estava sentada no canto com a garrafa pessoal de Stoli,
assinando feliz os livros do ano de todas as no-veteranas na
festa que pensavam que ela era pra l de descolada.
    -- Vanessa Marigold Abrams! -- gritou Serena e correu
pela sala, deixando Nate para trs.


256
    Nate ficou parado na frente de Blair e Lorde Marcus se
afagando em sua poltrona, as mos nos bolsos, sentindo-se um
imbecil.
    -- Como est? -- perguntou Lorde Marcus, estendendo
a mo para cumprimentar Nate.
    Nate no sabia quem sabia de seus problemas na forma-
tura e no queria muito falar no assunto.
    -- Estou feliz que tenha acabado -- murmurou. Lorde
Marcus parecia maior do que ele se lembrava e, embora fosse
homem, Nate podia apreciar como ele era bonito. Blair real-
mente acertou em cheio.
    --  assim que eu me sinto -- concordou Blair com um
sorriso malicioso. Ela estendeu a mo e casualmente afagou
as costas bronzeadas de Lorde Marcus, mostrando como es-
tava  vontade falando com Nate enquanto ficava sentada no
colo de Marcus.
    Nate de repente se empertigou, lembrando-se do motivo
para vir  festa.
    -- Blair, posso conversar com voc por um minuto? --
perguntou ele, embora para ele parecesse que tinha dito: "Uuu
chi g g?"
    Blair sempre foi o lado carente da relao ioi deles, ento
era uma experincia nova ver Nate adejando em volta dela,
parecendo pouco  vontade e meio desesperado, com uma
coisa estufada enfiada debaixo do brao. Ele ia dar um pre-
sente a ela?, perguntou-se Blair. Deus era testemunha de que
ela lhe dera muitos presentes quando eles estavam juntos, e
ele mal lhe dera nada a no ser flores algumas vezes, quando
se lembrava disso.


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     -- No saia daqui. Volto j -- murmurou ela para Marcus.
Ela desceu do joelho dele, lanando-lhe um olhar ardente s-vou-
suportar-essa-festa-por-mais-meia-hora-antes-de-arrancar-suas-
roupas. Depois ela seguiu Nate at um canto semi-silencioso na
sala abarrotada, tentando parecer impaciente e indiferente en-
quanto seu corao martelava to furiosamente no peito que ela
nem se surpreenderia se ficasse visvel atravs da camisetinha
creme transparente.
     Nate pegou a coisa debaixo do brao -- uma sacola da Gap
azul-marinho, dobrada ao meio. Blair ficou um tanto aturdi-
da. Ele comprou um presente para ela na Gap?
     -- Toma -- murmurou ele, tirando uma coisa de dentro
da sacola e entregando a ela. Blair reconheceu de imediato: o
cashmere verde-musgo com gola em V que ela lhe dera h um
ano.
     -- Mas voc adora esse suter -- queixou-se ela, procu-
rando pelo tato o corao de ouro que tinha costurado na
manga antes de dar a ele para que ele sempre estivesse usando
o corao dela na manga. No estava ali. Blair apalpou dentro
da manga direita, embora tivesse absoluta certeza de que ti-
nha costurado na esquerda. Nada. Mas onde  que estava?
     -- Eu s no acho que  direito ficar com ele -- respon-
deu Nate solenemente. Ele piscou com fora, desejando que
as lgrimas no cassem. Ele se perguntou se Blair se lembrava
do corao de ouro, que agora estava em um cinzeiro de vi-
dro verde e azul no formato de um veleiro ao lado de sua cama,
um lembrete constante de seu relacionamento fracassado.
     Ei, talvez ele devesse conversar com Les Best sobre uma
nova colnia masculina -- a Lgrimas de Nate!


258
    --  s um suter -- insistiu Blair, sentindo-se comple-
tamente confusa. Por que Nate no podia ser normal e dar a
ela uma pulseira de correntinha Tiffany ou outra coisa para
parabeniz-la pela formatura? Seria esse o jeito dele de pedir
desculpas, ou que ele a queria de volta? Bom, era meio tarde
para isso. -- Por favor, fique com ele.
    -- No posso -- Nate arfou, sufocando. Ele queria po-
der se abrir com Blair, contar a ela que tinha ferrado a forma-
tura, que tinha ferrado tudo em geral. Mas Nate nunca se abriu
verdadeiramente com Blair e agora provavelmente no era a
melhor hora para comear.
    -- T legal. -- Ela dobrou caprichosamente o suter e o
colocou em uma poltrona azul-Yale perto deles. Ela ps as
mos nos lbios, decidida a no se permitir vacilar. Agora ti-
nha um namorado novo. Um namorado muito, muitssimo
melhor. --  s isso?
    Nate assentiu. Depois ele deu um passo  frente, fechou
os olhos esmeralda e deu um beijo cuidadoso no rosto macio
e suave de Blair. Ele abriu os olhos.
    -- Meus parabns -- murmurou antes de se virar.
    Blair ficou parada ali por um momento com os braos
cruzados, ignorando os olhares das colegas de turma que co-
chichavam.  s um suter, repetiu ela para si mesma.
    Ah, . Ento t.




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lembre-me de como eu te amo
Dan ainda estava com a gravata verde da Riverside Prep na festa
de Blair. Ele queria ficar mais bonito quando anunciasse a
Vanessa que tinha adiado a admisso em Evergreen e queria
passar o ano seguinte e possivelmente a vida toda com ela.
Assim que chegaram na festa, Jenny foi direto ao bar para pegar
uma taa de champanhe, mas Dan vagou perto da porta, os
braos cheios de rosas vermelhas, transfixado pela viso de
Vanessa resplandecente no vestido branco e sexy de formatura
e os sapatos brancos plataforma. Havia um tom rosado nas
bochechas dela e um brilho em seus olhos castanhos enquanto
ela conversava com Serena van der Woodsen. Serena estava
linda como sempre, com o cabelo louro claro caindo em
cascata entre as omoplatas nuas e as pernas interminveis, mas
a viso dela no excitava Dan como ver Vanessa.
    -- Ei, gostoso, traga sua bunda aqui! -- gritou Vanessa
para ele do outro lado da sala. Ela estava bbada desde uma
da tarde e a viso de Dan, os braos cheios de rosas, era
menos excitante do que uma revelao. Uma revelao de
bbada.


                                                           261
    Nesta manh ela quase viajara com o cara errado. Era Dan
que ela amava. E como podia no amar -- com o jeito relaxado
dele, os poemas dolorosamente escritos e o modo como ele
aparecia inesperadamente em seu terrao sem roupa nenhuma?
    Enquanto Dan se aproximava, ela meio que tentou sair da
poltrona listrada de branco e azul-Yale em que estava sentada,
mas depois desistiu e caiu novamente.
    -- Estou tentando abraar voc -- explicou ela, rindo para
si mesma.
    Ela est bbada, percebeu ele.
    Serena o agarrou e lhe deu um beijo no rosto, depois o
empurrou no colo de Vanessa.
    -- Voc  sempre to bonitinho -- piou ela, alvoroan-
do o cabelo castanho-claro e embaraado de Dan enquanto
as rosas vermelhas caam de seus braos e se espalhavam aos
ps deles.
    Vanessa lhe fez ccegas debaixo dos braos e ele afastou os
dedos afiados dela, de repente sentindo-se mais como o ir-
mo de quatro anos bonitinho de algum do que o namorado
garanho de Vanessa.
    -- E a, a grande notcia  que Serena vai ser estrela de
cinema e eu vou ajudar a fazer o filme brega mas de grande
oramento dela, porque se  pra gente se vender, ento tem
que se vender legal -- disse Vanessa a ele com uma animao
de bbada.
    Serena e Vanessa bateram as mos como velhas colegas de
futebol. Depois Serena serviu mais Dom da garrafa no cho
ao lado da poltrona de Vanessa e passou a taa transbordando
a Dan.


262
    -- A Hollywood -- gritou ela alegremente, esperando que
Dan entornasse tudo.
    Dan se empoleirou no joelho nu e plido de Vanessa, ten-
tando no cuspir o champanhe. Ele tinha preparado um poe-
ma de amor de Pablo Neruda para recitar, mas talvez agora
no fosse uma boa hora.
    -- Acha que eu devia pedir a eles para colocar uma msi-
ca pra gente poder danar? -- Serena arrotou alto.
    -- Mas  claro que sim. -- Vanessa quicou na cadeira,
levando Dan a tombar no cho. -- O Dan vai danar com a
gente, no vai, Dan?
    Dan se colocou de p com dificuldade, ansioso para que
Serena o deixasse sozinho com Vanessa.
    -- Claro.
    Serena girou e se afastou, uma viso de seda amarela e
cabelos louros. A sala estava abarrotada de gente e o ar era es-
pesso de fumaa de cigarro e perfume. Todos estiveram co-
memorando desde a manh, ento parecia ser quatro da
madrugada em vez de dez da noite. Em nome dos velhos tem-
pos, um grupo de meninas da Seaton Arms e da Constance
estavam fazendo o Jogo da Garrafa com um grupo de meni-
nos da Riverside.
    -- Primeiro eu! -- gritou Chuck Bass, ajoelhando-se para
dar um giro vigoroso na garrafa vazia de Stoli.
    Tpico.
    -- Meu pai ficou puto comigo hoje -- confessou Dan.
Ele se empoleirou no brao da poltrona de Vanessa, de repen-
te to nervoso que nem conseguia tomar o champanhe. Ela
no olhava para ele, mas ele esperava que estivesse ouvindo.


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-- Acho que eu devia ter contado a ele antes de fazer meu
discurso.
    Vanessa estava vendo Serena enquanto ela azarava Jarvis
Cocker -- o DJ britnico cool que usava uma cartola preta na
cabine do outro lado da sala. Ela no podia deixar de admirar
como Serena era to completamente sem-vergonha. Ela faria
qualquer coisa desde que no fosse ilegal ou humilhante, s
porque a divertia. O que Vanessa mais admirava, porm, era
que Serena no era convencida -- ela era s Serena. E ela no
parecia precisar de ningum mais para ser Serena. Ela ficava
muito bem sendo ela mesma.
    -- Olha, eu meio que mudei de idia sobre ir para Ever-
green -- continuou Dan. -- Pelo menos, no agora.
    Vanessa podia sentir Dan encarando-a e percebeu que ele
estava tentando lhe dizer alguma coisa importante e que ela
perdera metade disso.
    -- Pera. Como ?
    Dan deslizou pelo brao da poltrona e se ajoelhou no cho
de madeira mbar encerado, pegando as mos de Vanessa.
    -- Eu no te amo a no ser porque te amo -- recitou ele.
    Vanessa ficou feliz que a sala estivesse lotada; caso contr-
rio, ela podia ter ficado meio sem-graa.
    -- No consigo imaginar no dividir o ar que voc respi-
ra, morando a tantos quilmetros de distncia -- disse Dan a
ela com franqueza, desta vez em suas prprias palavras. --
Como eu disse no meu discurso, posso ir para a faculdade a
qualquer hora, mas estou apaixonado por voc agora. E a ni-
ca coisa que eu quero, minha nica necessidade,  ficar com
voc.


264
    A cara de Vanessa ficou vermelha e comeou a formigar.
Bom, ela o amava, mas ele tinha que tornar tudo assim to
dramtico?
    -- Ento voc... -- A voz dela falhou de incerteza.
    -- Vou ficar aqui -- continuou Dan, venerando-a com os
olhos castanhos. -- Com voc.
    De repente a nova msica do OutKast que ningum con-
seguia ouvir sem ficar de p e rebolar a bunda comeou a ber-
rar dos alto-falantes dez decibis mais alto do que o R&B suave
que estava tocando antes. Serena apareceu, pegou a mo de
Vanessa e a puxou da poltrona.
    -- Vem, moderninha -- disse ela, adulando-a. -- Me
mostra o que voc sabe.
    Vanessa sempre odiou danar, pelo menos em pblico, mas
precisava se afastar de Dan agora e de toda a intensidade dele.
Serena bateu os quadris nos dela e Vanessa riu e fez o mesmo.
Ela podia sentir Dan observando-as intensamente, mas ela no
se virou. A msica era boa e ela se sentia vibrante e linda com
seu vestido Morgane Le Fay branco e escorregadio. Dan deve
ter ficado maluco para pensar que era uma boa idia no ir
para a faculdade no ano que vem.  claro que ele ia, mas eles
podiam passar o vero juntos, namorando. A msica ficou mais
alta ainda e Vanessa levantou os braos nus no ar, danando.
Dan era totalmente pirado, mas ela tambm, por sempre ter
dito que no danava.




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o rastro de lgrimas de n
Nate estava sentado na beira de um dos tapetes orientais do
estar do Yale Club, fingindo ver o Jogo da Garrafa. Aquela
francesa hippie, a Lexie, que o seguira a toda parte dizendo
ser loucamente apaixonada por ele, e as outra amigas dela da
L'cole estavam sentadas num crculo apertado s a alguns
metros de distncia, todas usando camisetas de croch com a
barriga magra de fora, fumando Gauloises como demnios.
Ele esperava que ela no percebesse a presena dele.
    Tarde demais.
    -- Nate? -- Lexie se sentou nas coxas, a barriga esqueltica
e bronzeada se projetando de uma forma que ela deve ter jul-
gado irresistvel. Lexie tinha um piercing no umbigo e ele ainda
estava rosado e novo.
    Eca.
    Ela esticou os braos compridos por cima da cabea, dan-
do ao resto da sala uma boa viso da tatuagem de sol, lua e
estrelas na omoplata direita.
    Uh-la-la.
    Nate sorriu, fingindo s ter percebido Lexie agora.


                                                            267
    -- Oi, Lexie. -- Ele acenou cautelosamente e depois abra-
ou os joelhos para mostrar que no tinha a inteno de se
juntar a ela.
    Lexie revirou os olhos castanhos e bateu o rabo-de-cavalo
comprido e preto em um ombro.
    -- Cretino -- retorquiu ela com um forte sotaque fran-
cs e uma carranca que parecia muito francesa. -- Voc aca-
bou comigo.
    Alguma coisa excitante tinha acabado de acontecer no Jogo
da Garrafa e todos uivaram e bateram palmas. Nate comeou
a bater palmas tambm -- qualquer coisa para evitar um con-
fronto com Lexie.
    Serena e a garota esquisita de cabea raspada da Constance
com que Blair supostamente morava e com quem, segundo
se dizia, tinha um caso lsbico estavam danando como divas
do disco no meio do salo, parecendo bbadas e em xtase --
como voc deve ficar no dia de sua formatura do Ensino
Mdio.
    Isto , se voc realmente conseguiu seu diploma nesse dia,
ao contrrio de uma certa pessoa que conhecemos.
    Nate teve um lampejo sbito de dj vu, ou talvez fosse
enfado. O que quer que fosse, era triste e parecia francs. Ele
se lembrou de ficar de porre em uma festa qualquer na casa
de Dan Humphrey no West Side na stima ou oitava srie e
deixar que Blair e Serena desenhassem uma carinha em sua
barriga com marcador permanente. Elas chamaram a carinha
de Dentuo Nu, e cada menina tinha beijado O Dentuo re-
petidamente durante a noite, at depois de Nate desmaiar.
    Bons tempos, aqueles.


268
    De repente Nate se encheu de medo. E se ele j tivesse
vivido toda a diverso da vida? E se daqui para a frente a ladei-
ra s descesse?
    E se ele ficou mais idiota a cada ano do Ensino Mdio em
vez do contrrio? Isso pode acontecer quando voc fica cha-
pado durante a maior parte de sua vida.
    As lgrimas comearam a escorrer lentamente por seu rosto
dourado. Todos os outros na festa pareciam estar felizes e to
animados com o futuro, mas ele no tinha mais certeza do que
viria pela frente.




                                                             269
j pensa em perder aquilo antes do internato
As festas sempre pareciam intimidar Jenny -- em especial
festas onde a maioria das meninas tinha peitos normais e
era mais alta, mais bonita e mais confiante do que ela. Mas
agora que estava no colgio interno, Jenny sentia que as
possibilidades -- pelo menos, as possibilidades para ela --
eram numerosas. Ela no precisava ser a pequena Jenny
Humphrey, a garota artista de cabelo crespo, joelhos nodosos
e peitos gigantescos. No ano que vem, na Waverly, ela podia
ser Jennifer Humphrey, o m ofensivamente confiante de
rapazes, a garota mais descolada da turma do segundo ano,
ou talvez de toda a escola.
    Talvez.
    E se ela tivesse que mudar sua imagem, parecia prudente
que fizesse alguma coisa drstica, tipo perder a virgindade.
    Caraca.
    Ela j estava observando Nate Archibald h algum tempo.
Ele parecia diferente de quando terminou com ela na festa de
Ano-novo. Estava chorando, por algum motivo, e os ombros
estavam arriados, como se ele tivesse recebido notcias ruins


                                                         271
e no fosse capaz de se livrar delas. At seus olhos verdes es-
meralda pareciam ter perdido o brilho. Ela mal conseguia re-
sistir ao impulso de dar um abrao nele.
     -- Oi, Nate -- gritou ela, pegando ousadamente no om-
bro dele. -- Lembra de mim?
     Com esses peitos? Nem o cara mais chapado do mundo
se esqueceria.
     Nate passou as mos na cara inchada e tentou sorrir.
     -- E a, Jennifer -- ele a cumprimentou com o tipo de
nimo cansado de algum que teve um dia difcil e no estava
com muita vontade de conversar.
     -- E a, voc terminou tudo na escola e essas coisas? --
insistiu Jenny. Ela estava plenamente consciente de que, da-
quele ngulo, Nate olhava de baixo as prateleiras dos peitos
enormes dela, que estavam enfiados em um top preto An-
thopologie com um suti reforado de Lycra. Provavelmente
ele no podia ver o rosto dela. Ela se agachou ao lado dele,
balanando devagar nas sandlias BCBG azul-beb. -- Eu vou
para o colgio interno, Waverly Prep, no ano que vem -- re-
velou ela. -- Estou louca para ir!
     Nate ficou meio surpreso que Jennifer quisesse conversar
com ele, mas ficou grato porque isso significava que no ti-
nha mais que evitar falar com Lexie.
     --  uma boa escola.
     -- , e nem vou precisar usar aquele uniforme idiota da
Constance de novo -- acrescentou Jenny toda empolgada, j
se arrependendo de como parecia petulante e infantil. Depois
ela se lembrou de algo que no a faria parecer infantil. Ela se
aproximou um pouco da orelha de Nate. Ele tinha cheiro de


272
camisa recm-lavada e aquela deliciosa colnia Herms de
parar o corao que ele sempre usava. -- Estou com um com-
primido de Ecstasy na minha bolsa. Algum me deu em
Croton School quando eu estava de visita. Eu nem sei se d
para dividir um comprimido, mas... -- ela deu seu sorriso mais
tmido e convidativo.
    Como azarava, como se arriscava a nova Jenny Humphrey
a-caminho-do-internato!
    Nate pestanejou. Jennifer no estava s falando com ele,
estava dando mole para ele -- e muito. O que  isso, ser que
ela pensava que ele ia simplesmente engolir um comprimido
de E e transar com ela bem no meio do estar do Yale Club,
cercado por conhecidos, inclusive a ex-namorada Blair e sua
ele-no-tem-certeza-mas-acha-que-logo-deve-ser-ex-namo-
rada Serena?
   Alguma vez esse tipo de coisa o impediu?
    Nate s tinha tomado Ecstasy duas vezes com Charlie,
Anthony e Jeremy, mas nas duas vezes ele gostou imensa-
mente. No havia nada como aquela sensao boa e eufrica
do Ecstasy -- at que passa o efeito e voc fica cansado e de-
sidratado e s quer mergulhar em um balde de Poland Spring.
Ele definitivamente estava se sentindo mais por baixo agora
do que nunca na vida. Talvez um pouco de Ecstasy com a
baixinha Jennifer Humphrey -- que parecia ficar mais bo-
nitinha com o passar do tempo -- fosse exatamente do que
ele precisava.
   Jenny podia ver que Nate estava tentado. Estimulada por
sua capacidade de ludibriar garotos mais velhos e bonitos


                                                          273
com seu jeito sedutor, ela sussurrou sensualmente no ou-
vido dele:
    -- Vamos para o banheiro e mandar ver.
    Como  que ? Ser que ela no se lembra do que aconte-
ceu da vez passada, quando ela estava sozinha em um banhei-
ro com um cara mais velho e excitado?




274
o que voc prefere no ouvir no
pode te magoar
Blair estava no reservado de um dos elegantes e imaculados
banheiros decorados em ouro das mulheres no Yale Club
pensando no fato de que no vomitava h mais de um ms
quando ouviu os primeiros boatos preocupantes.
     -- Eu soube que ele nem  um lorde de verdade. Ele  s
um ingls que veio para c e fingiu ser um grande aristocrata.
Aposto que ele no caa raposas nem usa fraque e cartola para
jantar nem nada disso -- tagarelou Laura Salmon do reserva-
do ao lado do de Blair.
     -- Eu s acho que  mesmo uma merda da parte dele.
Quer dizer, se ele est noivo de alguma garota na Inglater-
ra, isso significa que ele na verdade est traindo as duas --
responde Kati Farkas negligentemente enquanto borrifava
o cabelo com um frasco de amostra de spray capilar Fre-
derick Fekkai pela terceira vez naquela noite. -- Eu sim-
plesmente adoro o cheiro desse troo. Voc no adora o
cheiro? s vezes eu at ponho nas minhas roupas, embora



                                                          275
eu saiba que  meio tosco. Quer dizer,  um spray para
cabelo!
    Blair manteve erguida a saia pregueada de cetim branco
Oscar de la Renta para que as meninas no a reconhecessem.
Ser que elas estavam falando de Lorde Marcus?
    -- Eu s acho que algum devia contar a ela -- declarou
Laura antes de dar a descarga. Ela abriu a porta do reservado e
comeou a lavar as mos com o sabonete lquido de limo
L'Occitane fornecido pelo Yale Club. -- Voc no acha?
    -- Total -- concordou Kati.
    Como se elas tivessem coragem para isso.
    Blair esperou at que elas sassem antes de abrir a porta
do reservado. Seu estmago revirava de tanta vodca e cham-
panhe que tinha tomado nas ltimas horas, mas ela no ia
recorrer ao vmito e se arriscar a sujar a saia de seu terninho
primoroso.
    O que elas sabem sobre o Marcus?, enfureceu-se ela. A inveja
dessas meninas era to transparente que ela ficou ainda mais
enjoada s de pensar nisso.  claro que ele era um lorde. Ser
que elas no perceberam seus maravilhosos sapatos Church sem
um arranho? O corte impecvel do cabelo? As camisas Savile
Row feitas sob medida? Ser que elas no ouviram como ele a
chamava de "linda" e "querida" e a beijava na mo como se fos-
se a coisa mais natural do mundo? No havia nenhuma men-
o a uma noiva quando Blair procurou pelo nome dele no
Google. De jeito nenhum ele era noivo -- de ningum, a no
ser dela. Ela fechou os olhos sonhadora. Lady Blair Rhodes --
tinha um som bem legal.


276
    A porta do banheiro se abriu e Isabel Coates entrou, pare-
cendo histrica porque a fivela de cetim branco Dior se afrouxa-
ra enquanto ela danava. Isabel sempre era to manaca pelo cabelo
que Blair se perguntou por que ela simplesmente no o cortava.
    -- Ah. Voc est aqui -- observou Isabel, deixando bvio
que ela acabara de fazer parte da dissecao que Laura e Kati
promoveram do dito Lorde Marcus. -- Acho que eu  que
tenho que te contar. -- Ela baixou a voz para que Blair sou-
besse que o que ela ia dizer era extremamente importante. --
Antes de voc se magoar.
    Como se ela realmente se importasse.
    Blair semicerrou os olhos, olhando gelada o reflexo de
Isabel no espelho emoldurado em ouro.
    -- Me contar o qu?
    Isabel enfiou alguns fios de cabelo castanho atrs das ore-
lhas, depois franziu a testa e arrancou a fivela, comeando tudo
de novo. Blair pensou que a cala jeans curta e a camiseta ver-
melha Juicy rasgada a deixavam brega e desesperada, como
Paris Hilton.
    -- O Lorde Marcus  casado -- disse Isabel sem rodeios,
estremecendo ao tentar deixar o rabo-de-cavalo totalmente liso
e sem calombos.
    Blair passou gloss Chanel Stroppy nos lbios pela stima
vez em cinco minutos. Ela estava to puta, que pensou que
finalmente podia vomitar.
    -- Besteira.
    Isabel revirou os olhos castanhos de clios longos e suspi-
rou como se j estivesse de saco cheio do assunto.


                                                              277
    -- Bom, quase. Ele  noivo. Ele est noivo desde, tipo as-
sim, os dez anos de idade. Sabe como , tipo a Lady Di e o
prncipe Charles?
    Blair girou, afastando-se do espelho, os punhos fechados
com fora para no estrangular o pescoo de avestruz de Isabel.
    -- E onde exatamente voc soube disso?
    Isabel deu de ombros de um jeito exasperante.
    -- Todo mundo sabe. , tipo assim, um fato.
    Dependendo de sua definio de fato.
    -- Essa  a coisa mais idiota... -- Blair estava prestes a
tentar defender a honra de Lorde Marcus, mas se deteve. Eles
eram jovens, estavam apaixonados, quem se importava com o
que os outros pensavam? Mesmo que houvesse uma chata na
Inglaterra com quem Lorde Marcus devia se casar, ela prova-
velmente parecia a rainha Vitria e ficava com a bunda gorda
sentada no castelo comendo bolo o dia todo, perguntando-se
por que Lorde Marcus nunca telefonava.
    Isabel sorriu para seu reflexo, finalmente satisfeita.
    -- Eu s pensei que voc devia saber. -- Ela deu de om-
bros e depois ergueu as sobrancelhas hiperdepiladas para
Blair. -- Quer fumar um cigarro com a gente? -- ofereceu
ela, como se elas todas ainda tivessem 13 anos e s fumas-
sem em grupos.
    -- No. -- Blair passou por ela, empurrando-a, e saiu pela
porta do banheiro. Ela espiou o estar loucamente apinhado, mas
a poltrona onde ela e Lorde Marcus estavam sentados juntos
agora era ocupada pelo amigo magrela, barulhento e chapado
de Nate, Jeremy, e uma francesa desmazelada que tentava ensi-


278
nar a ele como fazer anis de fumaa no formato de corao.
Lorde Marcus no estava em lugar nenhum  vista. Blair pas-
sou os dedos no colar de prolas Bvlgari e andou pelo corredor
at o elevador.
    A noite toda ela quis ficar sozinha com Lorde Marcus em
seu quarto. Agora era sua chance.




                                                          279
d repensa os planos de vero
A mo que segurava o cigarro de Dan tremeu violentamente
enquanto ele via a irm desaparecer no banheiro dos homens,
seguida por aquele mauricinho doido arrogante do Upper
East Side, Nate Archibald. Jenny parecia estar mais ousada e
mais segura de si  medida que o ano avanava, enquanto ele
parecia estar regredindo ao man sem amigos e cheio de
frescuras que ele tinha sido at este ano. Ela at conseguiu ir
para o internato depois que as admisses do ano letivo seguinte
foram encerradas, enquanto ele reduzira suas opes a nada.
    A msica agora era realmente alta e Vanessa e Serena ins-
piraram meia sala a se levantar e danar. Vanessa tinha tirado
as sandlias de salto plataforma, mostrando os ps de unhas
pretas plidos e profundamente arqueados. Dan adorava bei-
jar o arco dos ps de Vanessa. Ele podia escrever sonetos so-
bre o arco dos ps de Vanessa. Mas isso foi quando Vanessa
no bebia, no danava, no usava branco e nem nada a no
ser jeans pretos, meias pretas e Doc Martens. Ela parecia to
diferente agora -- se ele tivesse que escrever um poema so-
bre ela, no tinha certeza de por onde comear.


                                                           281
    Vanessa danou para ele e passou os braos em seu pesco-
o. A pele clara dela estava escorregadia de suor e as plpebras
pesadas de toda a vodca que ela consumira.
    -- Eu te amo, Dan. Te amo mesmo -- murmurou ela sen-
sualmente na orelha dele antes de se afastar de novo, o corpo todo
brilhando. Dan ficou encarando, sinceramente acreditando que
ela o amava. Ela s no precisava dele com ela, no o tempo todo.
Ela estava ocupada demais largando seu casulo preto e se trans-
formando em uma mariposa brilhante de asas brancas.
    Mas ele j havia adiado a admisso em Evergreen. O que
ele ia fazer agora?
    Acendendo um Camel, ele pensou em invadir o banheiro
dos homens para resgatar Jenny em nome dos velhos tempos,
e porque um ato nobre desses podia fazer com que ele se sen-
tisse melhor, mas ele estava cheio de sempre ser o irmo mais
velho responsvel. Por que algum no podia resgatar a ele, s
para variar?
    T legal.
    -- Filho? Posso conversar com voc um minuto?
    Dan largou o cigarro no tapete oriental vinho e dourado,
quase pulando de surpresa das calas Vans azuis e desbotadas.
Era seu pai, com o moletom preferido de algodo roxo e ca-
miseta preta dos Mets, vermelho de tomar vinho tinto demais.
    -- Acho que sim -- respondeu Dan devagar. A msica
no estar era absurdamente alta. Dan levou Rufus para fora. Na
avenida Vanderbilt, o ar era vaporoso e as caladas eram de um
preto reluzente. Do outro lado da rua, a Grand Central Station
parecia uma relquia gigante do passado. Um Buick Skulark
77 azul-metlico, outra relquia do passado, estava estaciona-


282
do na frente do Yale Club, parecendo completamente deslo-
cado. Duas magricelas da L'cole estavam sentadas no cap
brigando para ver quem era mais bonita ou quem fumava
Gauloises com mais ostentao. Atrs delas, as sandlias Gucci
douradas estavam descartadas em uma pilha. De repente elas
comearam a se beijar.
     -- Meu Deus -- murmurou Rufus, puxando a barba gri-
salha opaca que parecia um Bombril usado.
     -- Que foi, pai? -- gemeu Dan impaciente. Era meio
constrangedor ficar parado ali, fora da festa, com o pai. Ele se
sentia com 11 anos de idade.
     Rufus enfiou as mos por dentro do cs de elstico do
moletom roxo e Dan vacilou ao pensar como o gesto no era
nada atraente.
     -- Depois que voc saiu, recebi um telefonema de um
professor grego delirante da Evergreen. Primeiro ele veio com
um papo maluco de que voc devia dormir na rede dele e
comer folhas de uva com ele, mas depois comeou a ficar fi-
losfico sobre como os garotos da sua idade no conseguem
diferenciar o sexo do amor. Ao que parece, ele  um especia-
lista no assunto.
     "Mas ento eu conversei com ele por um tempo, e o que
conclu foi que ele vai fazer com que segurem sua vaga pelo
outono, a) porque eu pedi a ele, b) porque ele devia ser seu
orientador e quer que voc o ajude no livro dele e c) porque
ns dois gostamos de voc, embora voc seja um cabea-oca."
     Dan se ressentia do tom afetuoso e um tanto paternalista
do pai.
     -- No pode me dizer o que fazer -- contra-atacou ele,


                                                            283
cruzando as mos no peito e parecendo mais novo a cada mi-
nuto. -- No pode.
    --  verdade -- concordou Rufus. Ele gesticulou para o
moderno Buick estacionado em frente ao Yale Club. -- Mas
eu j comprei o carro para voc. O mnimo que voc pode
fazer  me deixar te ensinar a dirigir neste vero e depois dar
o fora daqui.
    Dan j lera sobre epifanias e escrevera sobre epifanias, mas
nunca tivera uma de verdade. Ele conseguira entrar para to-
das as universidades a que se candidatou, tinha um poema
publicado na New Yorker. E o que ele ia fazer no ano que vem
-- trabalhar numa livraria ou servir a mesas para se manter
ocupado enquanto Vanessa estava em aula?
    -- Eu podia tirar o vero para trabalhar -- disse ele, sem
estar disposto a deixar que o pai pensasse que ele podia ser
convencido com essa facilidade toda. Ele e Vanessa podiam
passar o vero namorando sempre que ela no estivesse ocu-
pada trabalhando naquele filme e ele no estivesse ocupado
dirigindo por a nesse... m de mulheres. Quem sabe? Talvez
houvesse outras garotas para amar alm de Vanessa, s o que
ele tinha de fazer era tirar a carteira de motorista e dirigir para
o Oeste para descobrir.
    Rufus estendeu a mo para dar um tapinha nas costas dele,
mas Dan abriu os braos e deu um abrao no pai.
    -- Essa festa estava meio chata mesmo -- confessou ele.
    Rufus grunhiu e o levou para o carro, que tirava uma onda
iluminado por um poste perto do meio-fio.
    -- Ento, que tal eu te dar a primeira aula de direo?
    Ai. Voc no adora finais felizes?


284
sexo, drogas e rock'n'roll
Jenny trancou a porta do reservado para deficientes fsicos no
banheiro dos homens, insegura se tirava a roupa ou pegava o
comprimido de Ecstasy na bolsa. Havia um abanar de impacincia
nas narinas de Nate, mas ela no tinha certeza do que ele queria
primeiro, se sexo ou drogas.
    Ela abriu o fecho da LeSportsac preta com os gatos persas
brancos e abriu a bolsa de moedas no mesmo padro.
    -- Aqui est. -- Ela retirou o pequeno pedao de Saran
Wrap com o comprimido dentro e comeou a desenrol-lo
com cuidado.
    Nate espiou por sobre o ombro dela.
    -- Quer tomar ou eu tomo?
    Jenny no ia querer e ele obviamente queria.
    -- Toma voc. -- Ela estendeu a palma da mo e Nate
pegou o comprimido entre o polegar e o indicador. Ele abriu
a boca, fechou os olhos e esticou a lngua, apertando o com-
primido nela antes de abrir os olhos e fechar a boca novamente.
Desse jeito ele no ficava muito bonito, mas Jenny ainda ti-
nha a inteno de transar com ele. Este era o canto do cisne


                                                            285
dela, sua ltima chance de forjar suas prprias lembranas e
ser lembrada.
    Ah, ela ia ser lembrada, sem dvida nenhuma.
    -- Tem gosto de alguma coisa? -- perguntou ela, genui-
namente curiosa.
    -- Nada. -- Nate sorriu. Quanto mais tempo passava
sozinho com Jennifer, mais ele se sentia com sua velha iden-
tidade de volta. S o que ela queria era um pouco de diver-
so sem compromisso, sem expectativas de final de ano antes
de ir para o internato ou a droga para onde ela fosse no ve-
ro, e esta era a especialidade dele. Ele se curvou e beijou
Jenny com delicadeza nos lbios, como se estivesse morden-
do uma coisa que ainda estava quente demais para comer.
-- Mas voc tem.
    Jenny adorava a idia de que estava usando Nate e o fato
de que ele queria que ela o usasse lhe deixava bem mais do que
excitada. Ele afagou o cabelo castanho crespo de Jenny e ela
ergueu o queixo e olhou nos incrveis olhos verdes dele.
    -- Lembra quando eu me apaixonei por voc?
    Nate sorriu novamente e a beijou mais uma vez. Ele fez
isso por algum tempo, sorria e beijava, sorria e beijava, como
se estivesse lambendo um sorvete de casquinha delicioso.
    -- Voc tem uma pele de... de... ptalas -- observou ele
esperava o Ectasy fazer efeito. Ele passou a ponta do nariz na
tmpora de Jenny. -- Grrr.
    Jenny riu. Era totalmente sensacional estar assim to per-
to e to  vontade com Nate de novo. Ele era absurdamente
lindo e ser beijada por ele era muito, muito, muito bom. Mas
Nate estava comeando a entrar numa trip e ela no queria


286
perder a virgindade com um cara que achava que era um filhote
de Labrador. Isso ela no ia fazer.
    Bom, pelo menos Jenny tinha essa integridade toda.
    Ainda assim, esta era sua ltima noite de doideira antes de
pegar o avio para passar o vero em Praga. Ela no estava pron-
ta para terminar.
    Nate passou o queixo nas sobrancelhas castanhas e feitas
de Jenny e ela ergueu o queixo para dar outro beijo longo e
faminto nele. O irmo dela sempre lamentava que a vida dele
era um saco. Mas ela no podia discordar mais. No era como
se ela pretendesse que a vida fosse assim, emocionante. Sim-
plesmente era; e realmente era.




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no h nada como um pouco de mistrio
-- Marcus, querido? -- chamou Blair insegura atravs da
porta de madeira branca mofada do quarto de Marcus. Ela no
o chamara de "querido" em voz alta antes, mas estava se
tornando sua palavra carinhosa preferida. -- Voc est a?
    Ela pensou em ficar s com as prolas Bvlgari bem ali no
corredor, mas o Yale Club sempre tinha os quartos ocupados,
e se um professor engravatado de Yale a visse nua esta noite e
depois ela o pegasse em Introduo ao Direto ou outro de seus
cursos de caloura no ano que vem?
    Bom, certamente tornaria o curso mais interessante.
    -- Marcus? -- Blair apertou a orelha na porta, tentando
ouvi-lo. Nada. Ela tentou a maaneta. A porta estava destran-
cada. Ela empurrou alguns centmetros e enfiou a cabea para
dentro. -- Marcus? -- Nada ainda. Ela empurrou a porta e a
abriu completamente.
    As gavetas do armrio de carvalho antigo tinham sido aber-
tas e uma toalha molhada estava amarrotada na cama. O ar
estava pesado de vapor e o aroma da colnia Carolina Herrera
for Men de Marcus. A porta do closet estava aberta. Os cabi-
des de cedro estavam vazios. Marcus tinha ido embora.
    pa.
    Blair se sentou pesadamente na cama, sentindo-se muito
como a herona que terminou o namoro mas era linda em um
dos filmes picos de sua cabea que ela parara de assistir por
algum tempo. Ela renunciou a seus enormes culos de sol
Jackie O, o cachecol Herms e o sobretudo Burberry, porque
a herona que estava apaixonada e tinha namorado no preci-
sava deles. Agora ela os queria de volta.
    Como foi que isso aconteceu? Ser que o nico propsito
dela na vida era servir de uma droga de capacho para rapazes
como Nate e Lorde Marcus esfregarem a sola dos sapatos
mentirosos e traidores Church's of London?
    Seu estmago se revirou, ela se levantou e correu para o
quarto dela, vizinho ao dele, pretendendo vomitar assim que
chegasse ao banheiro. Apoiado na escrivaninha havia um en-
velope grande e creme com as palavras Minha Querida B es-
critas na letra rebuscada de Marcus, e uma caixinha de veludo
preto com a palavra BVLGARI impressas em ouro. Blair resis-
tiu ao impulso de abrir a caixa e abriu o envelope. Dentro havia
um bilhete de Marcus escrito num carto creme Crane com
LORDE MARCUS BEATON-RHODES impresso no azul Yale, jun-
to com uma passagem da British Airways.
    Blair continuou de p enquanto devorava o bilhete, ten-
tando ignorar as pequenas exploses em sua barriga, como
bolhas de sabo que estouravam.

   Minha queridssima Blair, Bee, minha abelhinha,
       Como eu poderia saber, quando planejei uma curta visita a
   Nova York depois de completar Yale, que conheceria uma mu-
   lher e me apaixonaria por ela? E no por qualquer mulher --


290
   voc. Seria impossvel descrever meus sentimentos, ento eu corri
   e comprei para voc duas coisinhas para acompanhar o colar.
   Prometa-me que vai us-las quando eu a vir, o que deve acon-
   tecer daqui a algumas semanas, se voc for to gentil para levar
   sua beleza no avio para o qual eu to presunosamente reser-
   vei um lugar para voc -- na primeira classe,  claro. Para da-
   qui a duas semanas, o que lhe d muito tempo pra comprar todo
   um novo guarda-roupa, fazer uma srie de tratamentos faciais
   ou de bronzeamento, ou o que quer que voc faa para se man-
   ter to estonteante como sempre est. Desculpe por fugir de voc
   desse jeito, mas  sua festa de formatura da escola, a nica que
   voc ter na vida, e eu no queria estrag-la dizendo adeus.
   Muito bem, estou indo. Por favor, v  Inglaterra. Vou sentir
   sua falta.

       Com amor, como sempre
       Marcus

    Blair pegou a caixinha de veludo preto na escrivaninha
branca e a abriu. Duas prolas enormes e perfeitas reluziram
para ela, cada uma pendurada em um B cursivo de ouro -- os
brincos para combinar com o colar. Ela arrancou os brincos
de prola e colocou os Bvlgaris.
    Bee. Minha abelhinha.
    Parecia muito duvidoso que Marcus estivesse noivo de
alguma duquesa gorda e nariguda de sangue azul se ele com-
prou para Blair uma passagem area para a Inglaterra para que
ela conhecesse a me dele. A julgar pelo material de escritrio
impecvel, Lorde Marcus tambm era um lorde autntico. E


                                                                   291
a julgar por seu bilhete e a passagem de avio e as prolas, ele
verdadeiramente a amava.
    Abrindo a primeira gaveta da escrivaninha, ela enfiou a
passagem area junto com seu suti meia-taa La Perla preto
preferido.
    Ao contrrio do que se acredita, no h nada como uma
partida misteriosa para acender o interesse de uma mulher.




292
voc sabe que me ama
O cabelo louro claro de Serena estava colado de suor e o vestido
Tocca amarelo grudava em sua pele como um leno de papel.
Ela danou por uma hora e mal conseguia ficar de p. Vanessa
estava apoiada na parede, tomando uma garrafa de Perrier, o
rosto vermelho do esforo. Serena se juntou a ela, pegando a
gua da mo da amiga e despejando na garganta.
    -- Voc no viu o Dan, viu? -- perguntou Vanessa sem
flego. Agora que tinha acabado de danar, podia ser diverti-
do achar um canto sossegado no clube em algum lugar e se
agarrar com Dan um pouco.
    -- No -- assinalou Serena. As duas meninas olharam o
salo, os olhos ardendo do sal de seu suor. Um grupo de me-
ninos do segundo ano com uniforme cinza de uma escola
catlica estava fazendo uma pirmide humana com Chuck
Bass no alto, embora ele pesasse tanto quanto todos eles jun-
tos. Uma das meninas da L'cole tinha tirado a camiseta e
estava danando sozinha no canto, fumando um baseado e
arranhando uma guitarra, uma tatuagem de sol, lua e estrelas
se destacando na omoplata.


                                                            293
    -- Essa festa est esquisita -- observou Vanessa.
    -- Voc viu o Nate? -- perguntou Serena. Ela se lembra-
va vagamente de ter chegado com ele, mas no o vira desde
ento. Ela estreitou os olhos, meio que esperando encontrar
Nate chorando no bar, mas no o viu em lugar nenhum.
    Blair saiu do bar, uma flte nova de champanhe borbulhante
na mo e um cigarro novo pendurado de uma piteira antiga
de bano e madreprola entre os lbios, parecendo uma per-
sonagem de um filme antigo. Serena tomou impulso na pare-
de e foi para o bar.
    -- Eu adoro as suas prolas.
    Blair decidiu no cuspir na cara de Serena nem arrancar
seus olhos azuis.
    -- O Marcus me deu.
    Serena assentiu, prestes a dizer alguma coisa sobre que cara
maravilhoso era o Marcus, mas ela estava distrada.
    -- Voc viu o Nate?
    Blair tomou um longo gole de champanhe e soprou fuma-
a no ar. Andara ocupada aceitando presentes de seu namora-
do aristocrata misterioso. No teve tempo de acompanhar o
paradeiro errtico de Nate.
    -- Na verdade, no.
    Serena varreu a sala com os olhos.
    -- Ele tem agido de um jeito estranho -- observou ela,
roendo a unha do polegar. -- Voc no acha?
    Mais uma vez, Blair no tinha opinio sobre o assunto. O
suter verde-musgo estava ali onde ela o deixara, dobrado em
uma poltrona prxima.
    -- Acho -- concedeu ela.


294
     Aquela baixinha peituda do primeiro ano, Jenny Humphrey,
saiu do nicho onde ficava o banheiro dos homens, o cabelo
crespo escuro meio despenteado e a boca vermelha e inchada,
como se tivesse beijado demais. Ela parou e estendeu a mo,
como que para uma criana. Depois Nate surgiu, parecendo
desorientado e feliz. Jenny ps o brao na cintura dele, ele se
virou e a beijou com ansiedade na boca, como se os lbios dela
fossem feitos de chocolate ou coisa assim.
     -- Oh! -- exclamou Serena, como se tivesse sido belis-
cada. Ela piscou os olhos azuis, tentando averiguar se estava
verdadeiramente magoada ou surpresa. Nunca pareceu certo
ela e Nate juntos. E seria melhor ficar sozinha neste vero,
para poder se concentrar no filme. Pelo menos agora ela no
teria de se incomodar em terminar com ele. No que eles es-
tivessem realmente juntos.
     No, no mesmo.
     -- Tpico -- zombou Blair. Ela pegou um Merit Ultra
Light do mao e passou a Serena. -- No fique chateada. Ele
no consegue se conter.
     Serena pegou o cigarro e o colocou entre os lbios, espe-
rando que Blair acendesse para ela.
     -- No estou chateada -- suspirou ela, sentindo-se alivia-
da. Pela primeira vez, ela e Blair estavam se unindo contra Nate
em vez de brigar por ele. Era uma mudana bem-vinda. -- E
a, vai me emprestar para o filme? -- Ela apontou para a pitei-
ra de Blair. -- Apesar de eu achar que vou me lascar se tentar
usar isso. Sou to desajeitada.
     Blair adorava quando Serena se diminua. Dava esperan-
as a ela.


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    --  claro que empresto.
    Instintivamente, as duas meninas se viraram enquanto al-
gum se inclinava para elas do outro lado da sala. A cara de
Nate estava relaxada, os olhos verdes enormes e o corpo pa-
recia mais solto do que o normal. Ele veio at elas de braos
abertos, agarrou Serena e a puxou em um beijo ainda mais
grudento do que tinha dado em Jenny. Serena riu e o afastou.
    -- Natie!
    Mas ele estava impossvel. Largando Serena, ele foi para Blair,
apertou os lbios nela e meio que aspirou toda a boca da garota.
    -- Que porra  essa? -- exclamou Blair, dando um passo
para trs para se libertar.
    Nate ficou parado entre as duas meninas, sorrindo como
o cara mais sortudo da terra.
    -- Somos todos to bonitos -- disse ele,  guisa de expli-
cao. -- No consigo parar de beijar.
    Os olhos de Blair encontraram os de Serena. Nate estava
agindo de um jeito estranho. Ele estava de miolo mole, como
se dizia antigamente. Ainda assim, havia alguma coisa de
contagiante na exuberncia de cachorrinho dele. Eles tinham
se formado hoje. Por que no agir de um jeito estranho? E
por que no beijar todo mundo? Alguns ali poderiam no fi-
car juntos novamente.
    E alguns iam ficar muito juntos.
    -- Quer ver uma coisa bem legal? -- perguntou Blair,
erguendo a sobrancelha de uma forma que todas as alunas mais
novas da Constance passavam horas tentando imitar.
    Ela deu um passo  frente e ps as mos nos ombros nus
de Serena. De imediato Serena entendeu o que elas iam fazer.


296
As duas meninas sorriram, as cabeas se aproximando cada vez
mais uma da outra, como se em cmera lenta.
    -- Voc sabe que me ama -- murmuraram elas em uns-
sono antes de seus lbios se encontrarem num beijo.
    A sala ficou perceptivelmente silenciosa enquanto todos
paravam o que estavam fazendo e se viraram para olhar, mas as
duas meninas continuaram se beijando. Era alguma sacanagem,
perguntou-se todo mundo, um ltimo trote de veteranas?
    Talvez. Ou talvez no.




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Advertncia: Todos os nomes verdadeiros de lugares, pessoas e fatos foram alterados
ou abreviados para proteger os inocentes. Quer dizer, eu.




                               oi, gente!
    Bom dia, formados!

    Voc no acha que sua cara estava um pouquinho diferente
    hoje de manh -- ou de tarde, eu deveria dizer, uma vez que
    nenhum de ns nem foi para a cama antes desta manh? On-
    tem foi meio surreal, mas sim. Aconteceu mesmo. Ns aca-
    bamos e agora estamos acabadas.


    Os dias so curtos e as noites so muito, muito longas

     tera  tarde -- quase noite, na verdade -- e aqui estou eu
    ainda na cama. A primeira coisa que eu fiz quando acordei?
    Atirei minha roupa de formatura no fundo do meu closet e
    atirei meus uniformes da escola que nunca-mais-vou-usar na
    lixeira do meu prdio. Depois pensei em fazer planos com-
    plicados de levar um bando de amigos para a praia em Sag
    Harbor no meu novo carro europeu maravilhoso. Mas depois
    mudei de idia. No tinha absolutamente pressa nenhuma.
    Podemos fazer isso amanh, ou depois de amanh, ou de-
    pois de depois de amanh. Ento eu pedi o caf-da-gmanh



                                                                              299
      da E.A.T., subi na cama, e aqui ainda estou, completamen-
      te contente. Vou ficar aqui por pelo menos meia hora --
      at que esteja na hora de me preparar para sair novamen-
      te. Nem pense em brincar no sol o dia todo -- voc precisa
      acordar cedo para isso. O vero na verdade  de noites
      longas, muito longas!

  Yale Club adota nova poltica de festas

      J se passaram doze horas e eles ainda esto tirando gente dos
      tapetes orientais no estar e colocando-os em txis. Depois da
      mistura da noite passada de meninas de topless, meninos em
      pirmides humanas, meninas se agarrando com meninas, me-
      ninos se agarrando com meninos, o desaparecimento da ban-
      deira de Yale que ficava pendurada na porta da frente do clube
      e hspedes reclamando da msica insanamente alta e da fuma-
      a de cigarro, o clube simplesmente teve de tomar uma atitude.
      De agora em diante, os membros do Yale Club so bem-vindos
      para dar festas, mas s para outros membros do Yale Club e
      suas famlias. Nenhum convidado de fora ter permisso de en-
      trar. Parece que um certo trio de novos alunos de Yale ter de
      ficar em termos melhores se quiser se divertir ali novamente.


  Parece que ser o vero do amor

      B+S

      V+D

      D + ele mesmo

      V + ela mesma



300
S + ela mesma

J + um gato tcheco qualquer que no fala ingls

N + ele mesmo

B + Lorde M... e ela mesma,  claro


Mas isso suscita mais perguntas

Ser que S e B agora so amigas, ou amantes? Isso significa
que o boato da banheira  verdade?

Ser que N vai sobreviver a este vero de trabalho rduo e
devoo religiosa nos Hamptons, em especial sem B e S?

V vai conseguir o emprego de cinematgrafa em Breakfast at
Fred's? Como vai suportar o diretor louco do filme?

V e D realmente esto juntos agora? Se esto, ser que vai
durar por todo o vero e alm dele?

D vai aprender a dirigir o Buick, ou as mos dele vo suar de-
mais para segurar o volante?

Ser que B realmente vai  Inglaterra para visitar o lorde
lindo? E ela vai voltar usando uma coroa? Ser que ela vai
voltar?

S vai fazer com que Audrey Hepburn parea uma amadora?
Mais importante, quem vai protagonizar o filme com ela?

Ser que ainda teremos notcia de J, mesmo quando ela esti-
ver na Europa? E quando ela estiver no internato?...



                                                             301
      Sem dvida nenhuma, voc vai saber tudo sobre todo mun-
      do. Eu nunca fui muito boa para sonegar informao!


  No suma

      Para o caso de voc estar se perguntando: eu posso ter me for-
      mado e posso ir para a universidade no outono, mas definiti-
      vamente no vou evaporar nem desaparecer. H tanta coisa
      para contar. Sempre haver...

                      Pra voc que me ama,

                      gossip girl




302
